SOBRE LUTO E REVERÊNCIA, parte 2 – Charles Einsenstein e Francis Weller

11 - Cópia

Esta é a segunda parte da tradução do podcast em que Charles Eisenstein conversa com o psicoterapeuta e escritor Francis Weller sobre a importância de resgatarmos a prática de enlutarmos em comunidade como forma de fortalecermos as relações e a nós mesmos e, assim, contribuirmos efetivamente para a transformação social que desejamos (Clique aqui para ler a primeira parte).

Gravação original em inglês disponível em: https://newandancientstory.net/episode-04-grief-and-reverence/ Transcrição e tradução: Angelica Rente

Einsenstein: Eu gosto dos cinco portões do luto, acho que provavelmente posso lembrar-me de todos eles, porque fui apresentado a eles algumas vezes, mas você gostaria de nomeá-los e, talvez, falar um pouco sobre eles?

Weller: Claro, o primeiro portão é aquele com o qual estamos mais familiarizados, que é aquele que mostra que perderemos tudo o que amamos. É duro, mas todos experimentamos mortes em nossas vidas, seja a morte de um parceiro, um amigo, um filho… É uma experiência primária de grande terror na alma, experienciar este primeiro portão do luto, que também inclui doenças, a perda de uma casa, de um animal de estimação, estas coisas às quais nos tornamos tão intimamente apegados e ligados, e quando elas desaparecem a dor é muito grande. Contudo, é o único luto na nossa cultura que é formalmente reconhecido. Alguém irá dizer: “Sinto muito por sua perda”. Mas em relação ao segundo portão, ele se relaciona àquelas partes de nós que não amamos.  Em outras palavras, estamos em uma cultura, uma sociedade que considera algumas partes de nós como indesejadas. Então, temos que nos livrar da raiva, ou da tristeza, ou do luto, da alegria, da sensualidade, da imaginação. E todas as vezes que nos livramos de uma parte de nós estamos minando a integridade da psique. E estes são lugares de perda que serão julgados por algumas pessoas, e passamos a desgostar destas partes de nós. E então, ficamos presos nesta situação precária, não sendo capazes de enlutarmos por algo devido ao menosprezo, devido ao julgamento, relacionados ao estado de tristeza.

Eisenstein: E você chama isto de um “portão para o luto” por que quando reconhecemos que isto acontece o portão se abre? É por isso que você o chama assim?

Weller: Exatamente! Esta é a essência do meu trabalho e da minha prática clínica com pessoas. Sabe, elas chegam até mim porque apresentam sintomas como depressão, ou um problema no casamento, e por baixo o que elas estão experimentando primariamente é a perda. Uma perda de integridade, uma perda de completude, uma perda de seu senso de serem capazes de se mover no mundo e revelar quem são em sua inteireza. Então, esta é uma experiência de luto.

Einsenstein: Sim…

Weller: O terceiro portão são as dores do mundo. E neste momento estamos sendo sobrecarregados pelas notícias e pelas informações sobre as calotas polares derretendo, os glaciares desaparecendo, a extinção de outras espécies, ou mesmo de outros idiomas sendo silenciados. Um idioma silencia a cada duas semanas no mundo, o que é assombroso, o que estamos perdendo.

Eisenstein: Sim… Eu estava pensando, em relação às dores do mundo… E talvez possamos voltar a isso mais tarde. Mas, às vezes tudo parece tão avassalador que desligar-nos é quase uma resposta saudável, de outra forma poderíamos nos sentir paralisados, sabe?

Weller: Sim, e acontece primariamente porque somos demandados a cuidar disto privadamente. Eu já fiz vários círculos de luto apenas para movimentos ambientalistas e as pessoas chegam muito pesadas pelas dores, mas quando acabamos elas percebem que há mais energia, vivacidade e vitalidade em seus corpos para voltarem e fazerem mais, o que elas puderem, para suavizarem as dores do mundo. Estas coisas acontecem em torno de nós todo o tempo, ao dirigir para o trabalho pela manhã é comum que eu veja um animal morto ao lado da estrada, e você está certo, isso pode se tornar avassalador, mas a necessidade de enfrentá-lo… Quero dizer, é parte de nossa obrigação moral e espiritual, ter alguma noção do que o mundo está experimentando no momento, mas não podemos fazer isto em isolamento. O quarto portão, eu já o mencionei, é o que nós esperamos e não acontece. E o último portão é o que eu chamo de luto ancestral.  São as dores que não apenas chegam até nós através de nossa linhagem pessoal, mas também através de nossa linhagem cultural. Então, o que aconteceu aqui neste continente quando nossos ancestrais chegaram, o impacto ambiental, a existência da escravidão, estas coisas ainda nos assombram. Estas ainda são dores que não foram reconciliadas e cuidadas de uma forma realmente significativa, e são parte do que está queimando nas cidades neste momento.

Einsenstein: Sim, sim. É algo que eu também… Eu não acho que… Sabe, uma das coisas que impede as pessoas de realmente reconhecerem o que aconteceu neste continente é que não houve um processo de luto, e assim esta culpa e esta vergonha insuportáveis que não têm uma válvula de escape, e então nos tornamos defensivos, de uma certa forma sabiamente, como se disséssemos: “não vou deixar entrar mais deste horror do que o meu aparato de processamento de luto pode lidar”, e porque este aparato de processamento de luto não está disponível há esta incapacidade de reconhecer os genocídios, a escravidão, e assim, por outro lado, também não existe possibilidade para o perdão, não há possibilidade de reconhecimento ou perdão. E, se traçarmos o curso da história, quem eram estes europeus que vieram para cá? Muitos deles estavam fugindo da guerra, da fome ou da morte, sabe, uma grande proporção deles veio pois estavam condenados à morte, e desembarcaram na Nova Inglaterra ou outros locais e tinham que trabalhar por sete anos, ou catorze anos, ou mais, apenas para pagarem pelos custos de suas passagens. É como se a opressão fosse passada de uma mão para outra, e eu também acho que o luto, uma das críticas… Quando estou envolvido em conversas que têm uma natureza mais política e as pessoas dizem: “bem, você sabe, um círculo de luto seria muito bom, trabalhar em nós mesmos, mas não temos tempo para isso agora”. É quase como um luxo participar de um círculo de luto quando há pessoas sofrendo muito mais lá fora, e enquanto você está tendo o seu círculo de luto na sala de conferências de um hotel – e eu sei que estou pintando uma caricatura desleal aqui – ou em retiros, ou seja lá onde for, há pessoas se afogando, sendo bombardeadas, submetidas a trabalho escravo. É o tipo de ideia que reflete a natureza privada do luto, como se ele fosse, de alguma forma, apolítico. Mas eu acho que é o oposto, eu acho que não teremos uma política realmente compassiva a menos que sejamos capazes de acolher a verdade, e só poderemos acolher a verdade que machuca tanto se tivermos meios de processar o luto.

Weller: Isto é precisamente correto, e eu penso que, novamente, é um outro lugar de passagem. Se permitimos que o luto nos toque nos tornamos muito mais íntimos da realidade do mundo e de como ela se expressa. De certa forma, se nós apenas reagirmos e tentarmos forçar uma mudança, estaremos apenas repetindo o mesmo trauma. Então, o que eu descobri que acontece com muitos ativistas quando que vêm para rituais de luto é que eles têm muito mais espaço dentro de si quando vão embora, e eles voltam mais e mais vezes, e alguns deles começam a perceber que estes rituais passam a fazer parte de sua “manutenção da alma”. É assim que eles juntam e soltam, juntam e soltam, e o que temos dito é que se tivéssemos rituais de luto todos os meses nós não sairíamos por ai juntando coisas e carregando-as por ai. Nós estamos arrastando estas coisas pelo mundo, o que, eu acredito que, ao longo do tempo, mina o nosso senso de alegria, de intimidade e começa a trazer cada vez mais uma sensação de amargura e desesperança.

Einsenstein: Então, você se importaria de compartilhar… Ah, talvez eu queira dizer uma outra coisa que me ocorreu. Para mim existe este aspecto meio irracional do luto. Algumas coisas me ferem, e não posso dizer objetivamente que elas são mais horríveis, na verdade, se eu falar objetivamente eu diria que elas são menos horríveis que outras coisas que estão acontecendo neste planeta, mas, por alguma razão, elas me ferem, entram em mim e… Por exemplo, recentemente eu descobri que na Carolina do Norte, para onde me mudei, há estas companhias que basicamente estão procurando por árvores antigas e todo tipo de madeira que elas conseguem encontrar, e indo até os fazendeiros e dizendo: “Olha, aqui tem um cheque gordo”, e então elas transformam esta madeira em lascas e a exportam para o Reino Unido para ser queimada em usinas de energia e conseguindo créditos de carbono por isso, porque lascas de madeira são recursos renováveis. Há carvalhos de 200 anos sendo moídos, e de alguma forma esta é uma das coisas que… Sabe, eles têm estas máquinas gigantes que basicamente arrancam as árvores inteiras do chão, em dez segundos eles podem processar uma árvore de 200 anos de idade.

Weller: Bem, isto me lembra de Wendell Berry, quando ele diz que “não há lugares sagrados e não-sagrados, há apenas lugares sagrados e lugares profanados”, e este é um ato de profanação. E quando perdemos todo tipo de contato significativo com o mundo como sendo uma presença sagrada, isto é o que podemos fazer. E, novamente, é consequência do coração estando fechado e isolado da essência viva da vida.

Eisenstein: Agora eu percebo porque isto me atinge. Não é apenas porque sinto tristeza pela arvore, é também porque existe esta parte indignada em mim que protesta contra como esta indústria como um todo nega uma parte muito antiga de mim mesmo, que conhece cada árvore sagrada e que reconhece que o mundo, que cada lugar é sagrado, e que árvores são seres que merecem respeito. E então há esta parte de mim que está viva, e que eu acredito que exista em todas as crianças, que foi esmagada, ou abusada, ou oprimida, e que é nomeada como sendo irracional, ou emocional, ou o que quer que seja. Então eu acho, porque eu me sinto… Sim, eu me sinto meio que oprimido, como se meu conhecimento tivesse sido abusado, como se certa parte de mim tivesse sido destruída. Sabe do que eu estou falando?

Weller: Sim, certamente! Ela não foi destruída, ela foi negada. O fato mesmo de você ter estas reações mostra que ela ainda esta viva.

Eisenstein: Sim, é verdade.

Weller: Sabe, a resposta de luto é, ela mesma, nossa conexão íntima com o mundo. É isto que precisamos entender, que a razão de você estar sentindo isto por estas árvores é porque existe uma ligação entre vocês e o luto é o reconhecimento desta ligação. E quando esta ligação é cortada ou violada, qual é a resposta adequada? O coração entra na dor. Então, sabe, esta parte em você ainda está viva. É o que eu continuo dizendo para as pessoas sobre o luto: esta é sua declaração de amor, esta é a maneira pela qual seu coração está reagindo ao que está acontecendo no mundo. Isto está muito intimamente conectado com nosso amor e nossa afeição e nossa intimidade com a vida.

Einsenstein: Eu estou pensando… Sabe, os Supertramps, em The Logical Song? “Quando eu era jovem a vida era tão linda, mágica… Um milagre! Os pássaros nas árvores cantavam tão alegremente…” Acho que é: “só me observando”, como se os pássaros estivessem cantando para ele, vivendo neste universo mágico e belo. E então, o que acontece? “Eles me levaram”. A música diz: “Eles me levaram e me ensinaram como ser prático, lógico…”. Poderia ser o hino do movimento.

Weller: Sim, sim… Eu gosto dela, é muito verdadeira, muito verdadeira.

Einsenstein: Francis, você diria que houve algum evento precipitante que revelou a você a importância do luto?

Weller: Eu acho que foi mais cumulativo do que precipitante, acho que enfrentei muitas perdas, meu pai teve um derrame maciço quando eu tinha quinze anos e nunca mais falou, e de certa forma nós nunca conversamos durante todas as nossas vidas. Ele morreu alguns anos depois, mas eu acho que o que me pegou foi mais meu próprio… Como no segundo portão, foi perder o meu próprio senso de identidade, vivendo com muitos sentimentos de vergonha, de falta de valor, sem saber a que lugar eu pertencia no mundo, tentando ser perfeito, tentando encontrar uma maneira para que as pessoas tolerassem minha presença, e então eu fiz um treinamento com um professor africano chamado Malidoma Somé, e no meio dele esta tristeza profunda emergiu (porque era um treinamento residencial), e essa tristeza emergiu, nós nos encontramos e conversamos e eu comecei a entender que a tristeza estava surgindo porque eu estava experimentando algo de que tinha sido privado por quase toda minha vida. E neste tempo trabalhando com ele nós começamos a fazer… Nós trabalhamos juntos por aproximadamente cinco anos, ensinando juntos, e começamos a oferecer muitos rituais e eu comecei a ver que minha prática como terapeuta pode funcionar até um certo limite, para que possamos começar a entrar em contato com o luto e a trabalhar com ele, mas do que realmente precisamos é do processo comunitário. Este é o contexto fundamental que a nossa psique está esperando encontrar para se abrir e expressar completamente quem somos. A partir de então eu comecei a assisti-lo por vários e vários anos, eu nunca me voluntariei para a posição, mas acabei nela, fazendo este tipo de trabalho, pelo qual eu sou profundamente grato. É um processo muito profundo, sentar com trinta ou mais pessoas por vez e começar a ouvir as várias histórias de tantas tristezas diferentes, e o que eu tenho dito a elas é: “Esta não é a sua tristeza, esta é nossa taça comunal, e durante nosso tempo juntos nós poderemos esvaziá-la um pouco, para dar mais espaço para a vida, para a compaixão, para a alegria”. Podemos nos engajar na vida novamente, no sentido de que é um privilégio estarmos vivos neste corpo.

Eisenstein: Bem, eu estou aqui pensando… Falei com você anteriormente por telefone e uma das minhas perguntas a você foi… Eu facilito vários workshops e retiros e quase sempre se forma uma entidade grupal íntima e profunda, e então todos vamos para casa e talvez as pessoas comecem um grupo no Facebook e um pouco desta energia resista por um tempo mas, no final, ela se dilui e… Parece que eu sinto que não posso fazer muitos destes retiros durante o ano, na verdade, eu não os faço, porque é como apaixonar-se, e então o caso de amor termina abruptamente depois de três dias, e então… Quantas vezes por ano você pode apaixonar-se profundamente e perder esse amor, sem sofrer algum tipo de dano? A razão porque mencionei isto é porque você tem feito algo similar, talvez ainda mais profundamente íntimo, no qual coisas muito profundas emergem, e então você volta pra casa. Isto não cria uma nova fonte de dor? E se do que realmente precisamos não é de workshops ou encontros, mas de algo integrado à vida normal, diária? Como fazermos isto?

Weller: Esta é uma pergunta essencial. O que você está dizendo, como eu estava dizendo antes, é que nós teríamos rituais de luto em todas as comunidades regularmente, como temos os rituais de ação de graças regularmente, há luto e gratidão. Contudo, as pessoas nos retiros – porque esta situação sempre surge no domingo – elas dizem: “Nós vamos embora agora?” E eu respondo “Sim!”. E digo, “Nós não vivemos dentro da satisfação primária, nós a visitamos nest cultura. Temos direito de visita para a satisfação primaria, mas não vivemos nela. E, quando vamos embora, há uma dor. Mas esta dor agora é sua guia, ela diz a você: ‘este é o lugar para onde quero ir sempre que possível, eu quero estar próximo deste campo de energia sempre que possível, porque é onde me sinto mais vivo e onde posso ser mais autêntico’”.  Então, sim, certamente é triste experimentar este espaço e ter que deixá-lo. Mas agora há um gosto de “eu conheço e quero isto”. E esta ânsia se torna, realmente, como eu dizia, como uma bússola: quero me mover para onde há vida, quero me mover em direção do que me mantém vivo, e eu posso encontrá-lo. E, de fato, quando voltar para casa eu posso convidar meus vizinhos, meus amigos e conversar sobre isto, como construir isto. Foi mais ou menos assim que eu comecei com este trabalho, eu senti a falta da aldeia, me senti muito sozinho no mundo, então comecei a criar aldeias, convidando vinte pessoas de cada vez para nos reunirmos em pequenas vilas sustentáveis e não-locais e comungarmos de outras vidas, e em outros grupos para fazemos trabalhos de iniciação espiritual, tecendo comunidades. Temos treze delas na costa oeste. Todo o meu trabalho é pensado para criar contextos sustentáveis para a conexão. Mesmo as pessoas que vêm para os rituais de luto o fazem por várias vezes, elas voltam para casa e vêm novamente, elas conhecem outras pessoas e vão mais longe, cavam mais profundamente, entendendo a repetição como essencial para suas vidas.

ACESSE AQUI A TERCEIRA PARTE DESTA ENTREVISTA

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