#WEWASHING: QUANDO “COMPARTILHAR” É ALUGAR E “COMUNIDADE” É UMA COMMODITY – Lee-Sean Huang

 

WeWashing é um novo termo que se refere ao abuso de palavras como “compartilhar” e “Comunidade”. Use #WeWashing para identificar e criticar este abuso.

life is sharing

Original em inglês: http://www.huffingtonpost.com/leesean-huang/wewashing-when-sharing-is_b_6879018.html Tradução: Angelica Rente

Whitewash, Greenwash, WeWash

Sou um usuário satisfeito de services como AirBnb e Uber, ainda que eu não concorde 100% com suas políticas corporativas e práticas. Mas eu tremo a cada vez que ouço estas companhias, e outras como elas, descritas como parte da “Economia  Compartilhada”.

Novas tecnologias podem esticar o significado das palavras, como “amigo” em um mundo pós-Facebook. Mas, em favor da clareza, novos fenômenos sociais também exigem que criemos novos termos para eles. Dado o aumento do uso e abuso de termos como “comunidade” e “compartilhamento”, eu gostaria de propor um novo termo: WeWashing.

Baseado em termos como whitewashing e greenwashing, o WeWashing acontece quando corporações, marcas e outros grupos usam a linguagem do “compartilhamento” e da “comunidade” para descrever o que são, essencialmente, transações comerciais capitalistas.

Whitewash: quando organizações encobertam ou maquiam seus delitos, escândalos ou fatos negativos sobre elas.

Greenwash: quando organizações usam marketing “verde” ou técnicas de relações públicas para comunicar uma imagem ambientalmente amigável que contrasta com a realidade de seus produtos, políticas ou práticas.

WeWash: quando organizações se referem a serviços de aluguel e venda como “compartilhamento” e/ou usam termos como “comunidade” de modos enganadores.

Somos mais do que consumidores

Em seu recente discurso pelos 50 anos das marchas de Selma a Montgomery, o Presidente Obama disse:

“A palavra mais poderosa em nossa democracia é a palavra ‘Nós’. ‘Nós, o Povo’. ‘Nós Resistiremos’. ‘Sim, Nós Podemos’. Esta palavra não é propriedade de ninguém, ela pretence a todos”.

Palavras como “nós”, “compartilhamento” e “Comunidade” podem ser comuns, mas também são significativas. Estas palavras são lembretes de que somos parte de algo maior do que nós mesmos. Como membros de uma comunidade e cidadãos, compartilhamos laços e interesses em comum. Somos mais do que consumidores. Interagimos de maneiras que vão além das transações comerciais.

“Nós, o povo”.

Não “Nós, a monarquia”.

Não “Nós, a corporação”.

Nem mesmo “Nós, os consumidores”.

Nosso “nós” é o “nós” da comunidade real, da colaboração e dos bens compartilhados. Não é o “nós” dos decretos corporativos ou reais.

Nossa linguagem compartilhada é, ela mesma, uma forma de bem cultural comum que não é propriedade de ninguém, e pertence a todos. Então, companhias chamadas de “economia compartilhada” são livres para usar estas palavras se quiserem, mas nós também somos livres para usá-las de maneiras que funcionem para nós. Podemos criar nossos próprios significados. Podemos moldar e adaptar a linguagem e cunhar termos como WeWashing.

Agora que temos uma palavra para este fenômeno que afeta a nossa realidade, podemos dirigir nossa atenção para ele. Podemos nos engajar num diálogo sobre os prós e os contras do “micro-empreendedorismo” e a da assim chamada “economia compartilhada”. Podemos diferenciar a “economia do aluguel” do compartilhamento real.

A Retificação dos Nomes

A Retificação dos Nomes é uma doutrina da filosofia confuciana que alega que, para o bem da sociedade, precisamos chamar as coisas por seus nomes próprios e corretos. Precisamos chamar uma espada de espada. Se pudermos nomear e identificar um fenômeno problemático, podemos evocá-lo mais facilmente e tomar ações para desconstruí-lo.

Por exemplo, ao chamarmos discriminação de “discriminação”, somos capazes de tomar ações para combatê-lo. Ao cunharmos o termo “ambientalismo”, podemos reunir diferentes causas como o combate à poluição do ar e à contaminação das águas e a preservação do habitat animal sob o guarda-chuva de um único movimento.

Ao nos referirmos a incidentes como WeWashing, podemos preserver o significado da partilha altruísta e dos laços de comunidade além das definições estreitas das transações econômicas. Logicamente, não há nada inerentemente errado em comprar, vender e alugar coisas para outras pessoas, mas devemos retificar nossa linguagem para separar estes tipos de transações e relações daquelas que não estão amarradas a formas estritamente capitalistas de troca. Não há nada de errado em “ser amigo” ou “seguir” como convenções das redes sociais, mas também precisamos de maneiras de diferenciar estas relações das formas mais profundas de amizade ou admiração.

Na melhor das hipóteses, o rótulo de “economia compartilhada” é uma estratégia de marketing que tenta tirar vantagem da aura de “bem estar” associada com palavras como “comunidade” e “partilha”. Na pior, é um meio de ofuscar transações como “compartilhamento” como um modo de escapar da regulamentação e fiscalização. É por isto que precisamos retificar os nomes de transações explicitamente comerciais que são rotuladas como “compartilhamento”.

A ideia por trás do termo WeWashing não é criar uma relação exclusivamente binária entre compartilhamento “real” e “falso”, comunidade “real” ou “falsa”, mas de dirigir a atenção para o fato de que existe um espectro. Minha vida foi enriquecida por minhas experiências com a assim chamada “economia compartilhada” muito além do que eu paguei pelos serviços. Encontrei motoristas do Uber de países que iam do Tibet à Mauritânia, e eles partilharam comigo coisas sobre seus países e culturas, enriquecendo meu entendimento do mundo. Uma anfitriã do AirBnB me convidou para um jantar familiar, me fazendo sentir instantaneamente em casa em um lugar estranho. O fato de que isto tudo aconteceu no contexto de relações e transações comerciais não diminuiu seu significado.

Contudo, precisamos reconhecer que há diferentes tipos de partilha e diferentes tipos de comunidade, assim como o conceito de “verde”, que reconhece que há um espectro de “sustentabilidade”. Alguns produtores são mais verdes do que outros, assim como algumas comunidades partilham com mais despreendimento do que outras. Precisamos nos manter honestos sobre em que lugar do espectro algo se encontra.

Vamos hackear a linguagem e agir

“WeWashing” como um conceito melhora nosso vocabulário e nos permite identificar, criticar e nos engajar em diálogos sobre o uso e abuso enganadores de termos como “compartilhamento” e “comunidade”. Vamos usá-lo em nossas conversar e também como uma hashtag online para evidenciar este fenômeno.

Escrever este artigo e cunhar o termo “WeWashing” não é apenas hackear a linguagem: é também fazer uma intervenção cultural e um convite à reflexão. Afinal, não é uma tentativa de demonizar corporações que se apropriam da linguagem da partilha e da comunidade. Como diz minha colega Garance Choko:

“A questão não é que as corporações tenham cooptado estes termos, mas sim como podemos recuperar nossa capacidade de permanecermos fiéis à  nossas noções “ideais” de solidariedade, partilha e comunidade”.

Precisamos perguntar a nós mesmos como podemos explandir as possibilidades do “nós”. Como devemos tratar uns aos outros? Como podemos colaborar e cooperar além das barreiras estreitas do mercado?

Anúncios

3 comentários Adicione o seu

  1. ml.ml@ig.com.br disse:

    Olá Angelica!

    Li o texto agora, foi vc quem traduziu, né! Gratidão por compartilhar o seu saber conosco. bjs

    Mari

    Curtir

    1. Olá, Mari! Sim, a maioria dos textos aqui do blog foram traduzidos por mim. Agradeço por seu interesse e pelo comentário. Bjs, Angelica

      Curtir

  2. Vera disse:

    Muito boa reflexão.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s