POR QUE TANTOS ADULTOS HOJE EM DIA SÃO ASSOMBRADOS POR TRAUMAS? – Jenara Neremberg

Nesta breve entrevista, Gabor Maté, médico neurologista que vem questionando consistentemente aquilo que pensamos sobre doenças mentais, insistindo na origem social destes transtornos, aponta a grande importância dos vínculos e das relações no cuidado de traumas, especialmente na infância, olhando para estes valores como necessidades humanas compartilhadas e fundamentais. 

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Original em inglês: https://greatergood.berkeley.edu/article/item/why_are_so_many_adults_today_haunted_by_trauma#.WVIp2Jqpb6A.facebook Traduzido por Angelica Rente

Nossos sistemas político e social não apoiam as necessidades humanas fundamentais, diz Gabor Mate, o que afeta nossa habilidade de lidar com eventos traumáticos.

Sessenta por cento dos adultos relatam experiências de infância difíceis, incluindo divórcios exaustivos, violência e abuso. Os efeitos do trauma são duradouros, variando de ansiedade a doenças físicas, passando por estresse pós-traumático.

Mas, de acordo com dr. Gabor Mate, nos focarmos somente no papel da família nos traumas de infância não leva em consideração o panorama geral. E se o trauma também resultasse de uma falha de parte da sociedade em apoiar as famílias a serem bem-sucedidas? Se a sociedade ajudasse professores e pais a satisfazerem as necessidades humanas básicas por apego e conexão das crianças, será que produziríamos menos adultos traumatizados?

Mate foca grande parte de seu trabalho terapêutico na cura de traumas, explorando o papel de experiência infantis adversas nas adicções e outros sofrimentos que surgem mais tarde na vida. Ele é o autor de In The Realm of Hungry Ghosts [No Reino dos Fantasmas Famintos] e seu trabalho têm angariado atenção internacional e seguidores dedicados.

Nos encontramos com Mate, que vive em Vancouver, para uma conversa no Instituto de Estudos Integrais da Califórnia, em São Francisco. Pesquisas já descobriram do que nós precisamos para nos conectarmos e florescermos, ele argumenta, mas a sociedade não está pondo este conhecimento em prática – o que nos coloca a todos em risco.

Janara Nerenberg: Você pode explicar seu pensamento sobre o “mito do normal”?

Gabor Mate: Eu penso que a normalidade é um mito. A idéia de que algumas pessoas têm patologias e o resto de nós é normal é cruel. Não há nada em uma pessoa mentalmente doente – e não importa qual o diagnóstico que ela tenha recebido – que eu não possa reconhecer em mim. A realidade é que, em todos os casos, a doença mental é o resultado de eventos traumáticos. E por trauma eu não quero dizer eventos dramáticos. Há uma diferença.

Fundamentalmente, tem a ver com o fato das necessidades humanas serem ou não atendidas. Como vivemos em uma sociedade que nega largamente as necessidade de desenvolvimento humanas – se ela nem as entende, quanto mais provê-las – temos muitas pessoas afetadas de diversas formas. A maioria da população, de fato. E então, separar aqueles que cumprem um critério particular para um determinado diagnóstico do resto de nós é totalmente não-científico e inútil.

Para além disso, precisamos olhar para o que acontece com a nossa sociedade que gera o que chamamos de anormalidade.

JN: Então, por exemplo, como você vê algo como o autismo?

GM: Temos que entender que, o que quer que esteja acontecendo, não pode ser algum “problema” genético, porque os genes não mudam numa população no decorrer de 10, 20, 30, ou mesmo 300 anos. Então, o que quer que esteja acontecendo, não é geneticamente determinado. Pode ser biológico, mas não genético, porque não podemos reduzir a biologia à genética.

Na verdade, a biologia e a neurobiologia humanas são interpessoais. O cérebro é um órgão social que é afetado pelo ambiente e, particularmente, pelo ambiente psico-emocional. Então, precisamos perguntar: o que pode estar acontecendo na sociedade que pode estar afetando os bebês e as crianças?

JN: Qual é a sua resposta para esta pergunta? O que leva ao trauma na nossa sociedade?

GB: A essência do trauma é nossa desconexão de nós mesmos. O trauma não é uma coisa terrível que aconteceu a nós – isso é traumático. Mas o trauma é a separação entre o corpo e as emoções. Então, a pergunta real é: “Como nos separamos, e como nos reconectamos?”

Porque nossa natureza verdadeira – nossa natureza verdadeira é a conexão. Na verdade, se não fosse essa a nossa natureza verdadeira, não seríamos seres humanos. A espécie humana – ou qualquer outra espécie – não poderia evoluir se não estivesse fundamentada em nossos corpos. Não poderíamos ter um bando de intelectuais vagando pela selva, divagando abstratamente sobre o sentido da vida, com um tigre dente-de-sabre à espreita atrás do próximo arbusto.

Nos tornarmos desconectados não é uma consequência automática de vivermos no mundo. É um produto de um certo modo de vida e de um certo modo de parentalidade e de certas experiências da infância, nas quais se torna muito doloroso estarmos conectados, então a desconexão se torna uma defesa.

JN: Há alguma pesquisa chamando sua atenção neste momento?

GM: Bem, há este campo da neuropolítica, no qual se olha para como as visões políticas são afetadas pelas funcionalidades do cérebro, mas ainda não se reuniu isto com a pesquisa sobre desenvolvimento infantil. Muito trabalho poderia ser feito sobre as razões das pessoas serem resistentes à realidade.

Veja o simples caso da mudança climática, que está além de qualquer controvérsia na mente de quem é pelo menos um pouco racional. O papel humano na rápida mudança climática é assustador – o aumento nas frestas entre camadas de gelo na Antártica, o derretimento das geleiras polares, o aumento do nível dos mares. Em que mundo você deve estar vivendo para não estar preocupado com estas coisas ou não reconhecer que elas existem?

Ou veja as políticas sobre as drogas e a chamada guerra às drogas. Você não precisa de mais nenhuma pesquisa que comprove o quão prejudicial, estupidamente errada e devastadoramente custosa ela é em termos humanos. Então, precisamos pesquisar por que as pesquisas não estão sendo implementadas? Não, nós sabemos a razão – forças poderosas na nossa sociedade se beneficiam dela. Então, não é uma falha, de maneira alguma. Do ponto de vista delas, é um grande sucesso.

O mesmo acontece com a mudança climática. Interesses poderosos se beneficiam a curto-prazo, e eles pensam a curto prazo. Eles se beneficiam dos dividendos econômicos das indústrias que ameaçam o clima. É uma questão política e social, não uma questão científica. A ciência existe dentro de um contexto social, político e econômico. Quem faz a política? Quem influencia a política? Quem apresenta as informações ao público? Quem controla estas instituições?

JN: Então, como sociedade e como indivíduos, qual é o caminho de volta à totalidade?

GM: Isso é impossível sob o capitalismo, porque a essência do capitalismo é a separação entre mente e corpo. E, basicamente, porque as pessoas são consideradas bens materiais. Elas só importam na medida em que produzem, consomem ou possuem coisas. Se você não produz, não consome ou não possui coisas, então você não importa nesta sociedade. Temos que reconhecer as limitações severamente proibitivas que vêm junto com as grandes conquistas deste modo particular de vida. Não é questão de propor alguma prescrição utópica.

A nível pessoal, é questão de trabalho pessoal profundo. Uma coisa que já fizemos são muitas pesquisas brilhantes e necessárias sobre o que é trauma e como ele se mostra na forma de doenças físicas e mentais e da alienação e desconexão das outras pessoas e de si mesmo. E muito trabalho tem sido feito na reversão do trauma e na sua cura – e também na prevenção. Mas, novamente, não estamos aplicando esse conhecimento.

Estudantes de medicina e psiquiatra, por exemplo, nunca aprendem isso. A maioria dos médicos nunca nem ouviu a palavra “trauma” em sua educação, e não tem compreensão sobre ele. Todas as vezes em que eles atendem alguém com uma doença auto-imune ou mental, estão olhando para uma pessoa traumatizada, mas eles não percebem isso. Assim, nós lidamos apenas com as manifestações físicas, mas não com as causas reais.

Então, para progredirmos, temos que ter uma sociedade formada pela pesquisa que existe. Assim, qualquer pessoas que lide com crianças precisa saber os fatos básicos sobre a importância da relação e do desenvolvimento cerebral , e os professores precisam se envolver muito mais em atividades relacionais com seus alunos do que em passar informações. Porque o cérebro curioso, motivado, irá querer conhecer os fatos espontaneamente e, assim, aprenderá mais facilmente. Mas quando as crianças são problemáticas e alienadas devido ao fato de suas necessidades relacionais não estarem sendo satisfeitas, e você tenta martelar fatos em suas cabeças, isso é impossível.

O sistema educacional precisa mudar e o sistema médico precisa mudar. A maneira pela qual as famílias jovens são apoiadas precisa mudar. A barbárie da política estadunidense em relação à licença-maternidade precisa mudar.

Eu ia dizer que não é “ciência cerebral”, mas, na verdade, é ciência cerebral. É algo muito direto. Mesmo sob este sistema, há muitas coisas que podem ser feitas e a única questão é: “Por que elas não estão sendo feitas?”

Por quê elas não estão sendo feitas?

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