EGO, MENTE E CULTURA – Miki Kashtan

ego in a jar

Miki Kashtan, socióloga, facilitadora de Comunicação Não-Violenta e escritora, analisa neste artigo o uso corrente de termos como “ego”  e “mente” sob a luz da Comunicação Não-Violenta. Para ela, estes conceitos, da maneira como são compreendidos pela cultura ocidental contemporânea, atuam como  ferramentas de separação, desconexão e desresponsabilização. Agradeço a Severino Lucena por traduzir do inglês e permitir a publicação neste blog.  

Original em inglês: http://baynvc.blogspot.com.br/2013/11/ego-mind-and-culture.html#main. Tradução: Severino Lucena

No quadrinho: “Meu Ego estava minando minhas capacidades de liderança, então eu dei um jeito nele” [“Não alimentar!”]

A ideia para este texto veio a mim quando eu li um comentário a uma postagem anterior no meu blog. O conteúdo específico da postagem (que era sobre raça), não é a questão aqui. Na verdade, foram duas referências a “ego” que me chamaram a atenção e me deixaram pensando por todos esses meses. Aqui estão elas, a título de contexto:

“O único uso para estes falsos valores é aumentar o sentido de separação do ego, seja através de concepções de superioridade ou de inferioridade.”

“Um dos resultados de agir a partir de valores verdadeiros é a libertação da ignorância à qual o ego separador se apega tenazmente.”

Não há nada de incomum nestas frases. Elas simplesmente capturam uma maneira de falar da qual tenho estado consciente: a de atribuir intenção para o que é, em última análise, uma abstração. Talvez isto não estivesse tão perceptível para mim se não fosse por um segundo aspecto: a intenção atribuída a essa abstração chamada “ego” carrega consigo uma conotação negativa.

Foi uma triste surpresa para mim quando soube que a entrada de “ego” para o idioma inglês foi, em grande parte, o resultado de escolhas feitas pelo tradutor de Freud, James Strachey. “Ego” foi introduzido como uma tradução da palavra em alemão que significa simplesmente “eu”, mudando assim o sentido e o tom do que Freud escreveu. “Quando uma pessoa diz ‘meu ego'”, diz Mark Leffert, “alguém sempre pode se distanciar. Quando se diz ‘eu’, a distância não é possível”. [Nota de rodapé 1]

É precisamente essa distância que nos permite vê-lo como separado, uma “coisa” com uma intenção.

Quando as traduções de textos orientais também vieram a usar a mesma palavra, esta tornou-se um pilar, onipresente. “Ego” é, agora, algo a ser evitado, a ser trabalhado para nos libertarmos dele. Ele interfere com o nosso senso mais elevado de bem-estar, bloqueia nossa generosidade e nos mantém focados em desejos que são geralmente vistos como “narcisistas”, como desejos por reconhecimento ou por sermos enxergados.

Foi preciso algum esforço quando decidi, há alguns anos, libertar deliberadamente a minha língua da palavra “ego”. Eu não queria utilizar um conceito tão carregado com carga negativa. Quero que minha língua reflita o meu compromisso com uma visão diferente da natureza humana, em vez de apoiar a visão de que dentro de cada um de nós há uma parte central, que deve ser transcendida ou suprimida, a fim de me tornar um membro maduro e funcional da sociedade humana.

Narcisismo e abnegação

Sério?

Esta visão de “ego” está intimamente ligada ao conceito de narcisismo, bem como à ideia que diz que quando nos doamos estamos sendo “altruístas” ou “generosos”, sutilmente insinuando de alguma forma que estaríamos indo contra a nossa natureza ao fazer isso.

Lembro-me de um passeio que fiz com uma amiga um dia, que comentou sobre o sacrifício que seria, para mim, fazer o trabalho que faço. Eu entendi mais tarde que o que ela quis dizer estava relacionado à quantidade de esforço e atenção que coloco em meu trabalho e ao grau de disponibilidade que dedico para pessoas e projetos. Inicialmente, no entanto, levou algum tempo para que eu pudesse compreender por que ela estava dizendo isso, pois a minha própria sensação era que nada poderia estar mais longe da verdade. Sacrifício é desistir de algo e fazer algo que eu “deveria” estar fazendo, ao passo que o meu compromisso com o meu trabalho surge de dentro, é atraente, e é o que eu quero e estou disposta a fazer integralmente.

Em outra ocasião me lembro de outra pessoa falando, depreciativamente, sobre necessidades narcisistas. Quando a pressionei pedindo clareza, ela nomeou necessidades como ser vista, por reconhecimento ou por ser amada. Eu quis chorar quando a ouvi. Estes são precisamente os tipos de necessidades que são nucleares e centrais à nossa capacidade de saber que somos importantes e fazemos parte do tecido humano. Na medida em que as relegamos ao “ego” e as chamamos de “narcisistas”, continuamos a levar adiante a ideia de que há algo de errado em querer amor, por exemplo. Talvez até mesmo reforcemos a noção de separação entre o eu e os outros.

Parte da razão pela qual eu deliberadamente abstenho-me de usar essas palavras – ego, narcisismo, abnegação, altruísmo e egoísmo – é porque estou buscando transcender a dicotomia entre o eu e o outro. Quero fazer a distinção entre auto-cuidado e “egoísmo” e espero que cada um de nós possa atender nossas necessidades e ao mesmo tempo oferecer nossos dons em todos os lugares. Da mesma forma, quero distinguir entre sustentar as necessidades de todos com cuidado e a noção de “altruísmo” ou “abnegação”, para que eu possa lembrar e lembrar aos outros que cuidar dos outros não é à custa de mim mesma, que eu não estou separada, que todos nós nascemos e permanecemos interdependentes.

E o que dizer da mente?

Apesar de mente e ego não serem conceitos equivalentes, ambos são vistos como obstáculos a superar, especialmente em círculos comprometidos com práticas espirituais, de consciência emocional ou de recuperação. Somos instruídos a acalmar a mente, a fim de alcançar a paz interior, por exemplo. Nossa mente também é vista como a sede dos julgamentos. “Ir para a cabeça” é, em si, um julgamento nesses círculos. Além disso, a mente é vista como a origem do medo, culpa e muito mais.

Eu quase intitulei este texto como “Em Defesa da Mente”, precisamente porque acho que é trágico que a nossa capacidade de pensar, de aprender, de discernir, de darmos sentido a nós mesmos e à vida, para a geração de idéias, para ensinar aos outros – ou tantas outras coisas que são essencialmente humanas – é criticado em um tal grau. Estou preocupada com o ethos anti-intelectual que vejo em alguns círculos.

Não posso melhorar as palavras de Alfonso Montuori, professor de estudos de transformação no “California Institute of Integral Studies”:

É irônico como muitas vezes a busca de holismo, de transformação, de integralismo e abordagens alternativas em geral, possa levar à exclusão do que é às vezes depreciativamente chamado de “mental.” Neste ponto de vista, que não é incomum em alunos entrando em programas alternativos e nos círculos da Nova Era, qualquer coisa considerada “intelectual” é, por definição, não-espiritual, porque o intelecto é o “velho paradigma”, o inimigo da espiritualidade. É precisamente o que nos separava da existência espiritual, intuitiva, natural, espontânea que nossas antepassadas e antepassados aparentemente apreciavam nos dias antes de Descartes, Newton, da Revolução Industrial e até mesmo a da agricultura. A ênfase está na compreensão e/ou conexão com a “sabedoria superior”, ou Deus. O aprendizado por livros é visto em última instância como “relativo”, de segunda mão, e até mesmo parte de um processo de auto-engrandecimento egóico, indiferença, esnobismo, elitismo e um afastamento do mundo “real”. [Nota 2]

Eu compreendo perfeitamente a reação às tentativas de fazer da racionalidade o único aspecto importante do ser humano com a exclusão e regulação de tudo que seja apaixonado e emocional. Eu, também, sinto uma angústia profunda acerca deste aspecto em curso da civilização ocidental. Essa insatisfação foi o suficiente para me levar a dedicar vários anos de minha vida desafiando a primazia da racionalidade na minha dissertação. Ainda assim, trocar “coração” por “mente” (de modo que o coração é preferível à mente) mantém a divisão dentro de nós e a possibilidade de sustentar a visão negativa da natureza humana. Em vez disso, o que eu defendia, tanto na minha dissertação quanto desde então, é uma integração de razão e emoção, mente e coração.

De onde vem a mente?

O que me preocupa de igual forma, além da difamação da mente é a prática comum de vê-la como uma entidade estática, algo que existe independentemente de cultura e, portanto, imutável. Se é um aspecto “negativo” do eu e é, além disso, fixada, então o projeto de ser um ser humano plenamente vivo, amoroso e integrado está destinado a ser uma luta perpétua, desde tempos imemoriais e para sempre.

Sinto uma imensa gratidão pela descoberta do feminismo, em meados da década de 80, e pelos anos que passei mergulhando no estudo da sociologia, mais especialmente, embora longe de ser exclusivamente, à minha exposição a Karl Marx. Feminismo e sociologia me proporcionaram uma visão valiosa: a de que somos criaturas de prática, que quem somos como indivíduos, o que o nosso senso de eu é, o que somos capazes de pensar e sentir, são profundamente moldados pela cultura e as instituições em que nascemos. Uma criança que nasceu há 500 anos na Europa, por exemplo, não estaria perguntando-se ou recebendo perguntas de outros sobre o que eles queriam ser quando crescessem. Para a maior parte, esse futuro papel na vida foi determinado ao tempo em que a criança nasceu. Da mesma forma, seria improvável que essa criança se imaginasse auto-suficiente, como criança ou adulto. Elas sabiam que a vida dependia da boa vontade dos outros.

Mesmo sem ir muito longe no tempo, os hábitos de culpa, medo e auto-julgamento que são tão comuns a ponto de parecerem naturais e inevitáveis para muitos de nós, não são universalmente familiares. Eu ainda me deleito lembrando a ocasião em que li sobre a visita que vários estudiosos budistas do Ocidente fizeram ao Dalai Lama, na qual tiveram uma discussão com ele por algumas horas antes que este pudesse finalmente compreender a profundidade da autodepreciação que é como o ar para nós: isso era totalmente desconhecido para ele.

Não há dúvida em minha mente de que não nascemos com julgamentos, seja sobre nós mesmos ou sobre os outros. Nós não nascemos com a culpa, a auto-sabotagem, ou qualquer um dos outros atributos designados à mente ou ao ego. Eu vejo tudo isso como adaptações reativas ao que encontramos, como pequenos seres, depois que nascemos. Idéias de nossa própria maldade, em particular, são internalizadas por nós na medida em que elas nos são dirigidas pelos outros. Quase desde o momento em que nascemos somos avaliados – boa menina ou menina má, bom menino ou menino mau – e dizem-nos o que devemos ou não devemos fazer. Espera-se que cresçamos para sermos empáticos, atenciosos, respeitosos ou honestos quando essas qualidades não são demonstradas na forma como somos tratados, nem nos é dado espaço para encontrar a partir de dentro o que somos. Não me causa surpresa que a maioria de nós carregue tanta vergonha, levando-se em consideração a intensidade e o número de vezes em que crianças são humilhadas por outras pessoas.

Em vez de dizer-nos que, como indivíduos, nosso trabalho é o de superar a “mente” ou o nosso “ego,” eu quero, em primeiro lugar, investigar a visão da natureza humana que é responsável por criar essas noções. Embora as noções de “pecado” não sejam mais aceitas em muitos círculos, a visão negativa do “ego” e da “mente” parecem não levantar preocupação. Vejo-as como suplantando noções anteriores, permitindo que a visão fundamentalmente negativa da natureza humana, que é parte integrante das sociedades com base em autoridade, persista.

Eu quero que estejamos conscientes de que, a fim de nos libertar da constrição da vergonha e dos auto-julgamentos, o que é necessário não é uma luta individual para superar a parte negativa de nós mesmos que está inevitavelmente lá. Pelo contrário, eu vejo o que é necessário como um esforço concertado para desfazer o pior da nossa socialização com o apoio de outros que estão igualmente comprometidos. Além disso, a fim de aliviar a necessidade de tais lutas heróicas por parte dos nossos filhos e todas as crianças, espero que muitos de nós se dêem as mãos no compromisso de garantir que todas as crianças tenham a oportunidade de crescer em ambientes que confiam em sua humanidade inata e permitam-lhes florescer. Não é uma tarefa fácil quando vimos sendo treinados para acreditar que, a menos que sejam controladas, as crianças vão ser egoístas e agressivas. Em um mundo assim, a palavra “ego” perderá sentido, e vamos recuperar o acesso à beleza do que nossas mentes podem ser: instrumentos de grande capacidade cognitiva e emocional a serviço de toda a vida.

Notas de rodapé:
Mark Leffert, The Therapeutic Situation in the 21st Century. P. 173.
Alfonso Montuori, “The Quest for a New Education: From Oppositional Identities to Creative Inquiry,” in ReVision, 2006, Vol. 28 no. 3.

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