ESPIRITUALIDADE PRÁTICA: REFLEXÕES SOBRE AS BASES ESPIRITUAIS DA COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA – Marshall Rosenberg

Em gratidão e homenagem ao legado do mestre Marshall Rosenberg, que fez sua passagem no último dia 7 de fevereiro, traduzi e compartilho aqui um trecho do livro “Practical Spirituality”, que apresenta uma sessão de perguntas e respostas na qual Marshall fala sobre as bases espirituais da Comunicação Não-Violenta. Este livro me trouxe grandes insights sobre os reais significados de se praticar a CNV e da importância de fazermos isto a partir de um lugar de amorosidade profunda e humanidade compartilhada que caracteriza a verdadeira espiritualidade. Para mim, muitas falas dele ressoam com o pensamento de Martin Buber sobre como só é possível nos encontramos com o Divino, o inefável Tu-Eterno, quando nos abrimos com coragem e entrega para os encontros verdadeiros com os outros seres humanos, numa legítima relação Eu-Tu. A propósito disto, Buber escreveu: “A finalidade da relação é o seu próprio ser, ou seja, o contato com o Tu. Pois, no contato com cada Tu, toca-nos um sopro da vida eterna”. Sou imensamente grata a Marshall Rosenberg porque, através dos estudos e da prática de Comunicação Não-Violenta que tenho feito a partir de seu trabalho, pude, por inúmeras vezes, entrar em contato pleno com a humanidade presente em mim e em todas as pessoas e sentido, assim, o sopro suave e precioso da vida que nunca acaba. 

Marshall Rosenberg
Marshall Rosenberg

P: Como você se conecta com o Divino através da Comunicação Não-Violenta?

R: Eu acredito que é importante que as pessoas vejam que a espiritualidade está na base da Comunicação Não-Violenta e que elas aprendam a mecânica do processo da CNV com isto em mente. É de fato uma prática espiritual que eu estou tentando propor como um modo de vida. Mesmo que nós não mencionemos isto, as pessoas são seduzidas pela prática. Ainda que elas pratiquem a CNV como uma técnica mecânica, elas começam a experimentar coisas entre elas mesmas e outras pessoas que elas não eram capazes de experimentar antes. Então, elas acabam por atingir a espiritualidade do processo. Elas começam a ver que ele é mais que um processo de comunicação, e percebem que, na realidade, é uma tentativa de manifestar nossa espiritualidade. Eu tentei integrar a espiritualidade ao processo da CNV de uma forma que vai de encontro à minha necessidade de não destruir a beleza dele através do pensamento filosófico abstrato.  O tipo de mundo em que eu quero viver requer algumas mudanças sociais bastante significantes, mas as mudanças que eu quero ver acontecerem provavelmente não acontecerão a menos que as pessoas que trabalham para alcança-las manifestarem uma espiritualidade diferente daquela que criou as dificuldades  em que vivemos hoje. Então, nosso treinamento é desenhado para ajudar as pessoas a se certificarem de que a espiritualidade que as guia é de sua própria escolha, e não uma que tenha sido internalizada através da cultura. E que elas continuem criando mudanças sociais a partir desta espiritualidade.

P: O que “Deus” significa para você?

R: Eu preciso pensar em Deus de uma forma que funcione para mim – outras palavras ou modos de olhar para esta beleza, esta força poderosa – e então meu nome para Deus é “Amada Energia Divina”. Por um tempo foi apenas Energia Divina, mas então eu li algo sobre as religiões e poetas orientais e eu adorei a forma pela qual eles têm esta conexão pessoal e amorosa com esta Energia. E descobri que acrescentava à minha vida chamá-la de Amada Energia Divina. Energia é Vida, conexão com a vida.

P: Qual é seu jeito preferido de conhecer a Amada Energia Divina?

R: É como me conecto com os seres humanos. Eu conheço a Amada Energia Divina me conectando com seres humanos de uma forma determinada. Eu não apenas vejo a Energia Divina, eu A saboreio, A sinto e A sou. Me conecto com a Amada Energia Divina quando eu me conecto com outros seres humanos desta forma. Então Deus se torna muito vivo para mim.

P: Quais crenças, ensinamentos ou escritos religiosos tiveram a maior influência sobre você?

R: É difícil para mim dizer quais das várias religiões do planeta tiveram o maior impacto sobre mim. Provavelmente o Budismo foi uma delas. Eu gosto muito do que entendo sobre o que Buda ou as pessoas que o citam dizem. Por exemplo, o Buda deixa muito claro: não se vicie nas suas estratégias, suas exigências ou seus desejos.  Esta é uma parte muito importante de nosso treinamento: não misturar necessidades humanas reais com o modo em que fomos educados para satisfazer a estas necessidades.  Então, tome cuidado para não misturar suas estratégias com suas necessidades. Nós não precisamos de um carro novo, por exemplo. Algumas pessoas podem escolher um carro novo como uma estratégia para satisfazer uma necessidade de segurança  ou paz de espírito, mas precisamos tomar cuidado, porque a sociedade pode enganá-lo, fazendo-nos pensar que é do carro novo que realmente precisamos.  Esta parte de nosso treinamento está bastante em harmonia com os ensinamentos do Buda. Quase todas as religiões e mitologias que eu estudei trazem uma mensagem bastante similar, uma que Joseph Campbell, o mitólogo, resume em alguns de seus trabalhos: nunca faça nada que não seja um jogo. E o que ele quer dizer por jogo é aquilo que contribui com empenho para a vida. Então, não faça nada para evitar punição, não faça nada por recompensas, não faça nada por culpa, vergonha, ou pelos viciosos conceitos de dever e obrigação. O que você fizer será um jogo quando você conseguir ver o que enriquece a vida. Eu tiro esta mensagem não só de minha compreensão sobre os ensinamentos do Buda, mas também do que aprendi sobre o Islã, o Cristianismo e o Judaísmo. Eu acredito que seja uma linguagem natural. Faça aquilo que contribui com a vida.

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3 comentários Adicione o seu

  1. Que ensinamento maravilhoso!Que Deus o tenha na luz para o seu eterno repouso! Seus ensinamentos continuarão a nos dar a direção no cumprimento de nossa missão para um bem possível para tod@s!Grata,

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  2. Talita disse:

    Oi Angelica!!! Vc tem essa entrevista em ingles?

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