O NEOLIBERALISMO ESTÁ CRIANDO SOLIDÃO, E É ISSO QUE ESTÁ DILACERANDO A SOCIEDADE – George Monbiot

George Monbiot é um escritor e ativista político e ambiental britânico que vem investigando os impactos da solidão na vida cotidiana e na saúde mental das pessoas. Neste artigo, ele defende a ideia de que o ideário neoliberal, pautado no individualismo e na competição, promove a solidão e, assim, é responsável pela epidemia de doenças mentais e físicas que nos afetam na contemporaneidade. Ele afirma que, para superarmos estes males, precisamos de uma nova visão de mundo que reconheça a importância da conexão e da vida em comunidade. 

2928

Original em inglês: https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/oct/12/neoliberalism-creating-loneliness-wrenching-society-apart  Ilustração de Andrzej Krauze

As epidemias de doenças mentais estão esmagando as mentes e corpos de milhões de pessoas. É hora de perguntar para onde estamos indo e por quê.

Que acusação maior um sistema poderia sofrer do que [promover]  uma epidemia de doenças mentais? As pragas da ansiedade, estresse, depressão, fobia social, desordens alimentares, auto-mutilação e solidão estão afetando pessoas ao redor do mundo. As últimas e catastróficas estatísticas de saúde mental de crianças na Inglaterra refletem uma crise global.

Há várias razões secundárias para estes males, mas a mim parece que a causa subjacente é sempre a mesma: seres humanos, estes mamíferos ultrassociais, cujos cérebros são preparados para responder a outras pessoas, estão sendo separados. As mudanças econômicas e tecnológicas desempenham um grande papel nisto, mas o mesmo faz a ideologia. Apesar do nosso bem-estar ser intrinsecamente conectado às vidas das outras pessoas, em todos os lugares nos dizem que só iremos prosperar através do auto-interesse competitivo e do individualismo extremo.

Na Grã-Bretanha, homens que passaram todas as suas vidas em quadrados – na escola, na faculdade, no bar, no parlamento – nos instruem a mantermo-nos sobre nossos próprios pés. O sistema de educação se torna mais brutalmente competitivo a cada ano. A empregabilidade é uma luta até quase a morte com uma multidão de outras pessoas desesperadas disputando cada vez menos empregos. Os modernos profetas atribuem culpa individual às circunstâncias econômicas. As competições sem fim na televisão alimentam aspirações impossíveis como se fossem oportunidades reais.

O consumismo preenche o vazio social. Mas, muito longe de ser a cura para a doença do isolamento, ele intensifica a comparação social até o ponto em que, tendo consumido tudo, começamos a consumir a nós mesmos. As mídias sociais nos aproximam e distanciam, permitindo que quantifiquemos precisamente nosso capital social e que vejamos que as outras pessoas têm mais amigos e seguidores do que nós.

Como Rhiannon Lucy Cosslett documentou brilhantemente [em artigo disponível em https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/sep/08/thinner-retouching-girls-image-manipulation-women], meninas e jovens mulheres rotineiramente alteram as fotos que postam para parecerem mais bonitas e magras. Alguns smartphones, usando suas regulagens “beauty”, fazem isso sem nem perguntar; agora você pode se tornar sua própria inspiração. Bem-vindos à distopia pós-hobbesiana: uma guerra de todos contra si mesmos.

É de se estranhar, nestes mundos internos solitários nos quais o toque foi substituído pelo retoque, que as jovens mulheres estejam se afogando em angústia mental? Uma pesquisa recente na Inglaterra sugere que uma em cada quatro mulheres entre 16 e 24 anos se auto-mutilaram e uma em cada oito sofrem de estresse pós-traumático. Ansiedade, depressão, fobias ou transtorno obsessivo-compulsivo afetam 26% das mulheres desta faixa etária. É com isso que um crise de saúde pública se parece.

Se a ruptura social não é tratada tão seriamente quanto membros fraturados, é porque não podemos vê-la. Mas os neurocientistas podem. Uma série de artigos fascinantes sugerem que a dor social e a dor física são processadas pelos mesmo circuitos neurais. Isto pode explicar porque, em muitos idiomas, é difícil descrever o impacto do rompimento de laços sociais sem usar as mesmas palavras que usamos para denotar dor física e ferimentos. Tanto nos humanos quanto nos outros mamíferos sociais, o contato social reduz a dor física. Esta é a razão porque abraçamos nossos filhos quando eles estão em agonia física e a razão da angústia da separação. Talvez isto explique a conexão entre o isolamento social e o vício em drogas.

Experimentos resumidos no jornal científico Physiology & Behavior no mês passado sugerem que, se houver uma escolha entre dor física e isolamento social, os mamíferos sociais escolherão a primeira. Macacos-prego mantidos em privação de comida e contato por 22 horas preferirão reencontrar seus companheiros a comer. Crianças que experimentam negligência emocional, de acordo com algumas descobertas, sofrem de consequências mentais mais graves do que as que sofrem tanto de negligência emocional quanto de abuso físico: apesar de hedionda, a violência envolve atenção e contato. A automutilação frequentemente é utilizada para aliviar o estresse: outra indicação de que a dor física não é tão ruim quanto a dor emocional. Como o sistema prisional sabe muito bem, uma das formas mais eficazes de tortura é o confinamento solitário.

Não é difícil de ver quais podem ser as razões evolucionárias para a dor social. As chances de  sobrevivência entre os mamíferos sociais são muito maiores quando eles estão fortemente conectados com o resto do bando. Os animais isolados e marginalizados são os mais prováveis de serem capturados por predadores ou morrerem de fome. Assim como a dor física nos protege de danos físicos, a dor emocional nos protege de danos sociais. Ela nos leva a nos reconectar, mas muitas pessoas acham isso quase impossível.

Não é surpreendente que o isolamento social seja fortemente associado com depressão, suicídio, ansiedade, insônia, medo e percepção de ameaças. É mais surpreendente descobrir a variedade de doenças físicas que ela causa ou exacerba. Demências, hipertensão, doenças cardíacas, derrames, resistência diminuída a vírus e mesmo acidentes são mais comuns entre pessoas cronicamente solitárias. A solidão tem um impacto na saúde física comparável a fumar 15 cigarros por dia: ela parece aumentar o risco de morte precoce em 26%. Isto ocorre, parcialmente, porque ela aumenta a produção do hormônio cortisol, que suprime o sistema imunológico.

Estudos tanto em animais quanto em humanos sugerem uma razão para comermos para nos confortarmos: o isolamento reduz o controle de impulsos, levando à obesidade. Sendo as pessoas nos degraus mais baixos da escada socioeconômica aquelas que mais provavelmente sofrem de solidão, será que isso  não nos oferece uma explicação para o forte vínculo entre status econômico baixo e obesidade?

Qualquer pessoa pode ver que isso é muito mais importante do que a maoria das coisas pelas quais estamos reclamando que deram errado. Então, porque nos engajamos neste frenesi autoconsumista de destruição ambiental e deslocamento social, se tudo o que ele produz é uma dor insuportável? Esta questão não deveria preocupar a todos que desempenham um papel pública?

Há algumas instituições de caridade maravilhosas fazendo o que podem para combater esta onda, com algumas das quais eu colaborarei como parte do meu projeto sobre a solidão. Mas, para cada pessoa que elas atingem, várias outras passam batido.

Isto não requer uma resposta política. Requer algo muito maior: a reavaliação de toda uma visão de mundo. De todas as fantasias que os seres humanos entretêm, a ideia de que podemos prosseguir sozinhos é a mais absurda e, talvez, a mais perigosa. Ou ficamos juntos ou desabamos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s