VERGONHA E DESCONEXÃO: AS VOZES DA OPRESSÃO AUSENTES EM “O PODER DA VULNERABILIDADE”, DE BRENE BROWN – Rachel Cohen-Rottenberg

Como terapeuta, acredito que é impossível desconectar o trabalho clínico das questões sociais.  Qualquer intervenção num organismo é, também, intervenção em um sistema, e o contrário também é verdade. Tenho observado na minha prática que as forças sistêmicas que atuam no sentido da alienação, da desconexão e do desempoderamento são, em última instância,  as maiores responsáveis pelo sofrimento que faz com que as pessoas busquem por apoio terapêutico.  

Original em inglês: http://thebodyisnotanapology.com/magazine/shame-and-disconnection-the-missing-voices-of-oppression-in-brene-browns-the-power-of-vulnerability/ 

 

Meu primeiro contato com o trabalho de Brene Brown aconteceu após várias pessoas amigas me dizerem que eu tinha que assistir a palestra dela no TED, O Poder da Vulnerabilidade. Elas acreditaram que eu adoraria. Achavam que seria a melhor coisa.

Apesar do encorajamento, eu ficava adiando. Acho que seria fácil me psicoanalisar e dizer que eu estava resistindo à necessidade de me confrontar com minha própria vulnerabilidade, mas a resposta é bem mais simples: eu tenho dificuldades de audição e não havia legendas no vídeo. Então, eu precisava de uma transcrição da palestra para poder acompanhar o vídeo e estava muito ocupada para procurar por ela.

Esta falta de acesso relacionada a uma limitação é importante, porque é uma indicação de problemas maiores com a palestra em si. Quando procurei, encontrei a transcrição e assisti à palestra, assim como sua complementação, Escutando a Culpa (para a qual eu também encontrei uma transcrição).

No início, eu gostei bastante delas. Era tão reafirmador e familiar, sabe? Quer dizer, quem não tem problemas com ser vulnerável – nas relações pessoais, no corpo, no mundo? Quem não luta com a vergonha? Quem não tem problemas de conexão? Pouquíssimas pessoas.

Mas algo estava faltando. Muitas coisas estavam faltando, na verdade. De fato, faltava tanto que o que Brown tinha a dizer, no final, não guardava muito poder, na minha opinião.

O que faltava era, ao mesmo tempo, imensamente vasto e surpreendentemente simples: contexto social. Quase tudo sobre o que Brown falava – nosso medo da vulnerabilidade, nossa falta de conexão, nosso senso de vergonha – referia-se à psicologia individual, com absolutamente nenhum reconhecimento de que pessoas diferentes ocupam contextos diferentes que englobam todas estas questões. Por exemplo, no início de O Poder da Vulnerabilidade, Brown coloca uma questão: por que as pessoas se sentem tão desconectadas umas das outras? E a responde de uma forma muito simples: Vergonha. A vergonha, ela acredita, é a culpada:

Eu me deparei com esta coisa sem nome que desfazia conexões de um modo que eu não compreendia ou já tivesse visto. E então eu me afastei da pesquisa e pensei: preciso descobrir o que é isto. E era a vergonha (Brown, 2010).

Eu não sei quanto a você, mas eu posso pensar em um grande número de outras razões que fazem com que as pessoas experimentem poços profundos de medo, alienação e desconexão umas das outras: racismo, capacitismo, homoantagonismo, transantagonismo, gordofobia, classismo, etnocentrismo, pobreza, supremacia branca, a tirania da normalidade, a distribuição desigual de renda, violência, guerras, o complexo prisional-industrial, o isolamento da deficiência, anti-semitismo, islamofobia, sexismo e binarismo. Só pra nomear algumas delas.

Ainda que eu adorasse ter uma resposta simples ao problema da desconexão, eu sinto muito, mas não posso reduzi-la à culpa pessoal.

As intolerâncias que as pessoas enfrentam causam vergonha nelas? Às vezes, sim, mas vamos encarar: a desconexão não será resolvida apenas ao superarmos a vergonha. Pessoas de qualquer grupo marginalizado podem fazer todo trabalho pessoal em si mesmas que quiserem, mas este trabalho não irá magicamente retirá-las das margens e conectá-las à sociedade como um todo. Se você está nas margens, não é por sua atitude, que causa desconexão. É devido ao estigma e à exclusão sistêmica. Eu posso ser a pessoa com deficiência mais psicologicamente saudável e evoluída espiritualmente do planeta, mas isso não vai resolver as barreiras sociais, sensoriais e arquitetônicas que reforçam minha desconexão diária com um mundo feito para corpos capazes.

Na minha experiência com uma variedade de terapeutas nos últimos 30 anos não foi incomum a recusa de considerar o contexto social. Tive apenas uma terapeuta na minha vida adulta que foi capaz de conversar comigo sobre meus sentimentos e lutas no contexto de ser uma mulher com deficiência nos EUA. Apenas uma. O resto? Estar em seus consultórios era como entrar em uma cabine a prova de som na qual as exclusões clamorosas e as intolerâncias do mundo simplesmente não entravam.

Deixem-me dar um exemplo de como é falar sobre deficiência com a maior parte dos terapeutas. Tive a conversa a seguir com uma terapeuta enquanto eu estava apenas começando a lidar com o fato de ser uma pessoa com deficiência na meia-idade. Eu a postei no meu blog Jornadas com o Autismo três anos atrás, assim que eu decidi que a terapia não estava mais servindo à minha saúde mental:

Eu: Quando você escreve seus relatórios sobre nossas sessões, você inclui um diagnóstico?

Minha terapeuta:  Não

Eu:  Se você fosse me dar um diagnóstico, qual seria?

Terapeuta: Bem, você definitivamente tem um transtorno de humor.

Eu: Tenho?

Terapeuta: Sim.

Eu: Como você define isso?

Terapeuta: Bem, você é ansiosa e bastante triste.

Eu: Isto significa que eu tenho um transtorno?

Terapeuta: Sim.

Eu: Mas olhe para a minha situação. Estou lidando com o fato de ser uma pessoa com deficiência na meia-idade. O mundo não está preparado para receber uma pessoa como eu como membro pleno da comunidade. Na verdade, eu me sinto invisível na maior parte do tempo. Isto me deixa triste. Estou enlutando. Qualquer pessoa se sentiria triste e aborrecida com esta situação. Por que isto significa que eu tenho uma desordem?

Terapeuta: Porque este é o seu problema.

Eu: O que você quer dizer com “é o meu problema”? Eu vivo em uma sociedade que me considera invisível. Por que não é um problema da sociedade?

Terapeuta: Porque é seu problema.

Eu: Mas eu não posso resolvê-lo sozinha. Eu percebo que eu tenho que lidar com o que me foi dado, mas você não pode esperar que eu suporte alegremente o peso de toda esta dificuldade. Há uma relação entre o mundo e eu. E quanto à disfuncionalidade do mundo? Por que a culpa é toda minha?

Terapeuta: [sorriso bondoso]

Eu: Você entende o que eu estou falando?

Terapeuta: Sim, e é seu problema, ainda.

Eu: Não acho que a gente vá chegar a lugar algum.

Como você pode imaginar, esta conversa não melhorou o meu humor. Subitamente, toda a responsabilidade por meus sentimentos de vulnerabilidade e desconexão recaiu somente sobre mim. De alguma forma, eu tinha que resolver o problema de viver sob o peso da exclusão e da intolerância sem me referir absolutamente a este peso. Não era o mundo que tinha um problema chamado capacitismo. Não, era eu que era disfuncional. Mas eu precisaria estar completamente dissociada para caminhar por ai alegremente esquecida das forças sociais que estavam pesando sobre mim todos os dias.

Na psicoterapia, experimentei esta omissão em relação ao contexto social como causadora de vergonha, desconexão e alienação profundas. Coloquei toda a responsabilidade por mudar minha atitude, minha perspectiva e minha narrativa interna sobre meus ombros, sem nunca questionar as forças externas que tornam esta mudança tão difícil. Se eu tenho responsabilidade sobre como eu ando pelo mundo? Certamente. Isto é inquestionável. Mas não é só isso que existe, e a idéia de que cabe somente a mim condena todo o projeto “sentir-me bem sobre mim mesma” ao fracasso.

Durante todos os anos em que estive em terapia, apenas uma terapeuta fez referência às forças sociais causadoras de vergonha, desempoderamento e desconexão que tornavam tão difícil para mim clarear minhas ideias e ter uma visão positiva sobre mim mesma. Antes de encontrar esta terapeuta, minha falta de habilidade de encontrar esta autoestima básica se tornou o indicador do meu fracasso pessoal. Coloquei uma grande quantidade de energia emocional na solução destas “questões” relacionadas aos meus sentimentos de desconexão e alienação, como se elas fossem algum tipo de desajuste, enquanto as injustiças sistêmicas às quais elas respondiam permaneciam em seu lugar. Quando eu não pude mais fugir destes sentimentos, foi-me dito que eu deveria trabalhar mais intensamente neles. Graças a Deus eu descobri que meus sentimentos eram uma resposta perfeitamente razoável a um mundo duro e injusto. Se eu não tivesse descoberto este simples fato eu ainda estaria em terapia, me perguntando o que estava errado em mim que fazia com que todo meu trabalho duro não me levasse a lugar algum.

Se eu acredito que todas as pessoas do campo da assistência social, como Brene Brown, ou qualquer uma que tenha treinamento terapêutico têm a intenção de causar vergonha ou desempoderamento? Não, não acredito. Na verdade, acho que a maioria delas é bastante bem-intencionada e quer ajudar as pessoas, mas eu acho que o trabalho delas tem seu lugar. Ele certamente me ajudou em outros aspectos. Mas sem o contexto social, seu trabalho se torna profundamente problemático, e muitas das questões que emerjem estão refletidas nos vídeos de Brown.

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