MOTIM DA ALMA – Charles Eisenstein

Em nossa sociedade, que apresenta tendências medicalizantes tão fortes, é muito comum que certas condições humanas sejam consideradas patologias quando, na verdade, se tratam de modos muito saudáveis de lidar com uma realidade perversa.  Como escreveu o filósofo indiano Jiddu Krishnamurti: “Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade profundamente doente”. 

Original em inglês em http://realitysandwich.com/1535/mutiny_soul/  

A depressão, a ansiedade e a fadiga são partes essenciais e altamente significativas de um processo de metamorfose que está acontecendo no planeta atualmente, pois iluminam a transição de um mundo velho para um novo.

Quando uma fadiga ou depressão crescentes se tornam sérias e recebemos um diagnóstico de Síndrome de Epstein-Barr ou Fadiga Crônica, ou hipotireodismo ou baixa serotonina, nós geralmente sentimos alívio e alarme. Alarme: algo está errado comigo. Alívio: pelo menos eu sei que não estou imaginando coisas, agora eu tenho um diagnóstico, posso ser curado e a vida voltará ao normal. Mas é claro que uma cura para estas condições é ilusória.

A noção de uma cura começa com a pergunta “O que aconteceu de errado?”. Mas há outro modo radicalmente diferente de se encarar a fadiga e a depressão que tem origem na pergunta: “A que este corpo, com sua sabedoria perfeita, está respondendo?” Em que circunstâncias a decisão mais sábia de alguém seria tornar-se incapaz de convocar a energia necessária para participar com totalidade da vida?

A resposta está na nossa frente. Quando nosso corpo-alma está dizendo “Não” para a vida, através da fadiga e da depressão, a primeira coisa a perguntar é “Esta vida que estou vivendo é a melhor para mim neste momento?” Quando o corpo-alma está dizendo “Não” para sua participação no mundo, a primeira coisa a perguntar é “Este mundo, da maneira que se apresenta, merece minha participação integral?”.

E se houvesse algo tão fundamentalmente errado com o mundo, com a vida e os modos de ser que nos são oferecidos que afastar-se seja a única resposta saudável? Um afastamento, seguido de uma reentrada num mundo, numa vida e num modo de ser totalmente diferente do que deixamos para trás?

O objetivo implícito da vida moderna parece ser viver tão longa e confortavelmente quanto possível, minimizando riscos e maximizando a segurança. Vemos esta prioridade no sistema educacional, que tenta nos treinar para sermos “competitivos” para que possamos “nos sustentar”. Vemos no sistema médico, no qual a meta de prolongar a vida ignora qualquer consideração sobre como, às vezes, a vida deve morrer. Vemos em nosso sistema econômico, que assume que todas as pessoas estão motivadas por um “autobenefício racional”, definido em termos de dinheiro, que está associado com segurança e sobrevivência (você já pensou sobre a frase “custo de vida”?). Espera-se que sejamos pessoas práticas, não idealistas; que ponhamos o trabalho antes do prazer. Pergunte a alguma pessoa porque ela permanece num trabalho que odeia e muito frequentemente a resposta será “por causa do plano de saúde”. Em outras palavras, mantemos empregos que fazem com que nos sintamos mortos para garantir a certeza de continuarmos vivos. Quando escolhemos um plano de saúde ao invés da paixão, estamos escolhendo sobreviver ao invés de viver.

Em um nível profundo, que eu chamo de nível da alma, não queremos nada disto. Reconhecemos que estamos aqui na terra para cumprir um propósito sagrado e que a maioria dos empregos oferecidos está abaixo da nossa dignidade como seres humanos. Mas podemos sentir muito medo de deixarmos nossos trabalhos, nossas vidas planejadas, nosso seguro-saúde, ou qualquer outra segurança ou conforto que recebemos em troca de nossos dons divinos. Bem no fundo, nós reconhecemos esta segurança e este conforto como salários de escravidão e ansiamos pela liberdade.

Então, os rebeldes de alma. Com medo de fazer a escolha consciente de nos afastarmos da vida de escravidão, fazemos uma escolha inconsciente. Não podemos mais reunir energias para nos arrastarmos pela vida. Então, atuamos nossa retirada dela através de uma variedade de meios.  Podemos convidar o vírus Epstein-Barr para que entre em nossos corpos, ou mononucleose, ou outro vetor de fadiga crônica. Podemos desligar nossas glândulas tireoide ou adrenais. Podemos diminuir a produção de serotonina no nosso cérebro. Outras pessoas escolhem caminhos diferentes, incinerando o excesso de energia vital nos fogos do vício. De qualquer modo, estamos nos negando a participar. Estamos nos negando a compactuar com um mundo que está errado. Recusamos-nos a contribuir com nossos dons divinos para o engrandecimento deste mundo.

É por isto que a abordagem tradicional de solucionar o problema para que possamos retornar à vida normal não funciona. Ela pode funcionar temporariamente, mas o corpo encontrará outras formas de resistir. Aumente os níveis de serotonina com inibidores seletivos de recaptação de serotonina e o cérebro irá desligar alguns receptores, pensando, em sua sabedoria. “Ei, eu não devo me sentir bem em relação à vida que eu estou vivendo agora!”. No final, há sempre o suicídio, um final comum para os regimes farmacêuticos que visam nos tornar felizes em relação a algo hostil ao nosso próprio propósito, ao nosso próprio ser. Não é possível permanecer vivendo em erro por tanto tempo. Quando a rebelião da alma é suprimida por muito tempo ela pode explodir na forma de uma revolução sangrenta. Significantemente, todas as chacinas em escolas [nos EUA] na última década envolveram pessoas que utilizavam medicação anti-depressiva. Todas elas!

Na década de 1970 os dissidentes da União Soviética com frequência eram hospitalizados em instituições mentais e recebiam drogas similares às usadas para tratar depressão hoje em dia. A razão era que você deveria ser louco para se sentir infeliz na Utopia dos Trabalhadores Socialistas. Quando as pessoas que tratam a depressão recebem status e prestígio do mesmo sistema com o qual seus pacientes estão descontentes será pouco provável que elas afirmem a validade básica da retirada dos pacientes da vida. “O sistema tem que ser perfeito – afinal, ele valida meu status profissional – então o problema deve ser com você”.

Infelizmente, as abordagens “holísticas” não são diferentes se elas negarem a sabedoria da rebelião do corpo. Geralmente elas parecem funcionar quando coincidem com outra mudança pessoal. Quando alguém sai e busca ajuda, ou sofre uma mudança radical, isto funciona como uma comunicação ritual de uma mudança genuína de vida para a mente inconsciente. Os rituais têm o poder de fazer as decisões conscientes reais para o inconsciente. Elas podem fazer parte da retomada do poder pessoal.

Encontrei inúmeras pessoas com grande compassividade e sensibilidade, pessoas que descreveriam a si mesmas como “conscientes” ou “espirituais”, que batalharam contra a depressão, deficiência tireoidiana e assim por diante. São pessoas que chegaram a um ponto de transição no qual se tornaram fisicamente incapazes de continuarem vivendo suas antigas vidas no antigo mundo. Isto porque, na verdade, o mundo apresentado a nós como normal e aceitável é tudo menos isto. Ele é uma monstruosidade. O nosso planeta está em sofrimento. Se você precisa que eu o convença disto, se você não está consciente da destruição das florestas, dos oceanos, dos pântanos, das culturas, do solo, da saúde, da beleza, da dignidade e do espírito que subjaz ao Sistema em que vivemos, então eu não tenho nada a dizer a você. Só falarei com você se você acredita que existe algo profundamente errado com o modo que vivemos neste planeta.

Uma síndrome relacionada abrange vários “déficits de atenção” e “transtornos” de ansiedade (perdão, eu não consigo escrever estas palavras sem as aspas irônicas), que refletem um conhecimento inconsciente de que algo está errado por aqui.  A ansiedade, como todas as emoções, tem uma função apropriada. Imagine que você deixou uma panela no fogo e você sabe que se esqueceu de algo, mas não consegue lembrar-se do quê. Você não consegue se tranquilizar. Algo está incomodando, algo está errado. Subliminarmente, você sente cheiro de fumaça. Surge a obsessão: será que deixei a torneira aberta? Esqueci de pagar a hipoteca? A ansiedade nos mantém alertas, ela não nos deixa descansar; ela mantém nossas mentes agitadas, preocupadas. Isto é bom. Isto é o que salva sua vida. Finalmente, você percebe – a casa pegou fogo! – e a ansiedade se torna pânico e ação.

Então, se você sofre de ansiedade, talvez você não tenha em absoluto um “transtorno” – talvez a casa esteja pegando fogo. A ansiedade é simplesmente a emoção correspondente a “Algo está perigosamente errado e eu não sei o que é”. Somente é um transtorno se, de fato, não existir nada errado. “Não tem nada de errado, só você” é a mensagem de qualquer terapia que tenta consertar você. Eu discordo desta mensagem. O problema não é com você. Você tem razões muito boas para sentir ansiedade. Ela mantém parte da sua atenção longe das suas tarefas de polir a prata enquanto a casa pega fogo, ou tocar violino enquanto o Titanic afunda. Infelizmente, as coisas erradas com as quais você está esbarrando talvez estejam além do conhecimento dos psiquiatras, que vão concluir, então, que o problema deve ser o seu cérebro.

Da mesma forma, o Transtorno de Déficit de Atenção, TDH e meu favorito, o Transtorno Desafiador Opositivo (TODO) apenas são transtornos se acreditarmos que as coisas que demandam nossa atenção realmente a merecem. Não podemos admitir sem questionar o edifício inteiro de nosso sistema escolar que pode ser completamente saudável para um menino de dez anos de idade não ficar sentado imóvel por seis horas em uma classe aprendendo sobre divisões longas e Vasco da Gama. Talvez a atual geração de crianças, que alguns chamam de índigo, simplesmente tenha uma baixa tolerância à exigência escolar de conformidade, obediência, motivação externa, questões certo-errado, quantificação de desempenho, regras e campainhas, boletins e notas e seus registros permanentes. Então tentamos melhorar sua atenção com estimulantes e subjugar sua rebelião intuitiva heroica contra a máquina de esmagar espíritos.

Conforme eu escrevo sobre o equívoco contra o qual todos nós nos rebelamos, posso ouvir alguns leitores perguntando, “Mas, e em relação ao princípio metafísico de que ‘tudo está bem’”? É só relaxar, me dizem, não há nada de errado, é tudo parte do plano divino. Você só vê as coisas erradas por causa da sua perspectiva humana limitada. Tudo isto acontece somente para nosso próprio desenvolvimento. Guerra: ela dá às pessoas oportunidades maravilhosas para fazermos escolhas heroicas e queimarmos o carma ruim. A vida é maravilhosa, Charles, por que você tem que implicar com ela?

Sinto muito, mas na maior parte das vezes esse tipo de argumentação é apenas uma propina para nossa consciência. Se tudo parece bom, é apenas porque, na nossa percepção, tudo está terrivelmente errado. A percepção da iniquidade nos move diretamente para ela.

No entanto, seria uma ignorância infrutífera julgarmos aqueles que não enxergam nada de errado e que, cegos aos fatos da destruição, pensam que tudo está basicamente bem. Existe um processo natural de despertar, no qual nós primeiramente participamos avidamente no mundo, acreditando nele, buscando contribuir para a Ascensão da Humanidade. Depois, encontramos algo que está inegavelmente errado, talvez uma justiça flagrante ou um problema de saúde sério ou uma tragédia próxima. Nossa primeira reação é pensar que este é um problema isolado, remediável com algum esforço, dentro de um sistema que está basicamente em ordem. Mas quando tentamos consertá-lo, descobrimos níveis mais e mais profundos de erro. A podridão se espalha; vemos que nenhuma injustiça, nenhum horror pode resistir em isolamento. Vemos que os dissidentes desaparecidos na América do Sul, as crianças cujo trabalho é explorado no Paquistão, as florestas devastadas da Amazônia, todos estão intimamente conectados em uma tapeçaria grotesca que inclui cada aspecto da vida moderna. Descobrimos que os problemas são muito grandes para serem resolvidos. Recebemos o chamado de viver de um modo inteiramente diferente, começando por nossos valores e prioridades mais fundamentais.

Todos nós passamos por este processo repetidas vezes em várias áreas de nossas vidas; todas as partes do processo são justas e necessárias. A fase de participação total é uma fase de crescimento durante a qual desenvolvemos talentos que serão aplicados de forma bem diferente mais tarde. A fase de tentar consertar, de resistir, de batalhar contra uma vida que não está funcionando é um momento de maturação que desenvolve qualidades de paciência, determinação e força. A fase em que  descobrimos a natureza abrangente do problema geralmente é de desespero, mas não precisa ser. Ela é, apropriadamente, um período de descanso, de silencio, de retirada, de preparação para um impulso, como o de um trabalho de parto. As crises na nossa vidam convergem e nos impelem a uma nova vida, um novo ser que nós mal poderíamos imaginar que existisse; a não ser pelo fato de termos ouvido rumores sobre ele, ecos, e talvez o tenhamos até vislumbrado aqui e ali, agraciados por uma breve antevisão.

Se você se encontra no meio deste processo você não precisa sofrer se cooperar com ele. Eu posso lhe oferecer duas coisas. A primeira é auto-confiança. Confie em seu próprio impulso de retirar-se mesmo que um milhão de mensagens estejam dizendo, “O mundo está ótimo, o que há de errado com você? Siga o programa”. Confie na sua crença inata de que você está aqui na terra para realizar algo magnífico, mesmo que mil desapontamentos tenham dito a você que você é alguém comum. Confie no seu idealismo, enterrado no seu eterno coração de criança, que diz que um mundo muito mais belo é possível. Confie na sua impaciência que diz que “bom o suficiente” não é bom o suficiente. Não rotule sua nobre recusa a participar como preguiça e não a medicalize como doença. Seu corpo heroico simplesmente fez alguns sacrifícios para servir ao seu crescimento.

A segunda coisa que posso oferecer a você é um mapa. A jornada que eu descrevi não é sempre linear, e você pode de vez em quando se perceber revisitando territórios anteriores. Quando você encontrar a vida certa, quando você encontrar a expressão correta de seus talentos, você receberá um sinal inconfundível. Você sentirá animação e vivacidade. Muitas pessoas nos precederam nesta jornada e muitas mais irão seguir-nos nos tempos que virão. Porque o velho mundo está ruindo e as crises que dão início à jornada estão convergindo sobre nós. Logo muitas pessoas seguirão pelos caminhos que abrimos. Cada jornada é única, mas compartilhamos das mesmas dinâmicas básicas que eu descrevi. Passar por ela,  compreendendo a necessidade e a justeza de cada uma de suas fases, nos preparou para partejar as jornadas de outras pessoas. Nossa condição, todos os anos em que a enfrentamos, preparou-nos para isto. Preparou-nos para facilitar a passagem daqueles que seguirão. Tudo pelo que passamos, cada momento de desespero, foi necessário para forjar curadoras e guias a partir de nós. A necessidade é grande. O tempo está chegando.

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