SOBRE LUTO E REVERÊNCIA, parte 3 – Charles Einsenstein e Francis Weller

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Esta é a terceira parte da tradução do podcast em que Charles Eisenstein conversa com o psicoterapeuta e escritor Francis Weller sobre a importância de resgatarmos a prática de enlutarmos em comunidade como forma de fortalecermos as relações e a nós mesmos e, assim, contribuirmos efetivamente para a transformação social que desejamos.

ACESSE AQUI A PRIMEIRA PARTE DESTA ENTREVISTA

Eisenstein: Uma das críticas que enfrento às vezes é que, quando eu ofereço estes espaços profundamente íntimos, estes espaços transformadores ou como queira chamá-los e que dão uma breve visão do que é possível para a humanidade e as relações, de certa forma… E se eu estiver apenas oferecendo este tipo de “barato” temporário e então as pessoas voltam para casa, e isto quase faz com que suas vidas de cumplicidade com a máquina sejam um pouco mais toleráveis, porque elas tiveram esta experiência de elevação? Então, existe um tipo de crítica que diz que isto pode inclusive tornar difusa uma energia que poderia, de outra forma, ser investida na criação de mudanças positivas. Mas eu acho que… Quer dizer, eu aceito esta crítica, mas o que eu tenho visto em experiências reais é que, como você disse, elas criam um foco de luz que faz com que o normal pareça menos normal, e o que foi dito a nós que é real, menos real, porque tivemos outro tipo de experiência e não podemos mais acreditar que não pode ser diferente. Que estas experiências que você oferece não são uma exceção à normalidade, mas sim um tipo de promessa daquilo que é possível, que, na verdade, torna as pessoas menos tolerantes ao status quo. E que as mudanças que ocorrem em suas vidas não são necessariamente… Não se trata de ter esta experiência e prometer fazer algum tipo de mudança na sua vida, mas sim de voltar à vida mudado, e as coisas que, no final… “Um dia eu farei isto e aquilo, vou desistir deste emprego”, sabe? Estas coisas que existiam apenas em teoria se tornam necessidades inegáveis.

Weller: Foi o que eu disse, Charles, o que eu disse em relação aos valores do luto. Um dos que já mencionei foi que ele mantém o coração tenro e flexível. Este é um jeito de desenvolver compaixão. Mas, além disso, o luto é uma forma de protesto. É uma maneira de dizer: “Eu me recuso a viver anonimamente e de forma pequena”. Então, se eu me engajo no meu luto isto significa que o que eu estou experimentando não é aceitável. Ao invés de encontrar um jeito de anestesiar meu desconforto indo a estes workshops, o que ocorre é exatamente o efeito oposto, que me traz de volta à vida. E minha resposta ao mundo, ao que eu vejo, seja no supermercado, nas ruas, seja onde for, é me tornar um pouco mais aberto para responder de uma maneira significativa e útil. Então é, na verdade, uma forma de protesto: “Eu não vou me anestesiar…” Com frequência eu falo a respeito dos dois pecados primários da cultura: amnésia e anestesia. Nós esquecemos e nos entorpecemos. E nós [ruído] lembrar e nos mantermos vivos.

Eisenstein: Uma das coisas que eu diria é que nosso sistema não poderia funcionar se as pessoas não estivessem entorpecidas.

Weller: Correto!

Eisenstein: A única maneira pela qual podemos manter, sabe, o sistema prisional e o sistema de justiça… Eu tenho lido coisas sobre como funciona a fiança no sistema judiciário, não sei se você já leu a respeito disso, quando alguém é indiciado por um crime menor, como posse de maconha ou algo parecido e, por não poder pagar a fiança, essa pessoa fica presa por semanas ou meses, por vezes mesmo anos, esperando pela sentença. E quando ela vai a julgamento e é condenada ela descobre que tem que cumprir uma pena de cinco dias de prisão. Este tipo de coisa, sabe… Ninguém acha que é uma coisa boa, mas não é uma coisa intolerável. Não é o tipo de coisa que faz um promotor ou um juiz deixar seu emprego e protestar, porque é algo muito bem conhecido por ele e que está dentro de seu nível de aceitabilidade.  Isto faz com que ele a tolere e diga, privadamente, “sabe, eu gostaria que as coisas fossem diferentes, mas o que eu posso fazer?”, Há este tipo de cumplicidade e ela é, novamente,  um alvo para certos ativistas que, podemos dizer, acreditam ser possível “forçar” a mudança, ao culpar ou envergonhar as pessoas que compactuam com o sistema. “Você deveria se envergonhar da sua cumplicidade com o sistema, você não vê o que está acontecendo?”. Mas a única razão para estas pessoas compactuarem com este sistema, eu acho, é porque elas não o estão sentindo. Se elas o sentissem não seriam capazes de continuar agindo assim, elas seriam literalmente incapazes de dar uma sentença como esta.

Weller: Bem, eu acredito que temos toda uma estrutura projetada em direção à anestesia, para nos manter dissociados de nossas experiências primárias de [ruído], em parte para que possamos tolerar a existência medíocre que nos é oferecida. Temos game-shows e bilhetes de loteria e trabalhos sem sentido… É assim que… Não podemos tolerar os sentimentos que se originam na oferta destas coisas tão sem significado, a menos que estejamos anestesiados. Então, concordo inteiramente com o que você está dizendo, temos que voltar à vida.

Eisenstein: Então, me permita trazer mais uma coisa e talvez possamos concluir. É algo que se apresenta com frequência quando eu descrevo os aspectos das sociedades tradicionais das quais eu acredito que podemos aprender, recebo algumas respostas e reações, além das costumeiras “Você está romantizando o passado, etc, etc,  cedendo ao orientalismo e fetichizando, etc, etc. Se liga, Charles, não deve ser assim tão legal. Olhe para estas culturas que têm maneiras públicas de lidar com o luto. Sabe, na África, por exemplo. Bom, são os mesmos lugares onde há uma brutalidade tremenda, atos bárbaros de guerra, soldados-crianças, algumas das coisas mais hediondas acontecem exatamente nestes lugares que têm práticas de enlutamento”.  Eu poderia rebater estas críticas, mas acho que vou deixar você fazer isto.

Weller: [risos] Bem, quando você impõe um sistema econômico e político hierárquico baseado no poder sobre populações nativas alguns destes sintomas certamente irão surgir. Em locais rurais e nas aldeias, onde estas culturas ainda estão relativamente intactas, estas práticas auxiliam as pessoas a se unirem. Eu não as idealizo, não estou tentando assimilá-las ou importar estas tradições, estou tentando entender o que faz uma cultura sustentável em longo prazo, e há culturas, como a dos aborígenes do sul, que existem há cerca de 75 mil anos, intactas. Como eles conseguiram? Como é possível? Esta é minha curiosidade, não como nos tornarmos iguais a eles, mas quais são as estruturas, as práticas e os valores fundamentais que permitem que uma cultura se sustente. Estamos aqui há quinhentos anos e já estamos sufocando. Olho para eles e os vejo fazendo rituais de cura semanais, nos quais a vila inteira se reúne e dança do nascer ao pôr-do-sol, para trazer cura para sua aldeia. Eles dizem, “quando um de nós se cura, todos nós nos curamos”. É uma cosmologia da inclusão, ao invés de dizerem “ele está doente, isso é problema dele, não meu”. Estou buscando os valores, não idealizando nenhum povo em particular, mas olhando para o que tornaria possível a nós, em nossas comunidades, voltarmos a um nível semelhante de conectividade e sustentabilidade , e não num sentido econômico, mas num sentido anímico. É isto que eu estou tentando fazer.

Eisenstein: Sim. Obrigado por isto. De uma forma semelhante, vejo que nossa história… A nossa história não está mais funcionando. Nós não… Sabe, mesmo dentro da cultura dominante, nós não temos mais fé no nosso estilo de vida, e nós a tínhamos trinta ou quarenta anos atrás. Há quarenta anos poucas pessoas duvidavam dele. Mesmo as pessoas mais radicais não duvidavam que a tecnologia faria com que o mundo fosse incrível no futuro, que estávamos todos no caminho certo e encontraríamos maneiras de criar uma sociedade melhor, que tínhamos na nossa cultura as ferramentas necessárias para fazer isto, e  que éramos mais avançados do que outras culturas. E agora esta certeza está desaparecendo e isto está nos trazendo humildade, a humildade está começando a emergir, talvez não tenhamos todas as respostas e tenhamos que começar a olhar para fora de nossa cultura para encontrarmos os fios de uma nova tapeçaria, o que, logicamente e como você dizia, não significa que tenhamos que importar práticas, arrancá-las de seus contextos e começar a copiar os rituais dos nativos norte-americanos, dos africanos, ou seja lá de quem for. Isto ainda é um tipo de colonialismo, em minha opinião. Mas podemos aprender com elas. Nós não iremos mais até estes lugares para dizer às pessoas como serem humanas, de fato, nós não temos mais certeza de que sabemos como sermos humanos, talvez elas tenham alguma ideia sobre isto e possam nos ensinar.

Weller: Sim, o que me ocorre é uma frase de John O’Donohue que diz: “O que você encontra, reconhece ou descobre depende grandemente da qualidade de sua abordagem. Quando nos aproximamos com reverência, grandes coisas escolherão se aproximar de nós”. Então, quando nos aproximamos de nosso luto com reverência, quando abordamos outra cultura com reverência, algo profundo pode começar a aparecer e ser compartilhado. Mas se nos aproximamos com julgamentos, certezas, ou uma história de dominação, muito pouco… Não encontraremos muita coisa, não reconheceremos muita coisa, não descobriremos muita coisa. Terminaremos no mesmo lugar em que começamos.

Eisenstein: Quando nos aproximamos com reverência grandes coisas virão a nós.

Weller: Grandes coisas escolherão se aproximar de nós.

Einsenstein: Ah… “Quando nos aproximamos com reverência, grandes coisas escolherão se aproximar de nós”.  Isto parece, para mim, como se… Quero dizer, é quase como se fosse uma receita abrangente para um relacionamento diferente com o mundo. Podemos fazer isto com a natureza…

Weller: Certamente!

Eisenstein: E também com as árvores, o solo, a água…

Weller: Sim, e esta ideia da reverência como abordagem tem sido uma das chaves para a maneira pela qual eu busco me mover em todos os círculos, porque ela é realmente uma tese fundamental para lidar com todas as experiências, para acolhê-las, mesmo as coisas mais difíceis com as quais eu me defronto, eu posso acolhê-las? Posso abordá-las com reverência? Posso vê-las… Como Oscar Wilde disse, “Onde há dor há um solo sagrado”. Bem, como devemos nos aproximar de um solo sagrado? Eu acredito que a atitude correta, a abordagem correta, é a reverência.

Einsenstein: Sim, é o oposto de “Por que isto está acontecendo comigo?”

Weller: Sim, ou “Como eu conserto isto? Como eu saio dessa? Como eu evito? Como eu supero?”. Tendemos a ter esta abordagem muito heroica e forte em relação à nossa vida emocional profunda. Mas não é isto que ela quer. Sabe, o que esta parte da nossa alma realmente quer é receptividade e reconhecimento. Grande parte do meu trabalho é auxiliar as pessoas a terem encontros muito mais benevolentes e compassivos com suas próprias experiências. Não podemos controlar o que entra em nossas vidas, mas podemos ter um impacto sobre como respondemos às nossas dores. Ironicamente, muitas destas respostas se conectam às histórias que criamos sobre as experiências de sofrimento, como, por exemplo, “eu mereci, eu fui uma má pessoa, estou sendo punido, não fui bom o suficiente”. Estas histórias se tornam uma nova fonte de sofrimento e perda. Como acolhermos nossas experiências simplesmente com compaixão?

Einsenstein: Uau, grato por estas palavras!

Weller: Por nada!

Eisenstein: Elas realmente estão calando fundo, eu sinto que tenho que ouvir coisas assim com frequência. Como se ouvi-las somente uma vez… Sabe, é quase como se elas fossem um antídoto, não só para as mensagens culturais com as quais sou bombardeado todo o tempo, mas também para a cultura internalizada com a qual eu me bombardeio todo o tempo. Quero dizer, intelectualmente, eu compreendo o que você está dizendo, mas estes hábitos estão profundamente arraigados dentro de mim. Autorrejeição, autojulgamento, as tentativas de me “consertar” e de condicionar meu autoamor à minha capacidade de atingir um certo padrão de bondade.

Weller: Sim, e você pode ouvir por baixo disto tudo uma ansiedade por pertencer. “A menos que eu melhore, a menos que eu lapide esta pedra muito perfeitamente, eu não serei aceito”. Mas, e se isto já for um fato? E se seu bilhete já foi perfurado pela mesma força que moldou o mundo? Nós podemos reagir a isto? Podemos começar a nos conectar com os outros seres humanos e com o mundo natural de uma maneira em que não nos sintamos como intrusos, mas, na verdade, como partes integrantes desta criação contínua? Eu preciso disto! E uma de nossas dores mais profundas vem de nos sentirmos desnecessários, como se fossemos partes extras da máquina da cultura.

Eisenstein: Mas é isto que nossa economia faz.

Weller: Exatamente!

Eisenstein: Na real, se você estiver imerso no pensamento econômico, você é desnecessário, porque outra pessoa poderia tomar o seu lugar, é possível pagar a outra pessoa para fazê-lo. Você é substituível.  Ao ser reduzido a uma descrição de cargo e um produtor de coisas padronizadas você é substituível.

Weller: Uma das frases mais obcenas que temos na nossa cultura é: “Você tem que ganhar a vida”. É uma frase obcena. Faz com que pareça que somos obrigados a, de alguma forma, provarmos nosso direito de existir. Ao contrário, [a existência] é um presente. Você frequentemente escreve e fala sobre a cultura da dádiva, não é? É isso! Este é o presente, nós ganhamos esta respiração, estas oportunidades de tocar, de ver, de amar, de nos conectarmos, que presente incrível! Eu não tenho que merecê-lo! A diferença entre ganhar a vida e perceber que você carrega remédios e dádivas para a cultura é muito profunda. Em nosso trabalho de iniciação nós atuamos na direção de observar e assistir como o talento de determinada pessoa se apresenta e como ele se conecta com as outras pessoas. E então nós nomeamos este dom e o entregamos para que ela o carregue. Novamente, porque preciso sentir que minha habilidade para tocar uma pessoa poderia me fazer ganhar a vida, mas também me faz sentir vivo, pode me trazer de volta à vida. Nós queremos ser indagados: “Qual é o talento que você traz para a comunidade?”, ao invés de “Como você ganha a vida?”.

Eisenstein: Sim… Francis, eu acho que eu quero perguntar como as pessoas podem… Eu imagino que você tenha um website, caso as pessoas queiram participar de um dos processos que você facilita, mas também qual é o primeiro passo, você tem algum… Sabe, eu odeio quando as pessoas me perguntam isso [risos]. Quando me perguntam, “Tá, então qual é o primeiro passo que eu posso tomar?”. Eu digo: “Você já sabe qual é, apenas por ter ouvido a este material, por ter pensado a respeito, você sabe qual é este primeiro passo”. Não se trata de perpetuar o padrão de seguir as instruções de uma figura de autoridade. Sabe, eu não vou perguntar a você qual é o primeiro passo, ao invés disto eu vou fazer um pedido, há algum… Você pode nos dizer o website, se quiser, mas, além disso, eu também gostaria que você nos impregnasse com mais uma semente de cristal. Se houver mais alguma, além de todas as outras coisas lindas que você já disse.

Weller: Bem, o que me ocorre, Charles, é um poema de Rumi, que diz: “Hoje, como em todos os outros dias, acordamos vazios e temerosos. Não abra a porta da biblioteca e comece a ler. Largue os instrumentos musicais. Deixemos que a beleza que amamos seja aquilo que fazemos. Existem muitas maneiras de ajoelhar e beijar o chão”. Eu acredito que é disto que precisamos: precisamos aprender a encontrar a beleza, e é lindo quando estamos juntos, e choramos juntos porque, com frequência, ao término disto compartilhamos um grande estado de alegria. Então, há uma relação profunda entre beleza, alegria e sofrimento e que apenas desejemos acolher estes sentimentos, sermos bons anfitriões para o que quer que se apresente, acho que é isto que nos é pedido. Não se trata nem tanto tentarmos entendê-los, mas de sermos generosos em nossa atenção e na nossa habilidade de dar as boas vindas afetuosamente àquilo que chega. Isto vai mudar as coisas, eu garanto. Se você puder criar espaço para isto, mesmo para um hóspede difícil, como a dor, ele irá mudá-lo. E meu website é wisdombridge.net. Que tal? [risos]

Eisenstein: Obrigado! Foi um grande prazer, mal posso esperar para colocar esta conversa no ar e compartilhá-la com muitas pessoas.

 

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2 comentários Adicione o seu

  1. Reblogged this on Saindo da SêMente and commented:
    Esse texto é sensacional!!!! Lindo,lindo!

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  2. caramba. estou realmente impressionada com este texto!! Me deixou quase em lagrimas!!!grata,grata,grata

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