A VIOLÊNCIA SÓ FARÁ PREJUDICAR A RESISTÊNCIA AO REGIME DE TRUMP – Erica Chenoweth

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Josh Edelson/ Getty Images

Segundo Erica Chenoweth, a história mostra que a desobediência civil e os protestos massivos são mais efetivos a longo prazo do que as táticas black-bloc

Original em inglês: https://newrepublic.com/article/140474/violence-will-hurt-trump-resistance. Imagem: John Edelson/ Getty Images

Na semana da posse do presidente Donald Trump, milhares de estadunidenses usaram a desobediência civil para causar distúrbios em eventos. Uma festa LGBTQ ferveu do lado de fora da casa de Mike Pence [atual vice-presidente dos EUA]. Os Veteranos do Iraque contra a Guerra ocuparam o gabinete de John McCain, em protesto à nomeação de Rex Tillerson [para Secretário do Estado]. No dia da posse, ativistas do movimento Black Lives Matter bloquearam pontos de checagem de segurança. Ativistas do movimento Democracy Spring interromperam a cerimonia de juramento. A organização feminista Code Pink fez uma multidão colorida marchar ao redor do National Mall. Uma idosa de origem asiática mostrou o dedo do meio em “saudação”. No dia depois da posse, milhões de pessoas participaram da Marcha das Mulheres em Washington. Centenas de milhares têm permanecido ativas em protestos pró-imigração e outras manifestações a partir de então.

Ao mesmo tempo, há um ressurgimento das táticas “black-bloc”: manifestantes que incitam a destruição de propriedades e as brigas de rua. Na semana da vitória de Trump, a Polícia de Portland, no Oregon, atirou balas de borracha contra manifestantes pacíficos após as provocações de black-blocs. As mais de 230 pessoas detidas na Capital no final de semana da posse – a maioria delas associadas com ações black-blocs, que resultaram em uma limusine queimada e vitrines vandalizadas – desviaram a cobertura da imprensa das milhares de pessoas usando resistência civil. E, na Universidade de Berkeley, na última semana, 1500 pessoas se manifestavam pacificamente contra uma palestra agendada de Milo Yannopoulos, colunista do site de direita Breitbart, quando se juntaram a elas por volta de 100 “agitadores mascarados”, que começaram um incêndio, arremessaram pedras e atacaram outros manifestantes.

Defensores das táticas black-bloc, que também incluem tumultos e “socar os nazistas”, argumentam que estas ações são necessárias e legítimas contra oponentes poderosos. Eles acreditam que estas táticas ajudam a proteger os ativistas não-violentos – particularmente aqueles pertencentes a comunidades marginalizadas – da polícia militarizada. Os danos à propriedade, brigas de rua e incêndios chamam a atenção da mídia, eles afirmam, e a participação na violência pode aprofundar o compromisso dos ativistas e encorajar os manifestantes não-violentos a serem mais corajosos. Mas eles também acreditam que os apelos à ação não-violenta são para os privilegiados e traidores. Sobre os chamados para um protesto pacífico, um defensor das ações black-bloc disse: “Este tipo de argumento pode levar a algo como ‘sente e espere que passe’. E não vai passar”.

Em última instância, contudo, as táticas black-bloc com frequência prejudicam as causas pelas quais estes ativistas alegam estar lutando. Ainda que confrontos violentos por vezes tenham produzido vantagens táticas de curto-prazo, elas quase sempre trazem custos dolorosos a longo prazo para os movimentos que buscam por mudanças – e as comunidades que eles se propõem a representar. É válido considerar a evidencia histórica que apoia esta conclusão, conforme a resistência a Trump cresce.

Praticantes experientes da violência sabem que, para realmente se suprimir as divergências, é necessário ganhar a batalha política mais ampla por legitimidade. Não se compete por legitimidade nos extremos ideológicos, mas no centro – uma audiência que, geralmente, não pode ser persuadida a tomar ações violentas para seguir vigilantes mascarados até um futuro utópico desconhecido. Líderes precisam de pretextos para convencer o centro que é necessário que ocorra uma repressão intensa aos dissidentes. Historicamente, os governos têm explorado facilmente os ataques violentos para reafirmar sua legitimidade e suprimir grandes movimentos de dissidência não-violenta.

Este é o paradoxo crucial da resistência: quanto mais opressor o adversário, mais a resistência deve se opor a jogar seu jogo. O custo estratégico das ações violentas reside no fato delas transformarem a luta em um tabuleiro de xadrez, no qual o regime tem uma vantagem clara.

A história nos oferece amplas provas de como o fascismo responde a ações violentas no âmbito de movimentos mais amplos de resistência civil. O período do entre-guerras, no século passado, foi caracterizado por batalhas de rua entre comunistas, progressistas e fascistas, enquanto os liberais tentavam manter a estabilidade através do poder eleitoral e judicial. Ainda que grupos de rua antifascistas na Alemanha celebrassem os sucessos de sua tática de socar nazistas, o resultado político a longo prazo foi uma esquerda fragmentada que se autodestruiu. Grupos fascistas fizeram uso do caos para apelar a impulsos nacionalistas, ganhando poder, segundo as pesquisas. Neste processo, difamaram vários bodes expiatórios – judeus, oposicionistas de esquerda, a mídia, intelectuais, homossexuais, ciganos, pessoas com deficiências – selecionando-as para deportação, experimentos científicos, internação e, no limite, extermínio.

Conforme os nazistas conquistavam a Europa, expressavam uma preferência explícita por combaterem movimentos de luta e resistência que utilizavam táticas de guerrilha, ao invés de métodos de desobediência civil. O teórico militar britânico Basil Liddell Hart observou que “[os nazistas] eram especialistas em violência e foram treinados para lidar com oponentes que usavam este método. Mas outras formas de resistência os desconcertavam – ainda mais quando estes métodos eram sutis e disfarçados. Foi um alívio para eles quando a resistência se tornou violenta e quando as formas não-violentas se misturaram com as ações de guerrilha, tornando mais fácil a ele combinarem ações repressivas drásticas sobre ambas, ao mesmo tempo”.

Estudos mostram que, uma vez empregadas ações violentas, o tamanho e a participação em movimentos de massa não-violentos diminui – particularmente entre mulheres, crianças, idosos, pessoas com deficiências e comunidades marginalizadas ou vulneráveis. Isto é importante, já que os movimentos que mantém uma participação diversificada e em grande escala são melhores em despertar a simpatia de observadores externos e têm os melhores índices registrados de sucesso. Os regimes tipicamente acusam oposicionistas de serem bandidos, assassinos e traidores, independentemente do que façam. Por exemplo, Trump publicou no Twitter após o incidente em Berkeley: “Anarquistas profissionais, bandidos e manifestantes pagos estão reafirmando a razão de milhões de pessoas que votaram para FAZER A AMÉRICA GRANDE NOVAMENTE!”. O público em geral e os manifestantes em potencial podem considerar estas afirmações como mais críveis quando veem alguns oposicionistas usando violência. Um estudo comprova que os regimes tendem a expandir sua repressão contra todos seus opositores após a entrada em cena de ações violentas. Outro estudo recente sugere que a maioria da população dos EUA aceita bem isto, apesar de haverem importantes diferenças raciais.

De fato, os norte-americanos – particularmente os brancos e hispânicos – são, no geral, hostis a protestos públicos, ainda que sejam mais tolerantes em relação a protestos não-violentos do que aos violentos. A ação não-violenta parece mobilizar as pessoas, sem aliená-las. Por exemplo, Omar Wasow reuniu uma riqueza em evidências que mostra como as táticas não-violentas aumentaram a atenção do público e sua simpatia em relação ao movimento de Direitos Civis. Este apoio se traduziu em um comportamento eleitoral que empoderou os democratas para que adotassem os atos do Voto e dos Direitos Civis. Em contraste, protestos violentos distraíram o povo dos direitos civis. Esta alienação dos brancos teve como consequência a eleição de Richard Nixon, em 1968, sobre um plataforma de “lei e ordem”, um derrota decisiva para as causas por justiça social.

Assim, a violência dentro dos movimentos pode reduzir as perspectivas de sucesso estratégico. Nas disputas trabalhistas francesas, Emiliano Huet-Vaughn descobriu, a violência e a destruição de propriedades tendem a reduzir a probabilidade de que os grupos trabalhistas conquistem concessões. E estudos mais amplos e internacionais mostram que é mais provável que campanhas de resistência não-violenta sejam mais bem-sucedidas na deposição de seus próprios governos sem o uso de ações violentas do que com elas. Mesmo quando os movimentos são bem-sucedidos, apesar do uso de ações violentas, as dinâmicas políticas liberadas no processo são difíceis de controlar. Historicamente, campanhas que usam massivamente as táticas violentas tiveram mais chances de levar a uma guerra civil, mesmo após anos do término ostensivo de um conflito. E países nos quais a violência teve um papel proeminente nos levantes recentes tiveram mais chances de sair do conflito com instituições autoritárias fortalecidas.

Dado que estratégias violentas tendem a reduzir a participação, repelir potenciais aliados, aumentar a repressão generalizada e desencorajar a deserção de pessoas em vários pilares de apoio [do regime], não é surpresa alguma que os regimes tentem infiltrar os movimentos sociais para encorajar a emergência de ações violentas. O FBI fez isso durante o movimento por Direitos Civis e, mais recentemente, durante o Occupy. Os esforços repetidos para plantar agentes provocadores que endossam ações violentas deveriam nos dar um sinal claro: as autoridades querem que os movimentos joguem o jogo que o estado conhece melhor.

Defensores de estratégias violentas com frequência caracterizam sua abordagem como a única opção ao protesto pacífico ou à submissão total. Contudo, a história oferece uma abundância de exemplos de campanhas de desobediência civil disruptivas e confrontativas, que aproveitaram o poder da mobilização popular para provocar mudanças sociais e políticas. Campanhas bem-sucedidas vão além de passeatas, manifestações e protestos, englobando vários outros métodos não-violentos – incluindo ocupações, barricadas humanas, greves, interrupções de serviços e muitas outras técnicas disruptivas – para obter resultados sem as desvantagens politicas das ações violentas.

Mas, antes mesmo de concordarem nas táticas, a coalisão de diversos atores envolvidos na resistência a Trump precisa, primeiramente, concordar em qual é a visão alternativa de sociedade que querem ver acontecer. Eles precisam, então, se certificar de que seus métodos de resistência comunicam esta visão de uma forma que atrairá, ao invés de repelir, partidários, enquanto constroem a capacidade de manter resistência contínua, projetar legitimidade para aqueles no centro e construir poder a partir das bases. Assim, a questão estratégica chave não é quais táticas são imediatamente mais satisfatórias, ou quem tem o direito de decidir se  ações violentas são o melhor caminho a seguir. Ao contrário, é sobre qual campo de batalha os dissidentes escolherão encontrar seu oponente. Se qualquer parte da resistência sacrificar sua força em números para jogar contra a expertise em violência do oponente, ela não terá chances de lutar.

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