O PATRIARCADO ESTÁ MATANDO NOSSO PLANETA – Nafeez Ahmed

e6bfbd57-fe2f-4172-9fef-6b9f1cc01fdd

Nafeez Ahmed é jornalista investigativo e acadêmico em segurança internacional. Neste artigo, ele aponta o impacto negativo da exclusão sistemática das mulheres das estruturas de poder e defende que o empoderamento feminino é fundamental para que o nosso planeta sobreviva. 

Original em inglês em http://www.filmsforaction.org/articles/patriarchy-is-killing-our-planet/ 

A epidemia global de violência contra as mulheres e sua sistemática exclusão das estruturas de poder que nos regem integram a exploração violenta da Terra e de seus recursos por parte dos homens, escreve Nafeez Ahmed. A luta para salvar a Terra deve começar com o empoderamento das mulheres – e isto significa acabar com nossa cumplicidade com sua opressão e servilismo.

 A marginalização e a repressão sistêmicas das mulheres não é uma característica acidental da nossa crise civilizatória. Elas estão inerentemente ligadas ao nosso sistema de dominância masculina que violenta o mundo natural como um todo.

O ultimo domingo foi o Dia Internacional da Mulher mas, apesar da celebração e do reconhecimento das mulheres pela mídia mundial durante este dia, pouca atenção foi prestada na marginalização sistêmica das mulheres como parte integrando do que eu chamo de “crise da civilização”.

Os esforços por parte das Nações Unidas e outras agências para destacar a centralidade das mulheres na luta contra as mudanças climáticas são louváveis, mas eles simplesmente não vão longe o suficiente ao abordarem a extensão na qual as instituições e estruturas globais dominadas pelos homens são diretamente responsáveis pelo desempoderamento feminino.

Uma crise, ou várias?

As crises globais que enfrentamos hoje são legião, mas sua natureza disparatada é ilusória.

Quando olhamos em profundidade, estas crises aparentemente distintas, relacionadas à mudança climática, volatilidade energética, escassez de alimentos, quebras econômicas e conflitos violentos não são, na verdade, assuntos separados. Pelo contrário, são sintomas inerentemente interconectados de uma doença global mais profunda.

Fundamentalmente, todas estas crises se originam em um problema: o fato de que nosso sistema global, cada vez mais, viola os limites naturais de nosso ambiente.

As classes mais ricas e industrializadas estão acumulando e consumindo excessivamente os recursos planetários; neste processo, queimando quantidades imensas de combustíveis fósseis cada vez mais caros e sujos; dispensando volumes sem precedentes de lixo e carbono no ambiente de uma forma que está desestabilizando ecossistemas; e, ironicamente, aumentando os custos de vida e minando nossa capacidade de dar prosseguimento a estes níveis tão vastos de consumo.

Isto aumenta as desigualdades globais, gerando mais pobreza e privações, enquanto esgota a capacidade dos governos de continuar oferecendo serviços públicos, e agrava o desassossego civil, em alguns casos fomentando guerras civis e internacionais.

Nossa visão convencional destas crises como não estando relacionadas é, em si, um sintoma de uma crise epistemológica, enraizada na nossa visão fragmentada da vida e da natureza.

Porque a energia, a economia e o meio-ambiente não estão separados. Eles são meras abstrações conceituais que criamos a fim de compreender questões que estão completa e inseparavelmente entretecidas.

Nossa visão de mundo fragmentária e reducionista tem um papel fundamental nisto. Não apenas nossas ciências são tão especializadas que nos faltam modelos holísticos que nos permitam conectar os pontos entre física, biologia, sociedade, ambiente biofísico, economia, cultura e tantos outros aspectos; esta inabilidade de ver o todo através de suas partes significa que nossa compreensão do mundo está prejudicada, mas que também está prejudicada a nossa capacidade de responder às crises cujo aparecimento agora se acelera.

Com respeito à ‘crise da civilização’, este reducionismo fragmentado significa que não nos vemos como fazendo parte do mundo natural, mas como soberanos da natureza. Sob a doutrina da economia neoclássica, agora neoliberal, nós glorificamos o ilusório e empiricamente refutável ‘crescimento material infinito’, apesar dele ser literalmente, fisicamente, impossível.

Nós subordinamos a totalidade do mundo natural, incluindo virtualmente todas as entidades vivas e não vias do planeta, à ditadura inquestionável do ‘mercado’. Isto levou à comodificação de tudo e à projeção de uma cultura autoperpetuadora de consumismo de massa, reforçando nosso vício no crescimento infinito, assim como nossa cegueira em relação à trajetória suicida que ele está gerando.

Esta separação entre os seres humanos e a ordem natural se reflete nas dinâmicas internas do sistema global: a crescente disparidade entre ricos e pobres, as hostilidades ampliadas entre muçulmanos e não-muçulmanos, as divisões aprofundadas entre brancos e não-brancos e, claro, as persistentes desigualdades de poder entre homens e mulheres.

Em todos estes casos, vemos que nossa pilhagem sistemática dos sistemas de suporte à vida planetária se correlaciona à nossa tendência irritante de dividir, excluir e ver o outro como diferente, frequentemente de maneiras tão insidiosas que achamos difícil, mesmo doloroso, reconhecer estes processos. Mas, até hoje, um destes processos mais onipresentes, apesar de ainda não reconhecido, é o patriarcado.

A mudança climática é uma questão de gênero

Os desastres naturais resultantes das mudanças climáticas estão aumentando. O número destes desastres entre os anos de 2000 e 2009 triplicou, comparando com os anos de 1980 e 1989, e muitos deles se devem a eventos climáticos. A maioria das vítimas destes desastres são, invariavelmente, mulheres.

Na media, os desastres naturais consistentemente matam mais mulheres do que homens, em alguns casos com uma fatalidade feminina de 90%. De acordo com as Nações Unidas, as mulheres têm um risco de morre em desastres naturais 14 vezes maior do que os homens.

As mulheres também sofrem desproporcionalmente mais as consequências destes desastres, que aumentam o risco de estupros, impedem meninas de irem à escola e assim por diante. Pode haver muitas razões para esta vulnerabilidade aumentada: menos oportunidades econômicas, menos acesso à tecnologias como telefones celulares (o que significa menores chances de receber avisos de emergência), menos liberdade de movimentos devido a questões culturais, etc.

Assim, uma das razões pelas quais as mudanças climáticas afetam desproporcionalmente mais as mulheres é porque elas já são marginalizadas. Isto significa que os impactos das mudanças em termos de clima extremo, escassez de água e quebra de safras impactam mais as mulheres.

A pobreza é uma questão de gênero

Uma das manifestações mais claras do desempoderamento sistêmico das mulheres é a pobreza. Perto de um bilhão de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, definida pelo Banco Mundial como uma renda de US$1,25 por dia.

Por este padrão, a renda anual das 50 pessoas mais ricas do mundo é aproximadamente a mesma que a renda total deste um bilhão de pessoas. Deste um bilhão de pessoas mais pobres 70% são mulheres, de acordo com o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (1995).

Devido aos dados limitados e à insuficiência de pesquisas contínuas, não fica inteiramente claro o quanto esta porcentagem se modificou recentemente. Mas é indiscutível que as mulheres são muito menos privilegiadas economicamente do que os homens nos países menos desenvolvidos.

A verdade é que os níveis de pobreza são muito maiores dos que os estimados convencionalmente. Em seu relatório de 2013 para a secretaria geral da OECD, por exemplo, o economista da Universidade de Gottingen Stephen Klasen descobriu que o padrão de um dólar por dia estava “atingindo os limites de sua relevância e utilidade”.

Isto ocorre em parte devido ao aumento do número de pessoas pobres em países de renda média – nos quais o consumo per capita e os limites nacionais de pobreza se encontram substancialmente acima dos US$1,25 por dia.

Em editorial recente, o economista chefe do Banco Mundial, Kaushik Basu, admitiu que “muitos criticam como sendo chocantemente baixa” a definição de pobreza do Banco. Ainda assim, o Banco não fez nada para corrigir sua definição. Esta omissão permite que ele divulgue que milhões de pessoas que se encontram acima do padrão de US$1,25 tenham escapado da pobreza, ainda que, na realidade, elas permaneçam miseráveis.

Basu também condena a persistência da pobreza como sendo uma “falta coletiva”. Estas parecem palavras fortes, mas obscurecem o fato de que, ao culpar a todos, ele acaba por não culpar ninguém. De fato, esta “falta” pode ser atribuída muito especificamente às próprias políticas firmemente neoliberais do Banco Mundial.

As políticas neoliberais envolveram o corte dos gastos estatais em saúde, educação e outros serviços públicos; a abertura de países para a rápida privatização e investimentos estrangeiros; e, consequentemente, aceleraram os débitos públicos e do governo. A consequência foi, invariavelmente, o retardo do crescimento real, de acordo com um relatório das Nações Unidas e a “redução do progresso para quase todos os indicadores sociais que estão disponíveis para se medir os resultados educacionais e de saúde”.

Valentine Moghadam, chefe de igualdade de gênero na divisão de direitos humanos da UNESCO, argumenta que “a natureza indutora de pobreza presente na reestruturação neoliberal foi especialmente severa contra as mulheres”. É “incontestável que as mulheres estão em uma posição de desvantagem, na qual as mulheres pobres sofrem duplamente pela negação de seus direitos humanos – primeiro devido à desigualdade de gêneros, segundo devido à pobreza”.

De fato, apesar de trabalharem mais do que os homens – sendo responsáveis por 70% das horas trabalhadas no mundo – as mulheres ganham apenas 10% da renda mundial, e aproximadamente metade do que os homens ganham.

A desvantagem econômica das mulheres frequentemente significa que elas são socialmente mais vulneráveis e, assim, mais facilmente sujeitas a condições de trabalho exploradoras e outras formas de violência de gênero. Tudo isto significa que, conforme as mudanças climáticas exacerbam as condições que conduzem à pobreza, são as mulheres que sofrem maior impacto.

Alimentação e água são questões de gênero

Muito longe de serem vítimas passivas, no entanto, as mulheres permanecem crucialmente importantes em relação às possibilidades de mudanças sociais positivas nestas circunstâncias, devido a seu papel crítico na gestão dos recursos naturais.

Como coletoras primárias de combustível e água para suas famílias e cuidadoras primárias em termos do uso de energia para o preparo de comida, cuidados com as crianças e com pessoas doentes, as mulheres estão na linha de frente da manutenção da saúde, prosperidade e bem-estar das comunidades.

Numerosos estudos mostram que as mudanças climáticas levarão ao aumento das enchentes, erosão dos sistemas costeiros, acidificação dos oceanos, destruição de biodiversidade, aumento do nível do mar e mudanças das estações nas próximas décadas. Como consequência, o aquecimento global irá intensificar o estresse aquático e minar sistemas alimentares para bilhões de pessoas, em sua maioria nos países menos desenvolvidos.

Isto significa que as mulheres, que têm um papel tão fundamental na provisão de água e alimentos, serão as mais afetadas pelas crises de água e comida que estão se tornando mais graves devido às mudanças climáticas.

Em geral, as mulheres ganham entre 30 a 80% do que os homens recebem anualmente. Dentre os 743 bilhões de pessoas analfabetas no mundo, dois terços são mulheres. Elas somam por volta de metade da força de trabalho agrícola nos países menos desenvolvidos, mas possuem apenas 10 a 20% das terras. Também são geralmente as mulheres que viajam por longas distâncias todos os dias, frequentemente sozinhas, para buscar água. Ao fazer isto elas também ficam mais vulneráveis a problemas de saúde e ataques.

De modo geral, as mudanças climáticas estão tornando as mulheres mais pobres, erodindo suas oportunidades econômicas, debilitando seu acesso a comida e água e fazendo-as mais vulneráveis à exploração. Isto inevitavelmente corrói a integridade, a coesão e a sustentabilidade de famílias e comunidades.

A violência é uma questão de gênero

Outro dos grandes impactos das mudanças climáticas, logicamente, é sua capacidade de acelerar instabilidades e conflitos enquanto governos, obcecados pelo modo habitual de se fazer negócios, enfrentam desafios crescentes em relação a recursos, com os quais são incapazes de lidar.

Muitos estudos provam uma correlação definitiva entre a aceleração da mudança climática recente e a frequência de conflitos violentos.

Porém, as maiores vítimas dos conflitos são mulheres e crianças, seja em termos do uso sistemático da violência sexual como tática de guerra, seja por serem alvos em ataques indiscriminados a civis. A violência contra as mulheres tende a disparar durante conflitos e distúrbios civis. “Hoje em dia é mais perigoso ser uma mulher do que ser um soldado em um conflito”, disse o Major General Patrick Carnmaert, um antigo comandante das Forças de Paz das Nações Unidas.

Contudo, a mudança climática por si só não exacerba os conflitos. Em 2010, um estudo sobre conflitos na África feito pelo jornal científico Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), apontou que o modo pelo qual a mudança climática impacta a sociedade depende da política, economia e cultura locais.

A principal razão pela qual os países africanos são tão profundamente vulneráveis a distúrbios civis e conflitos violentos, segundo o estudo do PNAS, relaciona-se à extensa ruptura do tecido social ocorrida sob o impacto das reformas capitalistas neoliberais impostas pelo FMI e pelo Banco Mundial, entre outros fatores.

Muito longe do “desenvolvimento”, os esforços para integrar a África aos circuitos das finanças predatórias globais devastaram grandemente suas sociedades, elevando os níveis de mortalidade infantil, aumentando as desigualdades e instalando débitos insustentáveis nos estados regionais.

A reestruturação neoliberal criou uma nova economia de guerra no mundo menos desenvolvido, deslocando comunidades e alimentando antagonismos étnicos e tribais. A ruína social resultante permitiu o ressurgimento de extremistas, conforme as pessoas se fecham em costumes, identidades e mitos em busca de segurança.

Isto, por sua vez e novamente, tende a atingir os mais vulneráveis primeiro, especialmente mulheres e crianças, na forma de crimes culturalmente sancionados, como assassinatos por honra, mutilação genital feminina, casamentos forçados e assim por diante.

Documentos secretos do Banco Mundial que vazaram há alguns anos mostram que as instituições financeiras estão totalmente cientes do imenso impacto desestabilizante da reestruturação neoliberal. Uma consultoria estratégica do Banco para o Equador em 2000, por exemplo, previu corretamente que as reformas propostas iriam disparar “inquietação social”.

Isto era parte de um padrão mais amplo. Como coloca Joseph Stiglitz, que foi economista-chefe do Banco Mundial, o pacote neoliberal de privatização e liberalização leva frequentemente ao que ele chama de “a revolta do FMI”.

O capitalismo global descontrolado está, portanto, aprofundando a pobreza e as rupturas sociais que servem como combustível para o conflito e a desordem que afligem com mais intensidade as mulheres.

O estupro é bom para os negócios

Nesta mistura, o papel do negócio global de armas leves é fundamental. Sarah Masters, coordenadora da rede feminina da Rede Internacional de Ação contra Armas Leves, aponta que sem a proliferação maciça de armas leves o abuso sexual e estupro de mulheres “em uma escala tão grande na maioria dos conflitos mundiais” simplesmente não seria possível.

As armas leves proporcionam não apenas o estupro e outras formas de abuso sexual, mas também sequestros, escravidão e prostituição forçada.

Mas o negócio de armas oferece ricas migalhas para o complexo militar-industrial dominado pelo ocidente. Os maiores exportadores de armas leves do mundo incluem os Estados Unidos, Itália, Alemanha, Austrália, Suiça, Rússia, França, Bélgica e Espanha, entre outros. O faturamento destes negócios totaliza por volta de US$8.5 bilhões anuais.

Esta é uma mera fração do negócio total de armas, que gera para as maiores empresas por volta de US$395 bilhões anuais. As grandes intervenções no Iraque e no Afeganistão aumentaram significantemente os lucros destas empresas.

No geral, as empresas de segurança norte-americanas são responsáveis por aproximadamente 60% de todas as vendas das 100 maiores companhias, com a Lockheed Martin e a Boeing em primeiro e segundo lugares, seguidas pela britânica BAE Systems.

Mas a liberalidade das empresas de segurança tem causado um impacto devastador: este é o círculo vicioso do capitalismo neoliberal. As reformas do Banco Mundial e do FMI desconectam sociedades e aceleram o conflito ao abrirem países a investidores estrangeiros, enquanto as companhias fabricantes de armas se empenham em vender armas para todos os lados. Enquanto isso, estupros e abuso sexual de mulheres se tornam endêmicos.

De países sujeitos à intervenções e ocupações do ocidente, como Iraque, Afeganistão a Palestina, a regiões menos desenvolvidas como a África, a violência contra as mulheres se tornou instalada e endêmica em todas as esferas da vida.

No Iraque sob o regime apoiado pelos Estados Unidos, por exemplo, as mulheres suportam o peso de crescentes violência de gênero, infraestrutura inadequada, exclusão política e pobreza. Mas, contra todas as probabilidades, são as mulheres iraquianas que estão na frente do ativismo por seus direitos, através de organizações da sociedade civil e movimentos sociais.

O que torna tudo pior é que a violência contra as mulheres também é endêmica fora do conflito. A Organização Mundial da Saúde descobriu em 2013 que 35% das mulheres no mundo já experimentaram violência física ou sexual de uma pessoa conhecida ou desconhecida. No mundo, uma em três mulheres que estão ou estiveram em um relacionamento foram alvos de violência sexual ou física por parte de seus próprios parceiros.

Antes de assumirmos que este é um fenômeno predominantemente do “terceiro mundo”, um estudo europeu recente mostrou que uma em cada três mulheres com idade superior a 15 anos na Europa sofreu alguma forma de abuso físico ou sexual. Os números são semelhantes nos Estados Unidos, com uma em cada três mulheres tendo experimentado violência doméstica, e uma em cada cinco, estupro.

O poder é uma questão de gênero

Dada a violência avassaladora e assimétrica perpetrada pelos homens contra as mulheres, não é de se surpreender que as mulheres sejam mundialmente maioria em várias questões-chave no que se refere à saúde mental. A depressão, por exemplo, é duas vezes mais comum entre mulheres do que entre homens.

Em geral, as mulheres parecem sofrer mais de outros distúrbios comuns como ansiedade e “queixas somáticas” – sintomas físicos sem explicação médica. Os homens, por outro lado, são três vezes mais propensos a ter transtorno de personalidade antissocial.

Estudos epidemiológicos feitos em países ocidentais de língua inglesa mostram que este padrão é exacerbado naqueles que lideram o “egoísmo capitalista”. Não apenas as taxas de doença mental atingem índices recordes nestes países em comparação com outros lugares do mundo, mas, novamente, as mulheres sofrem mais.

As mulheres nestes países têm 75% mais chances de experimentar depressão e 60% mais chances de ter um transtorno ansioso do que os homens; enquanto os homens experimentam transtornos relacionados a abuso de substâncias duas vezes e meia mais frequentes do que as mulheres.

De acordo com o psicólogo clínico Daniel Freeman, da Universidade de Oxford, “Há um padrão – mulheres tendem a sofrer mais do que chamamos de problemas ‘internos’, como depressão ou insônia. Elas carregam os problemas consigo, enquanto que os homens têm problemas de externalização, relacionados com o ambiente, como problemas com álcool ou de raiva excessiva”.

Com frequência são as mulheres que ficam na linha de fogo destes problemas de saúde mental caracteristicamente masculinos.

Esta diferenciação por gênero na saúde mental claramente reflete a disparidade fundamental de poder entre homens e mulheres, agravando as questões de etnicidade e classe.

Seja qual for a faceta da crise da civilização que examinemos, as mulheres permanecem em grande maioria como receptoras dos piores impactos.

Isto sugere que o patriarcado é, em si mesmo, uma função de uma moléstia psicológica profundamente instalada e autorreforçadora que, como um câncer, infectou a totalidade da civilização industrial.

Os chamados por uma maior igualdade de gêneros para cuidar disto são necessárias e boas. Mas, na maioria das vezes, eles apontam para iniciativas que, apesar de bem intencionadas, falham com frequência em reconhecer as raízes sistêmicas desta desigualdade nas estruturas econômicas e culturais patriarcais globais – e não apenas locais.

As mulheres são sistematicamente marginalizadas das posições-chave de poder e processos de decisão através de todo o espectro da sociedade, em todos os lugares do mundo, rico ou pobre. Elas são discriminadas, institucionalmente e diretamente, na política, nos empregos, nas artes, nos meios de comunicação e na cultura.

Isto não prejudica apenas as mulheres: sua marginalização econômica custa à economia global trilhões de dólares por ano, causando um golpe maciço na integridade de todas estas estruturas.

Além disso, a vasta maioria dos recursos mundiais são possuídos e controlados por uma minúscula minoria da população mundial, na forma de uma “porta giratória” que envolve o firme entrelaçamento entre corporações, bancos, governos, sistemas de defesa, indústria, mídia e outros setores.

É este grupo, estas 90 corporações transnacionais monolíticas – incluindo as companhias de gás, óleo e carvão mais poderosas do mundo – as responsáveis por dois terços das emissões de gases que causam o efeito estufa.

E quem comanda estas corporações? Na última década, o número de mulheres nos conselhos das corporações norte-americanas permaneceu estático em por volta de 17%. Mesmo nos países que estão melhores neste quesito, o número não é muito maior. Na Suécia e na Finlândia, por exemplo, está por volta de 27%.

Afinal, décadas de diversificação não nos levaram muito longe, com os conselhos corporativos permanecendo 88% brancos e 85% masculinos. Ao olharmos mais de perto para as companhias indicadas ao topo da lista Fortune 500, apenas 4% dos CEOs são mulheres, todas brancas.

Enquanto estas companhias gigantes tentam maximizar seus lucros a qualquer custo humano ou ambiental, elas estão intensificando a exploração de recursos para acelerar investimentos em posse de terras lucrativas para a agricultura, em commodities minerais e em esquemas fraudulentos de compensação de carbono.

Em locais menos desenvolvidos, como na África, conforme afirma um relatório da Oxfam, isto está “tendo um impacto imediato nas opções de uso da terra por mulheres, em suas vidas, na disponibilidade alimentar e nos custos de vida e, por fim, no acesso das mulher à terra para produção de alimentos. Estes são apenas os impactos econômicos. Os conhecimentos femininos, as relações sócio-culturais com a terra e  com a natureza estão também sob ameaça”.

Confrontando a misoginia planetária

A marginalização e a repressão sistemáticas das mulheres não são características acidentais da nossa crise civilizatória. Elas são pilares integrais e fundamentais da injustiça difusa no sistema global. A epidemia global de violência contra as mulheres está inerentemente tecida ao nosso sistema de violência dominado pelos homens contra o mundo natural como um todo.

O estuprador, o abusador, não é diferente do tirano insaciável, escravo de seus apetites sádicos, despreocupado com a dor infligida pelo processo de saciar-se.

Assim como a violência contra a mulher se relaciona ao poder, à autogratificação através da dominância e do controle, ao extremo egoísmo e narcisismo e, por fim, a uma falta de empatia que se aproxima da psicopatologia, da mesma forma acontece a violência sistêmica contra a natureza.

Enquanto promove este saque dos recursos planetários em busca de um crescimento material infinito, o sistema global continua sua guerra assimétrica contra as mulheres, da mesma forma que aniquila espécies, destrói ecossistemas e exaure recursos em nome do lucro e do poder de uma minoria.

A divisão de gêneros não é apenas uma imagem espelhada da desconexão externa da humanidade em relação à natureza: é tanto um sintoma quanto um agente desta desconexão.

Mas não está funcionando. O capitalismo global contemporâneo pode estar fazendo algumas pessoas ficarem ainda mais ricas, mas está tornando mais pessoas mais pobres e infelizes, em um contexto que acelera a incerteza e o conflito. E ao fim deste século nós enfrentaremos a perspectiva, de acordo com o consenso de nossas maiores mentes científicas, de um planeta largamente inabitável, se continuarmos agindo da mesma forma.

O sistema global está falindo, e o assassinato em massa, o abuso e a morte de mulheres pelas mãos dos homens é inerente a esta falência: a misoginia é uma função integral da destruição planetária.

Se quisermos salvar o planeta, o patriarcado precisa morrer. Isto significa reconhecermos e assumirmos a responsabilidade pelo fato de que o patriarcado é integral às estruturas de poder que negligenciamos, tanto no Ocidente quanto no Oriente.

Não há tempo a perder. Se a misoginia vencer, o planeta morre.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s