COMPREENDENDO O PATRIARCADO – bell hooks

bell hooks (m minúsculas, pseudônimo de Gloria Jean Watkins) é uma ativista, feminista e escritora estadunidense, nascida em 25 de setembro de 1952.  Ela examina as múltiplas redes que conectam gênero, raça e classe e a opressão sistêmica, com o objetivo de propor uma política emancipatória. Esta é a tradução do capítulo 2 de seu livro The Will to Change: men, masculinity, and love.

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bell hooks

O patriarcado é a doença social mais ameaçadora à vida que acomete os corpos e espíritos masculinos em nossa nação. Ainda assim, muitos homens não usam a palavra “patriarcado” no dia-a-dia. A maioria deles nunca pensa sobre o patriarcado – o que ele significa, como é criado e sustentado. Muitos homens em nossa nação não seriam capazes de soletrar a palavra ou pronunciá-la corretamente. A palavra “patriarcado” simplesmente não faz parte de sua fala ou pensamento cotidianos.  Homens que já a ouviram e conhecem a palavra normalmente a associam com a liberação das mulheres, com o feminismo e, assim, a desprezam como sendo irrelevante para suas próprias experiências. Tenho estado em palcos falando sobre o patriarcado por mais de trinta anos. É uma palavra que uso diariamente, e os homens que me ouvem usá-la com frequência perguntam o que eu quero dizer com ela.

Nada desmonta melhor a antiga projeção antifeminista dos homens como todo poderosos do que sua ignorância básica sobre uma faceta fundamental no sistema político que formata e informa a identidade masculina, do nascimento até a morte. Eu uso com frequência a frase “patriarcado imperialista capitalista supremacista-branco” para descrever os sistemas políticos interligados que estão no alicerce político de nossa nação. Destes sistemas, aquele sobre o qual nós aprendemos mais enquanto crescemos é o sistema do patriarcado, mesmo que nós nunca tenhamos ouvido a palavra, porque os papéis de gênero patriarcais nos são dados quando somos crianças, e recebemos orientações contínuas sobre os modos pelos quais podemos melhor cumpri-los.

O patriarcado é um sistema político-social que insiste que os homens são inerentemente dominantes, superiores a tudo e todos que são considerados fracos, especialmente as mulheres, e dotados do direito de dominar e governar sobre os fracos, e de manter esse domínio através de várias formas de terrorismo psicológico e violência. Quando meu irmão mais velho e eu nascemos, com um ano de diferença entre nós, o patriarcado determinou como cada um de nós seria considerado pelos nossos pais. Ambos acreditavam no patriarcado; eles o aprenderam através da religião.

Na igreja, eles aprenderam que Deus criou o homem para governar o mundo e tudo que existe nele, e que o trabalho das mulheres é de ajuda-los a cumprir estas tarefas, a obedecer e sempre assumir um papel subordinado em relação ao homem poderoso. Eles aprenderam que Deus é masculino. Estes ensinamentos foram reforçados por todas as instituições que eles encontraram – escolas, tribunais, clubes, arenas de esporte, assim como nas igrejas. Ao abraçar o pensamento patriarcal, como todas as outras pessoas ao redor deles, eles o ensinaram para seus filhos, porque parecia uma maneira “natural” de se organizar a vida.

Como filha deles, eu aprendi que era meu papel servir, ser fraca, ser livre do peso de pensar, cuidar e nutrir aos outros. Meu irmão foi ensinado que era seu papel ser servido; prover; ser forte; pensar e planejar; e se recusar a cuidar e a nutrir outras pessoas. Eu fui ensinada que não era próprio a uma mulher ser violenta, que isto era “antinatural”. Meu irmão aprendeu que seu valor seria determinado pelo seu desejo de cometer violência (ainda que em ambientes apropriados). Ele foi ensinado que, para um menino, gostar de violência era uma boa coisa (ainda que em ambientes apropriados). Ele foi ensinado que um menino não deve expressar sentimentos. Eu fui ensinada que meninas podem e devem expressar sentimentos, ao menos alguns deles. Quando eu respondia com raiva por ter sido privada de um brinquedo, eu era ensinada, como uma menina em um lar patriarcal, que a raiva não era um sentimento feminino apropriado, que ele deveria não só ser escondido, mas erradicado. Quando meu irmão respondia com raiva numa situação semelhante, ele era ensinado, como um menino em um lar patriarcal, que sua habilidade de expressar raiva era boa, mas que ele tinha que aprender quais os melhores lugares para libertar sua hostilidade. Não era bom para ele usar esta raiva para se opor aos desejos de seus pais, mas, mais tarde, quando ele cresceu, ele foi ensinado que a raiva era permitida, e que deixar que a raiva o provocasse até a violência o ajudaria a proteger o lar e a nação.

Nós vivíamos numa fazenda, isolados das outras pessoas. Nosso senso sobre papéis de gênero foi aprendido de nossos pais, através da observação do comportamento deles. Meu irmão e eu lembramos de nossa confusão sobre gênero. Na verdade, eu era mais forte e mais violenta que meu irmão, o que, nós aprendemos rapidamente, era ruim. E ele era um menino gentil e pacífico, o que nós aprendemos que era realmente ruim. Ainda que nós ficássemos frequentemente confusos, uma coisa nós sabíamos: nós não podíamos ser e agir da maneira que quiséssemos, fazermos o que tivéssemos vontade. Era claro para nós que nosso comportamento deveria seguir um roteiro pré-determinado pelo gênero. Ambos aprendemos a palavra “patriarcado” em nossas vidas adultas, quando aprendemos que o roteiro que tinha determinado o que deveríamos ser, as identidades que deveríamos assumir, era baseado em valores patriarcais e em crenças sobre gênero.

Eu sempre estive mais interessada em desafiar o patriarcado do que meu irmão, porque era um sistema que sempre me deixava de fora de coisas das quais eu queria fazer parte. Na nossa vida de família típica da década de 1950, bolinhas de gude eram um jogo de meninos. Meu irmão herdou suas bolinhas dos homens da família; ele as guardava numa lata. Todos os tamanhos e formas, maravilhosamente coloridas, elas eram, aos meus olhos, os objetos mais lindos. Nós jogávamos juntos com elas, e eu, quase sempre, me apegava agressivamente à bolinha da qual eu tinha gostado mais, me recusando a compartilha-la. Quando papai estava no trabalho, nossa mãe ficava bem contente em nos ver jogando bolinhas de gude juntos. Mas papai, olhando para nossa brincadeira de uma perspectiva patriarcal, ficava perturbado quando via. Sua filha, agressiva e competitiva, era uma jogadora melhor que seu filho. Seu filho era passivo; o menino não parecia se importar com quem ganhava e abria mão de suas bolinhas, quando solicitado. Papai decidiu que esta brincadeira tinha que acabar, que tanto meu irmão quanto eu precisávamos aprender uma lição sobre papéis de gênero apropriados.

Uma noite meu irmão recebeu permissão de papai para brincar com suas bolinhas de gude. Eu anunciei meu desejo de jogar e meu irmão me disse que “meninas não jogam bolas de gude”, era uma brincadeira de meninos. Isto não fazia sentido para minha mente de quatro ou cinco anos, e eu insisti no meu direito de brincar pegando as bolinhas e atirando-as. Papai interveio e disse que eu parasse. Eu não ouvi. Sua voz ficou mais alta. Então, ele subitamente me agarrou, quebrou uma parte da porta de tela e começou a me bater com ela, dizendo, “Você é apenas uma menininha. Quando eu disser para você fazer algo, você tem que fazer”. Ele me bateu e bateu, querendo que eu reconhecesse que tinha entendido o que eu tinha feito. Sua raiva, sua violência chamaram a atenção de todos. Nossa família permaneceu sentada enfeitiçada, arrebatada pela pornografia da violência patriarcal. Após essa surra eu fui banida – forçada a ficar sozinha no escuro. Mamãe veio até o quarto para confortar minha dor, dizendo, em sua suave voz sulina, “Eu tentei avisar você. Você precisa aceitar que você é apenas uma menininha, e meninas não podem fazer o que meninos fazem”. A serviço do patriarcado, sua função era de reforçar que papai havia feito a coisa certa, me colocando no meu lugar, a fim de restaurar a ordem social natural.

Me lembro tão bem deste evento traumático porque esta foi uma história contada várias e várias vezes em nossa família. Ninguém se preocupava que esta narrativa constante pudesse disparar um estresse pós-traumático; recontá-la era necessário para reforçar tanto a mensagem, quanto a lembrança do estado de absoluta impotência. A memória deste espancamento brutal de uma menininha por um homem grande e forte serviu não só como um lembrete para mim de meu lugar de gênero, mas também para todas as pessoas que assistiam/lembravam, para todos meus irmãos, homens e mulheres, e para nossa mãe, que nosso pai patriarcal era quem mandava na nossa casa. Nós tínhamos que lembrar que se não obedecêssemos às regras seríamos punidos, punidos mesmo até a morte. Foi desta forma que fomos experiencialmente escolados na arte do patriarcado.

Não há nada único ou mesmo excepcional sobre esta experiência. Ouça às vozes das crianças crescidas feridas que foram criadas em lares patriarcais e você ouvirá versões diferentes do mesmo tema subjacente, o uso da violência para reforçar nossa doutrinação e nossa aceitação do patriarcado. No livro How Can I Get Through to You?, o terapeuta de família Terrence Real conta como seus filhos foram iniciados no pensamento patriarcal, mesmo tendo pais que trabalhavam para criar um lar amoroso, no qual prevalecessem valores antipatriarcais. Ele conta como Alexander, seu filho mais novo, gostava de se vestir como a Barbie, até que meninos que brincavam com o irmão mais velho viram sua “persona” Barbie e demonstraram, através de seus olhares e de seu silêncio chocado e desaprovador, que o comportamento dele era inaceitável.

Sem nem uma pitada de malevolência, o olhar que meu filho recebeu transmitiu uma mensagem. Você não pode fazer isso. E o meio pelo qual essa mensagem foi transmitida foi uma emoção potente: a vergonha. Aos três anos, Alexander estava aprendendo as regras. Uma interação muda de dez segundos foi poderosa o suficiente para dissuadir meu filho do que tinha sido, até aquele instante, uma de suas atividades preferidas. Eu chamo estes momentos de indução de “traumatização normal” dos meninos.

Para doutrinar os meninos nas regras do patriarcado, nós os forçamos a sentir dor e a negar seus sentimentos.

Minhas histórias tiveram lugar nos anos 1950; as histórias que Real conta são recentes. Todas elas enfatizam a tirania do pensamento patriarcal, o poder da cultura patriarcal de nos manter cativos. Real é um dos pensadores mais iluminados no que se refere à masculinidade patriarcal no nosso país e, ainda assim, ele conta aos leitores que não é capaz de manter seus filhos fora do alcance do patriarcado. Eles sofrem seus ataques, assim como todos os meninos e meninas, em maior ou menor grau. Sem dúvida, ao criar um lar amoroso que não é patriarcal, Real ao menos oferece a seus filhos uma escolha: eles podem escolher serem eles mesmos ou se conformarem aos papéis patriarcais. Real usa a frase “patriarcado psicológico” para descrever o pensamento patriarcal comum a mulheres e homens. Apesar do pensamento visionário do feminismo contemporâneo deixar claro que um pensador patriarcal não precisa ser um homem, muitas pessoas continuam vendo os homens como o problema do patriarcado. Simplesmente, não é o caso. Mulheres podem ser tão devotadas ao pensamento e à ação patriarcal quanto os homens.

A definição clara do psicoterapeuta John Bradshaw no livro Creating Love é útil: “O dicionário define ‘patriarcado’ como ‘uma organização social marcada pela supremacia do pai no clã ou na família, tanto nas funções domésticas, quanto nas religiosas’. O patriarcado é caracterizado pela dominação e pelo poder masculinos. Ele declara também que ‘as regras patriarcais ainda governam a maioria das religiões e dos sistemas escolares e familiares do mundo’. Ao descrever a mais prejudicial destas regras, Bradshaw lista a ‘obediência cega – a fundação sobre a qual o patriarcado se eleva; a repressão de todas as emoções, exceto o medo; a destruição do poder de escolha individual; e a repressão do pensamento, todas as vezes em que ele se distanciar da forma de pensar da figura de autoridade’. O pensamento patriarcal molda os valores da nossa cultura. Nós somos socializados neste sistema, tanto mulheres quanto homens. A maioria de nós aprendeu as atitudes patriarcais em nossa família de origem, e eles geralmente foram ensinados a nós por nossas mães. Estas atitudes foram reforçadas nas escolas e nas instituições religiosas.

A presença contemporânea das famílias chefiadas por mulheres levou muitas pessoas a assumir que as crianças criadas nestes lares não estão aprendendo os valores patriarcais, já que não há um homem presente. Elas assumem que os homens são os únicos professores do pensamento patriarcal. Contudo, muitos lares chefiados por mulheres confirmam e promovem o pensamento patriarcal com paixão maior do que lares nos quais os dois pais estão presentes. Por não terem uma realidade experiencial que desafie as falsas fantasias dos papéis de gênero, mulheres nestes lares estão mais propensas a idealizar o papel patriarcal masculino e os homens patriarcais do que as mulheres que vivem com homens patriarcais todos os dias. Precisamos iluminar o papel que das mulheres na perpetuação e na sustentação da cultura patriarcal, para que possamos reconhecer o patriarcado como um sistema sustentado igualmente por mulheres e homens, mesmo que os homens recebam mais recompensas deste sistema. Desmontar e transformar a cultura patriarcal é um trabalho que homens e mulheres precisam fazer juntos.

Nós claramente não poderemos desmontar um sistema enquanto nos engajarmos em uma negação coletiva em relação a seu impacto em nossas vidas. O patriarcado requer a dominação masculina por todos os meios necessários, daí ele apoiar, promover e perdoar a violência sexista. Ouvimos muito sobre violência sexista nos discursos públicos sobre estupro e abuso por parte de parceiros domésticos. Mas as formas mais comuns de violência patriarcal são aquelas que têm lugar em casa, entre pais patriarcais e seus filhos. O objetivo desta violência geralmente é o de reforçar um modelo de dominação, no qual a figura de autoridade é considerada soberana sobre aqueles sem poder, e ganha o direito de manter a obediência a suas regras através de práticas de subjugação, subordinação e submissão.

Impedir homens e mulheres de dizerem a verdade sobre o que acontece a eles em suas famílias é uma maneira pela qual a cultura patriarcal é mantida. Uma grande maioria de indivíduos reforça a regra não falada na cultura como um todo que exige que guardemos os segredos do patriarcado, protegendo, assim, o domínio do pai. Esta regra de silêncio é sustentada quando a cultura nega a qualquer pessoa o acesso fácil até mesmo à palavra “patriarcado”. Muitas crianças não aprendem como chamar este sistema de papéis de gênero institucionalizados, tão raras são as vezes em que a nomeamos no nosso discurso cotidiano. O silêncio promove a negação. E como podemos nos organizar para desafiar e mudar um sistema que não pode ser nomeado?

Não foi por acidente que as feministas começaram a usar a palavra “patriarcado” para substituir as mais comumente usadas “chauvinismo masculino” e “sexismo”. Estas vozes corajosas querem que homens e mulheres se tornem mais conscientes dos modos pelos quais o patriarcado nos afeta a todos e todas. Na cultura popular, a palavra em si foi raramente usada durante o auge do feminismo contemporâneo. As ativistas antimachistas não estavam nem um pouco mais ansiosas para enfatizar o sistema do patriarcado e como ele funciona do que seus adversários sexistas. Fazer isto teria automaticamente exposto a noção de que os homens são todo-poderosos e as mulheres impotentes, de que todos os homens são opressores e as mulheres sempre e apenas vítimas. Ao colocar a culpa pela perpetuação do sexismo apenas nos homens, estas mulheres poderiam manter sua própria obediência ao patriarcado, sua própria luxúria por poder. Elas mascaravam seu desejo de dominar sob o manto da vitimização.

Como muitas feministas radicais visionárias, eu desafiei essa noção equivocada, promovida por mulheres que estavam simplesmente fartas da exploração e da opressão masculinas, de que os homens são “o inimigo”. Em 1984 eu inclui um capítulo com o título: “Homens: Camaradas na Luta” no meu livro “Teoria Feminista: da margem ao centro”, incitando as defensoras das políticas femininas a desafiar qualquer retórica que colocasse a culpa por perpetuar o patriarcado e a dominação masculina somente nos homens:

A ideologia separatista encoraja as mulheres a ignorar o impacto negativo do sexismo na personalidade masculina. Ela enfatiza a polarização entre os sexos. De acordo com Joy Justice, separatistas acreditam que há “duas perspectivas básicas” no assunto da nomeação das vítimas do sexismo: “Há a perspectiva de que homens oprimem mulheres. E há a perspectiva de que pessoas são pessoas, e que todos somos prejudicados por papéis sexuais rígidos”… Ambas as perspectivas descrevem acuradamente nosso dilema. Os homens realmente oprimem as mulheres. As pessoas são feridas por papéis sexistas rígidos. Estas duas realidades coexistem. A opressão masculina sobre as mulheres não pode ser desculpada pelo reconhecimento de que há formas pelas quais os homens são feridos pelos papéis sexistas rígidos. As ativistas feministas deveriam reconhecer esta dor, e trabalhar para muda-la – ela existe. Isto não apaga ou diminui a responsabilidade masculina por apoiar e perpetuar seu poder sob o patriarcado de explorar e oprimir mulheres de uma maneira muito mais dolorosa do que o sério estresse psicológico e a dor emocional causados pela conformidade masculina aos rígidos padrões de papéis de sexo.

Através deste ensaio, eu enfatizei que as defensoras do feminismo entram em conluio com a dor dos homens feridos pelo patriarcado quando representam falsamente os homens como sempre e somente poderosos, como sempre e somente ganhando privilégios por sua obediência cega ao patriarcado. Eu insisti que a ideologia patriarcal faz uma lavagem cerebral nos homens para que eles acreditem que sua dominação sobre as mulheres é benéfica, quando não é:

Com frequência, as ativistas feministas afirmam esta lógica, quando nós deveríamos estar constantemente nomeando estas ações como expressões de relações de poder pervertidas, como falta geral de controle sobre as ações, impotência emocional, extrema irracionalidade e, em muitos casos, pura insanidade. A absorção passiva dos homens da ideologia sexista os habilita a interpretar falsamente estes comportamentos perturbados de uma forma positiva. Enquanto os homens sofrerem lavagem cerebral que os faça igualar dominação violenta e abuso de mulheres com privilégios, eles não terão entendimento sobre o dano feito a eles mesmos e às outras pessoas, e nenhuma motivação para mudar.

O patriarcado pede dos homens que eles se tornem e permaneçam aleijados emocionais. Desde que é um sistema que nega aos homens o acesso pleno a sua liberdade de escolha, é difícil para qualquer homem, de qualquer classe, se rebelar contra o patriarcado, ser desleal ao genitor patriarcal, seja este feminino ou masculino.

O homem que foi meu vínculo primário durante mais de doze anos foi traumatizado pelas dinâmicas patriarcais de sua família de origem. Quando eu o conheci, ele estava na faixa dos vinte anos. Ainda que seus anos formativos tenham sido passados na companhia de um pai violento e alcoolista, as circunstâncias mudaram quando ele tinha doze anos e ele começou a viver sozinho com sua mãe.

Nos primeiros anos de nossa relação ele falava abertamente sobre a hostilidade e a raiva que dirigia a seu pai abusivo. Ele não estava interessado em perdoá-lo ou em compreender as circunstâncias que moldaram e influenciaram a vida de seu pai, tanto na infância quanto na vida profissional, como um militar. Nesta época, ele era extremamente crítico da dominação masculina sobre mulheres e crianças. Ainda que ele não usasse a palavra “patriarcado”, ele compreendia seu sentido e se opunha a ele. Seu jeito gentil e calmo com frequência fazia com que as pessoas o ignorassem, colocando-o entre os fracos e sem poder. Por volta dos 30 anos ele assumiu uma personalidade mais “macho”, acolhendo o modelo dominador que ele antes criticava. Vestindo o manto do patriarcado, ele ganhou mais respeito e visibilidade. Mais mulheres eram atraídas por ele. Ele era mais notado nas esferas públicas. Sua crítica à dominação masculina parou. E, de fato, ele começou a expressar a retórica patriarcal, dizendo o tipo de coisas sexistas que costumava escandaliza-lo no passado.

Estas mudanças em seu pensamento e comportamento foram disparadas por seu desejo de ser aceito e confirmado em um local de trabalho patriarcal, e racionalizadas por seu desejo de seguir em frente. Sua história não é incomum. Meninos brutalizados e vitimizados pelo patriarcado frequentemente se tornam patriarcais, incorporando a masculinidade abusiva que eles anteriormente reconheciam como nociva. Poucos homens brutalmente abusados quando meninos em nome do patriarcado conseguem resistir corajosamente à lavagem cerebral e permanecer fiéis a si mesmos. A maioria dos homens se conforma ao patriarcado, de uma forma ou de outra.

De fato, a crítica feminista radical ao patriarcado tem sido praticamente silenciada em nossa cultura. Ela se tornou um discurso subcultural disponível apenas às elites bem-educadas. Mesmo nestes círculos, o uso da palavra “patriarcado” é visto como ultrapassado. Nas minhas palestras, quando eu uso a frase “patriarcado imperialista capitalista supremacista-branco”, quase sempre as pessoas riem. Ninguém jamais explicou a elas porque nomear acuradamente este sistema é engraçado. A risada é, em si mesma, uma arma de terrorismo patriarcal. Ela funciona como uma retratação, dando um desconto para a significância do que está sendo nomeado. Sugere que as palavras, em si, são problemáticas, e não o sistema que elas descrevem. Eu interpreto essa risada com uma maneira das pessoas mostrarem desconforto, ao serem solicitadas a se aliarem com uma crítica antipatriarcal desobediente. Esta risada me lembra de que se eu ousar desafiar o patriarcado abertamente, eu me arrisco a não ser levada a sério.

Os cidadãos desta nação temem mudar o patriarcado, ainda que não tenham total consciência deste temor, tão profundamente entranhadas em nosso inconsciente coletivo estão as regras patriarcais. Eu costumo dizer às minhas plateias que, se formos de porta em porta perguntando se devemos erradicar a violência dos homens contra as mulheres, a maioria das pessoas nos daria apoio inequívoco. Então, se dissermos a elas que só podemos parar a violência masculina contra as mulheres ao acabar com a dominação masculina, erradicando o patriarcado, elas começariam a hesitar e a mudar sua posição. Apesar dos muitos ganhos do movimento feminista contemporâneo – maior igualdade para mulheres na força de trabalho, mais tolerância para a flexibilização dos rígidos papéis de gênero – o patriarcado, como sistema, permanece intacto, e muitas pessoas continuam a acreditar que ele é necessário para que os humanos sobrevivam como espécie. Esta crença parece irônica, já que os métodos patriarcais de organização de nações, especialmente a insistência na violência como um meio de controle social, na verdade tem levado ao massacre de milhões de pessoas no planeta.

Até que possamos reconhecer coletivamente os danos causados pelo patriarcado e o sofrimento que ele cria, não podemos nos voltar para a dor masculina. Não podemos exigir dos homens o direito de serem inteiros, de serem doadores e de sustentarem a vida. Obviamente, alguns homens patriarcais são confiáveis e mesmo cuidadores e provedores benevolentes, mas ainda estão aprisionados por um sistema que mina sua saúde mental.

O patriarcado promove insanidade. Ele está na raiz de todas as doenças mentais que perturbam os homens em nossa nação. Todavia, não há uma preocupação coletiva com a condição masculina. No livro Stiffed: The Betrayal of the American Man , Susan Faludi inclui uma muito pequena discussão sobre o patriarcado:

Peça a feministas que diagnostiquem os problemas dos homens e você quase sempre terá uma explicação muito clara: os homens estão em crise porque as mulheres estão desafiando a dominância masculina com propriedade. As mulheres estão exigindo que os homens compartilhem as rédeas da vida pública e eles não podem suportar isso. Pergunte a antifeministas e você terá um diagnóstico que é, de alguma forma, similar. Os homens estão com problemas, dizem as autoridades conservadoras, porque as mulheres foram muito longe em suas demandas por tratamento igualitário e agora estão tentando tomar o poder e o controle dos homens… A mensagem subliminar: homens não podem ser homens, apenas eunucos, se eles não estiverem no controle. Tanto a visão feminista quanto a antifeminista estão enraizadas em uma percepção moderna peculiarmente norte-americana que afirma que ser um homem significa estar no controle todo o tempo.

Faludi nenhuma vez interroga a noção de controle. Ela nunca considera que esta noção, de que os homens sempre estiveram, de alguma forma, no controle, no poder e satisfeitos com suas vidas antes do movimento feminista contemporâneo, é falsa.

O patriarcado é um sistema que nega aos homens o acesso ao bem-estar emocional pleno, que não é o mesmo que sentir-se recompensado, bem-sucedido ou poderoso devido à sua capacidade de exercer controle sobre outros. Para realmente cuidarmos da dor e da crise masculinas nós precisamos, como nação, querermos expor a dura realidade do patriarcado, que prejudicou os homens no passado e continua a prejudica-los no presente. Se o patriarcado realmente recompensasse os homens, a violência e o vício na vida familiar, que são tão onipresentes, não existiriam. A violência não foi criada pelo feminismo. Se o patriarcado fosse recompensador, a avassaladora insatisfação que a maioria dos homens sente em relação a suas vidas profissionais – uma insatisfação extensivamente documentada nos trabalhos de Studs Terkel e ecoada no tratado de Faludi – não existiria.

De muitas formas, o livro de Faludi foi uma outra traição aos homens norte-americanos, porque ela passa tanto tempo tentando não desafiar o patriarcado que falha em enfatizar a necessidade de acabar com ele, se quisermos libertar os homens. Ao contrário, ela escreve:

Ao invés de tentarmos adivinhar porque os homens resistem à luta feminina por uma vida mais livre e saudável, eu começo a pensar porque os homens evitam engajar em sua própria luta. Por que, apesar de uma crescente onda de ataques de cólera aleatórios, eles não ofereceram respostas metódicas e razoáveis para seu dilema: dada a natureza insustentável e insultante das demandas colocadas sobre os homens para que eles se provem frente a nossa cultura, por que eles não se revoltam?… Por que os homens não respondem à série de traições em suas próprias vidas – às falhas de seus pais em cumprirem suas promessas – com algo similar ao feminismo?

Notem que Faludi não se arrisca nem à ira das mulheres feministas, sugerindo que os homens podem encontrar salvação no movimento feminista, nem à rejeição de potenciais leitores homens solidamente antifeministas, sugerindo que eles têm algo a ganhar ao se engajarem no feminismo. Até agora, o movimento feminista visionário é a única luta por justiça que enfatiza a necessidade de acabarmos com o patriarcado. Nenhum grupo massivo de mulheres fez alguma mudança neste sentido, assim como nenhum grupo de homens se reuniu para liderar a luta. A crise que os homens enfrentam não é a crise da masculinidade, é a crise da masculinidade patriarcal. Até que tornemos esta distinção clara, os homens continuarão a temer que qualquer crítica ao patriarcado represente uma ameaça. Distinguindo-o do patriarcado político, que ele vê como bastante comprometido em acabar com o sexismo, o terapeuta Terrence Real torna claro que o patriarcado que nos fere a todos está enraizado em nossas psiques: o patriarcado psicológico é a dinâmica entre estas qualidades consideradas “masculinas” e “femininas”, na qual metade de nossas características humanas é exaltada, enquanto que a outra metade é desvalorizada. Tanto homens quanto mulheres participam deste sistema de valores torturante.

O patriarcado psicológico é uma “dança do desprezo”, uma forma perversa de conexão que substitui a intimidade real por camadas complexas e encobertas de dominância e submissão, conspiração e manipulação. É este paradigma não reconhecido de relacionamento que tem impregnado a civilização ocidental geração após geração, deformando ambos os sexos e destruindo a ligação apaixonada entre eles.

Ao enfatizar o patriarcado psicológico, vemos que todos estamos implicados e somos libertadas da compreensão errônea de que os homens são o inimigo. Para acabar com o patriarcado precisamos desafiar suas manifestações psicológicas na vida cotidiana, tanto quanto as concretas. Há pessoas que são capazes de criticar o patriarcado, mas incapazes de agir de uma forma antipatriarcal.

Para acabar com a dor masculina, para responder efetivamente à crise masculina, temos que nomear o problema. Temos que reconhecer que o problema é o patriarcado e trabalhar para acabar com ele. Terrence Real oferece esse insight valioso:

“A reivindicação da totalidade é um processo ainda mais tenso para os homens do que tem sido para as mulheres, mais difícil e mais profundamente ameaçador para a cultura como um todo”.

Se os homens quiserem reivindicar a bondade essencial do ser masculino, se eles quiserem recuperar o espaço de abertura e expressão emocional que são a fundação do bem-estar, precisamos imaginar alternativas à masculinidade patriarcal. Todos precisaremos mudar.

 

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