SOBRE LUTO E REVERÊNCIA, parte 1 – Charles Einsenstein e Francis Weller

Neste podcast Charles Eisenstein conversa com o psicoterapeuta e escritor Francis Weller sobre a importância de resgatarmos a prática de enlutarmos em comunidade como forma de fortalecermos as relações e a nós mesmos e, assim, contribuirmos efetivamente para a transformação social que desejamos. 

Gravação original em inglês disponível em: https://newandancientstory.net/episode-04-grief-and-reverence/ 

Charles Eisenstein: Olá a todos, aqui é Charles Einsenstein novamente, desta vez acompanhado por Francis Weller, conhecido por seu trabalho sobre luto, rituais e comunidade. Seu último livro se chama The Wild Edge of Sorrow (O Lado Selvagem do Luto). Este título por si só me afeta profundamente, eu nunca experienciei seu trabalho pessoalmente, mas fiz um pouco de trabalho de luto com pessoas que foram treinadas por ele, e estou trazendo este assunto… Eu acho que é realmente importante, quando falo de coisas como um mundo mais belo, quando falo sobre esperança, sobre possibilidades além das que convencionalmente reconhecemos como possíveis, quando falo sobre mudar nossa compreensão sobre o que é real, por vezes o que acontece é que as pessoas entram numa uma espécie de desvio espiritual, no qual as coisas que realmente precisam ser vistas, contactadas e curadas são meio que deixadas de lado, porque, afinal de contas, estamos nos movendo em direção a este glorioso futuro novo. Mas o problema, se tentarmos fazer isso, é que o luto, a dor, o pesar, as feridas, eles não simplesmente desaparecem magicamente, eles permanecem no aguardo, prontos a irromper, ou lentamente liberando toxinas no nossa sociedade, nas nossas psiques. E, cedo ou tarde, eles pedirão por cura. Isto é algo que me instiga bastante. Então, Francis, eu peço a você que comente o que eu disse e que, talvez, nos conte como você chegou a isso.

Francis Weller: Ok, obrigado pelo convite, Charles. Eu acho que um dos aspectos mais importantes em relação ao luto é que ele é realmente uma das principais maneiras pelas quais os corações se mantém tenros. Quando reprimimos o luto, quando nos afastamos dele, um dos efeitos é um certo endurecimento do coração. E, se queremos entrar neste mundo mais belo que o coração sabe ser possível, ele precisa se manter responsivo e reflexivo, ele deve manter certa capacidade de responder às circunstâncias do mundo, tanto à sua beleza quanto à sua dor. Mas se evitarmos, se dermos as costas a isto, o coração começa a se congestionar. Há um belo pequeno poema de Denise Levertov no qual ela diz: “Falar da tristeza trabalha sobre ela. Desloca-a do lugar onde ela se agacha bloqueando o caminho que leva ao salão da alma”. É uma bela e instrutiva peça (ruído), [mostra que se não] trabalharmos sobre nossa dor o caminho pelo qual nossa própria experiência ganharia alma se torna congestionado e bloqueado. Sabe, nós temos que participar da dor. É uma das maneiras que (ruído) verdadeiramente uma obrigação moral de digerir as dores do mundo para que nós possamos nos manter abertos e sintonizados para um encontro pleno com a vida.

Eisenstein: Eu acredito que sei do que você está falando, acho que já experimentei isso. Se eu não tiver um jeito seguro, se não me sentir seguro de experimentar a dor – o que, crescendo como um homem, especialmente nesta cultura, eu não tenho. Eu não tenho um jeito seguro, sabe? Na verdade, se eu mostrasse qualquer sinal de dor ou de qualquer outra emoção, eu seria alvo de bullies, eu seria ridicularizado ou ficaria em uma situação desconfortável. Então, eu aprendi a me fechar, a não sentir. E, assim, eu tenho uma vida inteira de prática em não sentir e eu acho que é disto de que você está falando, sobre endurecer o coração.

Weller: Sim, há uma certa sabedoria em se fechar, em parte por causa da maneira pela qual somos instados a experimentar nossa dor, que é privativamente. Sabe, o isolamento de certa forma acaba se tornando a condição que nossa psique reconhece como sendo a possível para processarmos o luto. Então, há uma certa forma a que nós resistimos e evitamos, porque as condições não estão maduras para que nós as encontremos. Posso falar sobre um número de vezes em que pessoas vieram para encontros de luto e alguém disse: “Eu não sei o que estou fazendo aqui, estou apavorado”, e no momento em que começou a sentir que o estava fazendo num contexto comunitário, como numa vila, uma parte dele começou a relaxar e a dizer: “Ah, meu Deus, eu tenho permissão, agora posso entrar naquela sala onde há outras pessoas [na companhia das quais eu posso fazer o que estava fazendo] em minha própria solidão até agora!”.

Eisenstein: Sabe, eu estou pensando que, em outras culturas, o luto era muito mais público, em parte porque toda a vida era bem mais pública, as pessoas não tinham casas grandes e contidas onde viviam suas vidas em isolamento umas das outras, e eu estou pensando… Parece que você está dizendo que o luto, que alguns aspectos do luto, não podem ser totalmente compreendidos se forem vividos privadamente.

Weller: Sim, é isso. O luto precisa de duas coisas para ser superado. Uma é continência, outra é soltura. Se estou enlutando privadamente, eu preciso fazer os dois trabalhos ao mesmo tempo, que é algo que eu não posso fazer. Então, eu acabo entrando em um estado em que contenho continuamente meu luto, mas não permito que ele se instale. A comunidade é o continente, um amigo é o continente que me permite simplesmente fazer um dos trabalhos, que é soltá-lo, deixar que o luto se estabeleça, para que em possa me mover na direção dele e expressá-lo. Mas não podemos fazê-lo privadamente, temos que lembrar que o luto sempre foi um processo comunitário, sempre, sempre, sempre foi comunitário. Apenas muito recentemente se tornou essa coisa muito interior e privada que somos solicitados a suportar sozinhos e, como você disse anteriormente, Charles, quase que com uma qualidade de vergonha ligada a ele, como se estivéssemos acima dele: “O que há de errado com você? Eu acho que você não deveria estar se sentindo assim”. Acredito que, na realidade… O que eu notei ao longo dos anos é que quando temos uma experiência emocional que não é sustentada por outras pessoas nos dando esta continência começamos a desenvolver um apego a ela que é baseado no medo e na vergonha, então, ao invés de termos uma experiência de puro luto, teremos uma experiência aterrorizante de luto, uma experiência vergonhosa de luto, porque essas outras coisas se tornam tão enredadas nele. E parte de nosso trabalho como comunidade quando nos reunimos é começarmos a nos livrar do medo e da vergonha e simplesmente ficarmos com as dores que nos cercam todo o tempo.

Einsenstein: Então, há duas coisas que quero explorar. Uma é: quando este aspecto realmente profundo e importante da vida se torna público – não público no sentido de algo que o mundo todo pode ver, mas público no sentido de ser compartilhado com outras pessoas, e você está falando sobre comunidade – eu não posso deixar de pensar que, uma vez que abrirmos este modo íntimo de partilha, haverá outras… Não podemos ter comunidade para o luto e não termos comunidade para outras coisas também, certo? Eu digo, uma comunidade da estatura que tantas pessoas estão procurando.

Weller: Sim, eu considero o luto uma emoção de entrada, quando conseguimos entrar nesta sala juntos é como se ele abrisse a porta para todas as outras salas. Mas, novamente, há um lugar onde o coração se congela e endurece. Que possibilidade eu tenho então de entrar em uma conexão mais íntima e profunda com você, ou com uma árvore, ou um riacho, ou com o mundo?  Então, novamente, este limiar do sofrimento é fundamental para que eu possa me abrir para a alegria. Eu encontrei uma mulher na África, e eu disse a ela, ela era tão… (interrupção). E ela virou-se para mim e disse: “É porque eu choro bastante”. Foi um momento profundamente importante para que eu visse a conexão entre alegria, exuberância, brincadeira, risada, que chegam através deste limiar, a experiência mais comum da humanidade.

Eisenstein: Eu já citei esta história, eu ouvi você contando-a antes, uma mulher (ruído): “Como você consegue ser tão alegre?” “É porque eu choro muito”. Porque eu acho que a resposta pode ser, quando ficamos com uma dor que não podemos expressar: “Ah, isso está ficando muito pesado, ou isto está ficando muito negativo, vamos parar com essa autoindulgência”, sabe, há como que esta “febre” que diz que se entrarmos no luto ficaremos presos nele.

Weller: Exatamente, Charles, e há este pensamento de que o luto é uma zona morta. É por isso que chamei meu livro de “O Lado Selvagem do Luto”, porque o luto é feroz, é selvagem, é tão saturado com força vital que, de uma forma estranha, quando entramos nele nos sentimos mais vivos. É um estado irônico no sentido que quando estou nele eu me sinto mais íntimo de toda a vida. Então, nós temos esta projeção sobre a dor e sobre o luto, como se eles fossem um estado depressivo. Bem, isso só acontece porque nos tornamos oprimidos pelo peso de todo o luto não expressado em nossas vidas, então, de certa forma, nós temos esta percepção de que ele é um estado negativo que devemos evitar de todas as formas e que devemos sempre nos focarmos em sermos alegres. A alegria é a nova Meca em nossa cultura e, consequentemente, não sabemos como fazer as pazes e aprendermos com a dor, que nos permite entrarmos em um encontro muito mais profundo, mais conectado e, em essência, mais compassivo com o mundo.

Einsenstein: Meca é uma metáfora interessante, porque eu acredito que o objetivo de uma peregrinação não é o destino em si, não é ele que traz a experiência espiritual, é a jornada para o destino, a viagem através do deserto para chegar a Meca.

Weller: É verdade, é verdade…

Eisenstein: E se você for magicamente transportado para lá, sem atravessar o território entre você e o destino, na verdade você não fez a jornada.

Weller: Bem, eu sempre digo para as pessoas com quem trabalho que o objetivo, ou o trabalho de um ser humano maduro é carregar o luto em uma das mãos e a gratidão na outra e se permitir transitar entre estas duas coisas. E o que eu vi em algumas pessoas que se focam somente na gratidão é que lhes falta certa profundidade na compaixão, mas também vi que as pessoas que se fixam somente no luto começam a se tornar mais amargas e cínicas, então elas precisam umas das outras, porque quanto mais dor eu posso suportar, de alguma forma mais compaixão e gratidão eu posso sentir, e elas realmente servem para nos ampliar grandemente para que nos transformemos em seres humanos imensos, não simplesmente para lutarmos através da vida, enfrentando-a e sofrendo. Eu tenho visto um grande número de pessoas que têm estes grandes e fortes músculos do sofrimento. Mas o que elas precisam é de alguma experiência de serem suficientemente acolhidas, para que possam começar a relaxar e se abrir novamente para este tipo de vida exuberante que nos é oferecida.

Eisenstein: Sim. Uma das minhas frases favoritas diz que a iluminação é um processo grupal.

Weller: Isso é muito bom, muito bom!

Eisenstein: Sabe, na mentalidade da separação nós achamos que há esta coisa que supostamente deveríamos fazer por nossa própria força.

Weller: O que é muito interessante, Charles, o que eu vejo é que, escondido no nosso esforço por iluminação ou aperfeiçoamento existe um ódio por nós mesmos que diz que a menos que eu me aperfeiçoe eu nunca serei admitido no círculo. Há uma ansiedade em relação à exclusão, e é disso que se trata toda a história sobre a separação. Você sabe, temos muito pouca fé de que já estejamos dentro.

Einsenstein: Sim, em parte porque vivemos em uma sociedade, entre sistemas, que nos excluem por sua própria natureza.

Weller: Correto.

Eisenstein: O sistema econômico é excludente, mesmo a visão de mundo que nos mantém separados da natureza, da matéria, das outras pessoas, que diz que estamos para nós mesmos, que somos indivíduos separados, consciências dentro de uma prisão feita de carne, um mundo que vê a si mesmo como um simples amontoado de coisas, no qual os eventos da nossa vida são aleatórios e arbitrários, e assim por diante. Toda esta ideologia e o que foi construído a partir dela nos alienam do senso de pertencimento. Se você acredita que pertence ao mundo, realmente pertence ao mundo, que você é uno com o universo, bem, você está meio delirante porque, na realidade, tem só um monte de matéria lá fora e você está imaginando coisas, projetando significados, e assim por diante. E assim, há este tipo de desconforto trivial que… Mesmo que eu esteja tendo uma experiência de beleza, de intimidade ou de conexão, há esta pequena voz dentro de mim que diz: “Isso é real? Está tudo bem? Você pode ficar aqui? Você pode confiar? Você pode confiar em nós?”. Isto é brutal, talvez isso seja algo que deve ser  lamentado.

Weller:  Sim. Sabe, quando eu falo sobre os “portões do luto”, este é um dos quatro portões, esta qualidade do que esperamos e não recebemos. Nós esperamos estarmos inseridos em um mundo vivo e em uma cosmologia viva, nós esperamos acordar pela manhã e sermos saudados por dúzias de olhos que olhem para nós e se perguntem o que será que sonhamos na noite anterior. Nós esperamos por rituais de luto e celebração, como o de Ação de Graças, esperamos por compartilhar comida. Um dos momentos mais invejáveis da minha vida foi quando eu passei algum tempo na África, e no início de todas as noites o refeitório ficava inchado de gente, partilhando histórias, bebendo cerveja, as crianças brincando ao redor, e eu não sabia quem era filho de quem, porque as crianças que ainda mamavam podiam ir até qualquer mãe que tivesse leite, era incrível! Foi uma experiência radical de inclusão, e é por isso que temos happy hours em nossa cultura. Sabe, como se usássemos as bebidas pela metade do preço para, de alguma forma, afogar as mágoas por não termos acesso ao que chamamos de satisfação primária.

Einsenstein: E não é permitida a presença de crianças.

Weller: Certo! Sabe, as coisas que esperamos e que não se materializam são fontes de um luto profundo que nem mesmo tem um nome.

Eisenstein: Sim, isso é algo grande para mim, eu escrevo bastante sobre isto também. Eu adorei a frase que você acabou de dizer: “O refeitório ficava inchado de gente”. Mesmo se você… Nesta sociedade, mesmo que você tenha muita sorte, não tenha sido abusado quando criança, não tenha sofrido pressões terríveis, ou racismo, e assim por diante, mesmo que você tenha tido o que é considerado uma boa vida aqui nos Estados Unidos, ainda há a sensação de algo faltando, esta ânsia…

Weller: Sim, certamente! Sim, nós recebemos satisfações secundárias nesta cultura. Satisfações secundárias como cargos, privilégios, riqueza, bens materiais e, num lado mais sombrio, vícios.  E nunca temos o suficiente das satisfações secundárias. Porém, quando temos nossas satisfações primárias assistidas, como quando estamos em comunidade, não sofremos pela falta de uma nova TV, pela falta de um novo carro, não ficamos pensando no que vai passar na TV esta noite, porque estamos dentro de algo que satisfaz a alma em um nível primário. Não precisamos de mais nada além do que já temos lá.

Einsentein: Às vezes, quando eu facilito processos em retiros nos quais há um forte senso de intimidade e pertencimento e a conexão emerge, eu digo “Ok, quem quer fazer compras agora?”. Penso nisto em termos de ganância, porque, sabe, uma das crenças primárias lá fora é que o problema do mundo é a ganância, e se pudéssemos livrar as pessoas dela e extirparmos a dor de dentro de nós viveríamos em um mundo melhor, e eu digo “Não, a ganância é um sintoma! “. É exatamente do que você está falando, das satisfações secundárias. Eu gosto de falar em termos de substitutos para o que realmente precisamos. De quantos iates, carros esportivos, contas bancárias ou metros quadrados de casa precisamos para satisfazer esta ânsia não correspondida pelo “refeitório inchado de gente” e todas as crianças conhecendo todo mundo e chamando-os de “tios”? Quanto é necessário?

Weller: Sim, porque o que se tenta fazer é satisfazer o vazio, que não pode ser satisfeito por nada que não esteja destinado a preencher este espaço. As experiências primárias de conexão, pertencimento, participação, intimidade, estas coisas, como você disse lindamente, quando você as têm você não precisa sair para fazer compras, você não tenta encontrar algo para nos preencher, porque você está pleno.

ACESSE AQUI A SEGUNDA PARTE DESTA ENTREVISTA

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2 comentários Adicione o seu

  1. ml.ml@ig.com.br disse:

    Adorei este texto sobre o luto, muito bom!

    Gratidão Angélica!

    Curtir

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