O MAL DA CIVILIZAÇÃO É A MENTE PATRIARCAL  – Claudio Naranjo

O psiquiatra chileno Claudio Naranjo faz uma crítica contundente ao pensamento patriarcal e a seu papel na crise planetária, assim como à educação como meio de perpetuação desta mentalidade nefasta. 

naranjo

Original em espanhol: http://circulosdemujeres.blogspot.com.br/2010/06/claudio-naranjo-el-mal-de-la.html. 

Claudio Naranjo, chileno, estudou medicina, psiquiatria e música e acabou por se converter em uma referência mundial na investigação da mente humana.  Seu trabalho integra a sabedoria tradicional e científica, oriental e ocidental, e o conhecimento histórico, antropológico, sociológico, psicológico e espiritual do ser humano. Criador do programa SAT, a principio dirigido a profissionais da psicoterapia, que deu origem a um programa de transformação individual e social para uso pessoal e no âmbito educativo. Autor de mais de 20 livros, traduzidos para vários idiomas.

A única saída para esta crise é a transformação interior

A crise atual tem abalado as estruturas do sistema e acabou por revelar algumas de suas muitas fissuras. O comunismo se afundou devido às suas falhas de funcionamento, mas o capitalismo não parece ter se dado melhor. Levamos séculos trocando governos, fazendo revoluções políticas e sociais, mas nunca chegamos a um porto seguro, talvez porque nos esquecemos das transformações mais básicas e elementares que têm lugar na revolução pessoal. Temos o mundo que temos devido ao tipo de consciência que se desenvolve através da educação, segundo Claudio Naranjo. E se queremos sair de verdade desta crise econômica, social e humana, temos que superar o ego individualista e iniciar uma autêntica transformação interior.

A civilização está doente. De quê?

O mal da civilização é a mente patriarcal. Não me refiro somente à sociedade patriarcal que faz com que os machos predominem sobre as mulheres e tenham um acesso mais fácil ao poder e à economia. Refiro-me a uma forma de mentalidade que atualmente todos compartilhamos: homens, mulheres e crianças, contaminados pelo mesmo vírus.

A que nos referimos exatamente com esta “mentalidade patriarcal”?

A uma paixão pela autoridade. Pelo ego, o ego patrístico, um complexo de violência, excesso, voracidade, consciência isolada e egoísta, insensibilidade e perda de contato com uma identidade mais profunda. Há quem acredite que tudo isto faz parte da natureza humana e que sempre foi assim. Pois não é verdade. Há indícios da existência de um passado matrístico, e ainda hoje há algumas sociedades indígenas com estas características, que não funcionam em absoluto alinhadas às diretrizes e valores que conhecemos na civilização. Esta mente, longe de ser inerentemente humana, em realidade começou a gestar-se há apenas por volta de 6000 anos atrás quando, frente a uma crise de sobrevivência, certas populações agrícolas arcaicas indo-européias e semitas tiveram que voltar a serem nômades e acabaram convertendo-se  em comunidades de guerreiros depredadores.

E como se manifesta esta mente patriarcal?

Nas relações de domínio-submissão e de paternalismo-dependência, que interferem na capacidade de estabelecer vínculos adultos solidários e fraternais. O cérebro patriarcal-racional apela à competição, enquanto que o feminino apela à cooperação. Esta dependência e obediência compulsivas (aos governos e ao poder em geral) não só alienam os indivíduos, como também constituem distorções, falsificações e caricaturas do amor.

Mas as coisas podem ser de outra forma. Você diz que, na realidade, somos seres “tricerebrados”

Certamente. Em uma linguagem anatômica, possuímos um cérebro instintivo, que partilhamos com todos os répteis; um emocional, como o do resto dos mamíferos; e um racional, que é o último que se desenvolveu e que, sem dúvidas, acabou por impor-se sobre os outros dois. É como se, em nosso interior, carregássemos três pessoas: uma de tipo intelectual-normativa, que seria o pai; uma pessoa emocional, que representa o princípio do amor, que é a mãe; e uma instintiva, que seria o filho. Pois bem, na sociedade atual, que denominamos de civilização, predomina o cérebro racional e tem lugar o imperialismo da razão sobre o emocional e o instintivo.

Mas esta razão que impera é realmente racional ou, na verdade, é irracional?

Esta é a questão, porque, na realidade, não é racional, nem inteligente, do ponto de vista dos resultados em relação ao bem estar social e pessoal. Ela corrompeu conceitos como o de inteligência, eficácia ou da própria racionalidade. É uma mente rígida, isolada, autoritária e normativa que busca resultados e ganhos em curto prazo, mas ganhos do ponto de vista competitivo, materialista e consumista, não em relação ao bem estar profundo, desenvolvimento pessoal ou convívio com o meio. E, em consequência, toda a educação está sujeita a este paradigma racionalista.

Que se manifesta como…?

Ao considerar a educação como um mero transmitir de informação, afastada de objetivos como o autoconhecimento, que deveria ser prioritário. E então vemos coisas na escola como, por exemplo, uma criança chorar e lhe chamarem a atenção.

E se dão risada, são expulsas da sala

As emoções estão proibidas. E o instintivo, ainda mais. E, sem dúvida, para que a pessoas seja saudável em uma sociedade saudável seria preciso o equilíbrio entre os três cérebros. Harmonizar os binômios competição/colaboração, agressividade/ternura. Desenvolver uma agressividade saudável,  em vez da agressividade depredadora que impera. E, sobretudo, desenvolver a capacidade de amar, a ternura.

Estamos no caminho? Você fala do ocaso do patriarcado

Por um lado, vemos que o autoritarismo nas famílias diminuiu, assim como nos governos. Mas as empresas tomaram o poder e seu controle é enorme. Mas talvez sim, podemos dizer que o navio está afundando, mas as pessoas estão mais preocupadas em manter o status do que em salvarem-se; em defenderem o pouco que lhes resta, ainda que em vista do pouco que vale, do que com a transformação, em abandonar tudo e começar a construir do zero.

Por isso você insiste tanto na importância da educação

Claro, porque é mais fácil prevenir do que curar. Temos que prevenir a destruição da mente. A educação atual conta com uma agenda oculta que requer que os filhos sejam iguais a seus pais, quando os pais são o problema. Dizemos que a educação serve para transmitir nossos valores e não nos damos conta de que estamos transmitindo nossas pragas.

E isso é responsabilidade da escola, da família, dos meios de comunicação?

Das autoridades em todos os âmbitos, desde os professores até a opinião pública. Os pais aspiram a que os filhos triunfem neste mundo de competição econômica, não importa que também seja um mundo de pobreza crescente, desde que não os atinja. Preferem a educação que serve como uma máquina de certificação. Não lhes interessa educar, mas sim servir ao mundo do trabalho. Insistem que desejam o bem de seus filhos, mas, na realidade, o bem dos filhos interessa menos do que a  eficácia nos negócios. Temos o mundo que temos devido ao tipo de consciência que se desenvolve através da educação, que é uma educação implicitamente exploradora.

Você é muito critico com a educação, em especial em relação aos educadores

Porque não considero a educação como mero repasse de informações, como uma forma mais de produção, de formação e exploração de novos trabalhadores, que é no que consiste a escola atual. Devemos voltar às raízes da educação como autoconhecimento, como busca do “conhece-te a ti mesmo” de Sócrates. Ao conhecimento transformador que possibilita a mudança.

Existem, contudo, algumas iniciativas educativas diferentes, como, por exemplo, as escolas internacionais de Krishnamurti.

Sim, mas mesmo estas escolas levam ao debate, e está tudo bem, porque pelo menos dão a oportunidade aos alunos de aprenderem a pensar por si mesmos. Mais o debate não transforma nada. É preciso integrar processos de autoconhecimento transformador.

A transformação individual para transformar e curar a civilização

Não há mudança possível sem passar pelo autoconhecimento individual. Séculos e séculos de mudanças sociais e políticas fracassaram porque passaram por cima da mudança das pessoas. Só podemos curar o tecido através das células, das pessoas. E para isto temos que plantar a semente na escola. Mas deve ser uma nova escola, que tenha em conta os três aspectos das pessoas: o conhecimento, a saúde amorosa e a saúde instintiva.

Soa diferente…

Mas necessário, se queremos transformar as coisas de verdade. Outro dia me convidaram a dar uma conferência em uma universidade, e antes de começar me pediram que evitasse os temas espirituais e psicológicos e me limitasse à pedagogia. Chocante. A educação resiste a integrar o transcendental-espiritual e o terapêutico e segue considerando-os um campo a parte porque, se não fosse assim, as coisas se complicariam. E é certo que se complicariam um pouco, porque significaria permitir que as pessoas pensem por si mesmas. Então, não se assume o risco. Claro que não se calcula o preço disto.

E qual é o preço?

A infelicidade coletiva.

E o que podemos fazer?

Em primeiro lugar, reconhecer que é um fato que as crianças chegam cada vez mais emocionalmente prejudicadas à escola. Em muitos casos, os pais estão ausentes da educação dos filhos. O tempo livre é escasso e quase não se desfruta do ócio, muito menos compartilhado em família. E, sem dúvida, o ócio está ligado ao crescimento e ao espírito, já  que nos oferece a oportunidade de estarmos conosco mesmos.

O que mais?

Reconhecermos também que sentem falta de amor e desta parte do saber, não científico, a sabedoria que nos permite tomar boas decisões na vida. Decisões que nos conduzem a sermos verdadeiramente mais felizes.

A escola deve ocupar-se disto?

Sim, a escola tem que incorporar este aspecto humanizante. Revelar a insatisfação latente e canalizá-la. Não somente para recuperar este sistema econômico em crise, mas principalmente pelo custo pessoal e pelo sofrimento.

E a que você se refere com revelar a insatisfação?

Porque por trás de toda busca há uma insatisfação, e se queremos iniciar uma busca pessoal pelo autoconhecimento e a transformação devemos estar conscientes, em primeiro lugar, de que este estado de coisas não nos satisfaz. A insatisfação está ai, bem latente e bem visível, o que acontece é que o consumismo nos dá respostas do tipo: compre um carro melhor, mude de casa, de cidade, de parceiro, de trabalho. Mas a resposta do consumismo não é válida, porque a insatisfação não só não se resolve desta forma, como também acaba fazendo com que nos viciemos nela e, na realidade, é disso que o sistema precisa: que sejamos uns consumistas insatisfeitos crônicos. Precisamos de respostas mais profundas que nos levem a fazer mudanças significativas.

Tenho a impressão de que a busca e a insatisfação não são bem vistas nem na escola, nem na família

E é assim mesmo. Porque nossa cultura não reconhece a busca como um valor, mas como um sintoma. Ela só é admitida se está no caminho da ambição profissional, mas se é algo indefinido, que é como deve ser a busca em estado puro, ela é rotulada. Dizem “que pessoa inquieta!”, e ela é considerada estranha. Se, além disso, ela for muito apaixonada, a busca não compreendida e nem apoiada se torna dolorosa e acaba numa consulta psiquiátrica. Existe a possibilidade de que se acabe interpretando como um sintoma esquizofrênico, angústia, etc, quando, na realidade, não passa de insatisfação natural frente à vida alienada, isolada e desestruturada que levamos.

De que maneira podemos agir a partir da família?

O máximo que os pais podem fazer por seus filhos é se ocuparem de seu próprio desenvolvimento pessoal. Que o pai e a mãe se desenvolvam como pessoas e sejam exemplos. Que não aspirem só a que seu filho ou filha tragam boas notas da escola. Que tomem consciência de tudo isto que está faltando na educação e parece que ninguém nota.

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