A TRANSFORMAÇÃO DO SILÊNCIO EM LINGUAGEM E AÇÃO – Audre Lorde

Audre Lorde, poeta e ativista feminista estadunidense, discute, nesta palestra, a importância de rompermos o silêncio que oprime e transformá-lo em ação que liberta e transforma. 

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Eu passei a acreditar cada vez mais que o que é mais importante para mim deve ser falado, verbalizado e compartilhado, mesmo com o risco de ser ferida ou mal-compreendida. Que falar me beneficia, para além de qualquer outro efeito. Estou aqui, como uma poeta negra lésbica, e o significado de tudo isto reside no fato de que eu ainda estou viva, e poderia não estar. Há menos de dois meses eu ouvi de dois médicos, uma mulher e um homem, que eu teria que passar por uma cirurgia de mama e que havia 60 a 80 por cento de chances de que o tumor fosse maligno. Entre esta notícia e a cirurgia, houve um período de três semanas de agonia, resultante da involuntária reorganização de minha vida inteira. A cirurgia foi bem sucedida, e o tumor era benigno.

Mas durante estas três semanas eu fui forçada a olhar para mim mesma e para minha vida com uma clareza áspera e urgente, que me deixou abalada, mas muito mais forte. Esta é uma situação enfrentada por muitas mulheres, por algumas de você aqui hoje. Algo do que experienciei durante este tempo me ajudou a elucidar muito do que eu sinto em relação à transformação do silêncio em linguagem e ação.

Ao me tornar forçada e essencialmente consciente de minha mortalidade e do que eu queria e desejava para minha vida, ainda que ela fosse curta, as prioridades e omissões se tornaram fortemente realçadas por uma luz impiedosa, e o que mais me causou arrependimento foram meus silêncios. Do que eu tinha medo? Questionar ou falar sobe o que eu acreditava poderia significar dor ou morte. Mas todas nós sofremos de tantas formas tão diferentes, todo o tempo, e a dor ou se transforma, ou acaba. A morte, por outro lado, é o silêncio final. E ela poderia chegar rapidamente, agora, sem considerar se eu já havia dito o que era necessário ser dito ou se eu apenas estava me traindo em pequenos silêncios, enquanto planejava falar algum dia, ou esperava pelas palavras de outra pessoa. E eu comecei a reconhecer uma fonte de poder dentro de mim que vem do conhecimento de que, mesmo que seja mais desejável não ter medo, aprender a colocar o medo em perspectiva me dava uma grande força.

Eu ia morrer, se não agora, mais tarde, quer eu tivesse falado, quer não. Meus silêncios não haviam me protegido. Seu silêncio não a protegerá. Ao contrário, a cada palavra real dita, a cada tentativa que eu fiz de dizer estas verdades pelas quais eu ainda estou procurando, eu entrei em contato com outras mulheres e examinamos juntas as palavras que serviriam a um mundo no qual nós todas acreditávamos, conciliando nossas diferenças. E foram a preocupação e o carinho de todas estas mulheres que me deram forças e me permitiram examinar as questões essenciais da minha vida.

As mulheres que me apoiaram durante aquele período foram negras e brancas, velhas e jovens, lésbicas, bissexuais e heterossexuais, e todas partilhávamos de uma guerra contra as tiranias do silêncio. Todas elas me ofereceram força e consideração, sem as quais eu não poderia ter sobrevivido intacta. Destas semanas de medo agudo nasceu o conhecimento – a partir  desta guerra que todas estamos lutando contra as forças da morte, sutis ou não, conscientes ou não – de que eu não sou apenas uma baixa, sou também uma guerreira.

Quais são as palavras que você ainda não possui? O que você precisa dizer? Quais são as tiranias que você engole diariamente e tenta tornar suas, até que você adoeça e morra delas, ainda em silêncio? Talvez, para algumas de vocês aqui hoje, eu seja o rosto de um de seus medos. Porque eu sou uma mulher, porque sou Negra, porque sou lésbica, porque sou eu mesma – uma poeta guerreira Negra fazendo seu trabalho –  e estou aqui perguntando a você: você está fazendo o seu?

É claro que eu tenho medo, porque a transformação do silêncio em linguagem e ação é um ato de auto-revelação, o que sempre parece carregado de perigo. Mas, minha filha, quando eu contei a ela sobre nosso tema e minha dificuldade com ele, me disse: “Diga a elas sobre como você nunca é uma pessoa realmente inteira se permanecer em silêncio, porque há sempre um pequeno pedaço em você que quer ser dito e, se você continuar ignorando-o, ele fica cada vez mais louco, cada vez mais quente, e se você não o falar, um dia ele irá simplesmente se levantar e dar um soco na sua boca pelo lado de dentro”.

A respeito do silêncio, cada uma de nós é capaz de desenhar o rosto de seu próprio medo – medo do desprezo, da censura, dos julgamentos, do reconhecimento, dos desafios, da aniquilação. Mas a maioria de nós, eu penso, teme a visibilidade sem a qual não podemos realmente viver. Neste país, no qual as diferenças raciais criam uma constante e não-dita distorção de visão, as mulheres Negras, de um lado, sempre têm sido muito visíveis e, por outro lado, têm sido invisibilizadas através da despersonalização do racismo. Mesmo dentro do movimento feminista, nós tivemos que lutar, e ainda temos, por esta visibilidade que também nos deixa mais vulneráveis, nossa Negritude. Porque, para sobreviver na boca deste dragão que chamamos américa, temos que aprender esta lição fundamental e vital: que nunca foi esperado que sobrevivêssemos. Não como seres humanos. E isto ainda é verdade para a maioria de você aqui, Negras ou não. E que a visibilidade que nos torna mais vulneráveis é a que também é fonte de nossa grande força. Porque a máquina irá tentar nos pulverizar de qualquer força, quer falemos, quer não. Podemos sentar nos nossos cantos, mudas para sempre, enquanto nossas irmãs e nós mesmas somos devastadas, enquanto nossas crianças são destorcidas e destruídas, enquanto nossa terra é envenenada; podemos sentar em nossos cantos seguros mudas como uma porta, e nem assim sentiremos menos medo.

Em minha casa, neste ano, estamos celebrando a festa do Kwanza, o festival afro-americano da colheita, que começa no dia seguinte ao Natal e dura sete dias. Há sete princípios do Kwanza, um para cada dia. O primeiro princípio é Umoja, que significa “unidade”, a decisão de empenhar-se em manter a unidade dentro de si e na comunidade. O princípio para ontem, o segundo dia, era Kujichagulia – auto-determinação – a decisão de definir a nós mesmas, nos nomearmos, e falarmos por nós, ao invés de sermos definidas e faladas por outrem. Hoje é o terceiro dia do Kwanza, e o princípio para hoje é Ujima – trabalho e responsabilidade coletivos – a decisão de construir e manter a nós mesmas e nossas comunidades unidas e de reconhecer e resolver nossos problemas juntas.

Cada uma de nós está aqui agora porque, de uma forma ou de outra, nós partilhamos de um compromisso com a linguagem e com o poder dela, e com a retomada desta linguagem que tem sido usada para trabalhar contra nós. Na transformação do silêncio em linguagem e ação, é vitalmente necessário que cada uma de nós estabeleça ou examine sua função nesta transformação, e que reconheça seu papel como sendo vital nela.

Para aquelas de nós que escrevem, é necessário examinar não só a verdade do que falamos, mas a verdade da linguagem através da qual a dizemos. Para as outras, é compartilhar e espalhar estas palavras que são significativas para nós. Mas, primariamente, para todas nós, é necessário ensinar estas verdades através da vivência e da fala delas, verdades nas quais acreditamos e as quais sabemos para além do entendimento. Porque somente desta forma poderemos sobreviver, ao tomarmos parte de um processo de vida que é criativo e contínuo, que é crescimento.

E isto nunca acontece sem medo – da visibilidade, da dura luz do escrutínio e, talvez, do julgamento, da dor, da morte. Mas nós já convivemos com todos eles, em silêncio, com exceção da morte. E eu lembro a mim mesma, todo o tempo agora, que se eu tivesse nascido muda ou tivesse feito um voto de silêncio durante minha vida toda para garantir minha segurança, ainda assim eu teria sofrido, e ainda assim eu morreria. Isto é  muito bom para estabelecer uma perspectiva.

E, onde quer que as palavras das mulheres estejam gritando para serem ouvidas, nós precisamos, cada uma de nós, reconhecer nossa responsabilidade em buscar por estas palavras, lê-las e partilhá-las, e examina-las em sua pertinência em relação às nossas vidas. Que não nos escondamos atrás das zombarias da separação que nos foram impostas e as quais nós, com frequência, aceitamos como sendo nossas. Por exemplo, “Eu não posso ensinar mulheres Negras a escrever – a experiência delas é tão diferente da minha!”. No entanto, quantos anos você passou ensinando Platão e Shakespeare e Proust? Ou outra: “Ela é uma mulher branca, o que ela teria a me dizer?” Ou, “Ela é uma lésbica, o que meu marido diria, ou meu diretor?”. Ou ainda, “Essa mulher escreve sobre seus filhos e eu não tenho filhos”. E todos estes outros meios infinitos pelos quais nós nos furtamos de nós mesmas e umas das outras.

Podemos aprender a trabalhar e a falar quando estamos com medo, da mesma forma que aprendemos a trabalhar e falar quando estamos cansadas. Fomos socializadas para respeitar o medo mais do que nossas próprias necessidades de expressão através da linguagem e de definição, e,  enquanto esperamos em silêncio pelo luxo final do destemor, o peso deste silêncio nos sufocará.

O fato de que estamos aqui e que eu estou dizendo estas palavras é uma tentativa de quebrar este silêncio e conciliar algumas destas diferenças entre nós, porque não é a diferença que nos imobiliza, mas o silêncio. E há muitos silêncios a serem rompidos.

(palestra proferida no painel “Lesbianismo e Literatura” da Modern Language Association, em Chicago, Illinois, dezembro de 1977)

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