SOMBRA, RITUAL E RELACIONAMENTOS NA DÁDIVA – Charles Einsenstein

A economia da dádiva, economia da doação ou ainda cultura da dádiva é uma das propostas mais radicais e inovadoras para a transformação do atual modelo econômico. Baseada em antigas práticas comunitárias e na atribuição de valor através de referências subjetivas e não mais da economia de mercado, busca libertar-nos dos condicionamentos que orientam nossa relação com o dinheiro – um deles sendo a obrigação de reciprocidade direta, além de criar um modelo econômico de abundância e fortalecer laços nas comunidades. Adotar este modelo é uma escolha de vida que tem sido cada vez mais considerada por muitas pessoas. Porém, a transição para ele requer certos cuidados para que seja bem sucedida. Neste ensaio, Charles Eisenstein explora os “motivos sombrios” que podem prejudicar a transição em direção ao modelo da dádiva. 

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 Original em inglês: http://charleseisenstein.net/shadow-ritual-and-relationship-in-the-gift/ Tradução: Angelica Rente, com autorização do autor.

Recentemente uma amiga me fez uma pergunta que eu ouço com frequência: “Como você consegue gerenciar o pagamento pelo seu tempo e seus workshops?”. Com isto, ela também queria dizer “Como eu posso fazer o mesmo de uma forma que funcione na prática e também faça com que eu me sinta bem?”. Eu gostaria de responder a esta questão publicamente, tanto para desconstruir a falsa percepção de que sou algum tipo de ser puro e abnegado que não suja suas mãos com dinheiro, quanto para acalmar aqueles que, invocando meu nome associado a ideias simplistas de que “o presente é viver”, adotam práticas não realistas que estão condenadas a falhar.

A maioria das pessoas que fazem esta pergunta trabalham com cura, arte, música, ou algo que é sagrado para elas. Por várias razões, elas não querem cobrar por seus serviços. Por um motivo: elas não estão fazendo seu trabalho fundamentalmente por dinheiro, e não querem negar seu serviço a quem precisa dele, mas não tem como pagar. Mesmo para aqueles que poderiam pagar, enquadrar o trabalho na categoria tradicional de pagamento por serviço parece diminuir o valor dele. Afinal, qual é o preço correto de algo sagrado? Qualquer quantia é tanto muito quanto pouco.

Muitas destas pessoas também se sentem frustradas com as limitações que o dinheiro impõe sobre o livre exercício de seu trabalho. Elas só querem fazê-lo. Não querem ter que se preocupar com dinheiro.

Por favor, não diagnostique esta situação da seguinte forma: “Ela reluta em cobrar aquilo que seu trabalho vale porque ela se sente sem valor, acredita que seu trabalho é inútil, tem dificuldade para se abrir para receber, está numa mentalidade de escassez, etc, etc…”. Nós, que abraçamos esta questão, já pensamos nisto e, na verdade, certas vezes estas situações são reais. Nós, que fazemos trabalhos não usuais, podemos internalizar a desvalorização implícita que a sociedade atribui a esse tipo de atividade, que quase sempre não se encaixa nas categorias profissionais existentes.  Mais frequentemente, no entanto, a dificuldade não é psicológica, mas sistêmica. Afinal, muitas das pessoas que se sentem atraídas a explorar os modelos de negócios baseados na dádiva são pessoas bem sucedidas no modelo antigo que ficaram desconfortáveis com ele.

A dimensão sistêmica do problema é realçada pelo fato de muitos destes artistas, curadores, permaculturistas, etc, não terem sido bem sucedidos no modelo antigo. Uma interpretação disto é, sinto muito, suas ofertas eram de segunda categoria ou não eram úteis para a sociedade. É por isso que ninguém quer pagar por elas. Pode ser – às vezes, quando o mundo parece rejeitar suas habilidades, isto é um aviso de que está na hora de desenvolvê-las ainda mais, de ser mais sensível àquilo que é realmente necessário, ou de fazer a transição para outra coisa. Precisamos reconhecer, entretanto, que o valor relativo dos serviços depende do contexto dos valores sociais; de segunda categoria pode significar, na verdade: “Não se conforma ao que a sociedade instituiu como valioso”. Se você fizer uma graduação em medicina e se especializar em psiquiatria, você receberá centenas de dólares por hora, porque, de alguma forma, a sociedade decidiu que seu serviço tem mais valor do que o de alguém que passou por anos de treinamento em cura energética ou regeneração do solo. Mas isto não significa que estes serviços sejam menos valiosos, na realidade. Em geral, as vocações que a sociedade mais recompensa são aquelas que contribuem com o mundo como o conhecemos, porque é a partir deste mundo que as instituições que definem o valor das coisas emergiram. Não é de se surpreender que as atividades que contribuem para a máquina devoradora mundana – que engraxam suas engrenagens ou camuflam a sua feiúra – sejam recompensadas por ela, para a qual o sistema monetário é um componente chave.  Portanto, qualquer trabalho que a desafie, que contribua para a cura do planeta e que reclame a soberania sobre nossas vidas, ou que rompa com os sistemas de exploração terá pouca probabilidade de receber altos pagamentos ou de ser valorizado como um serviço profissional. É claro que existem várias exceções para isto, mas elas não são suficientes para acomodar a todos que desejam fazer este tipo de trabalho – há uma escassez sistêmica em um nível profundo.

Assim, o aspirante a trabalhador em áreas não convencionais está no mesmo barco que a pessoa que tem sido bem sucedida no modelo antigo, mas que está procurando por um jeito diferente de atuar. Atribuir simplisticamente as dificuldades que eles enfrentam a suas próprias questões psicológicas negligencia temas sociológicas maiores e ignora aspectos concretos sérios que precisam ser avaliados. Na prática, quais são as alternativas para o modelo de negócios usual de cobrança por serviço ou visando lucro?

Melhor do que descrever estas alternativas, eu gostaria de explicar o paradigma motivacional no qual eles têm origem Se a motivação for parcialmente embasada nos valores do que eu às vezes chamo de velha história, os resultados revelarão inconsistências ocultas que às vezes tomarão a forma de “não está dando certo”.

Conforme eu for descrevendo algumas destas “motivações sombrias”, por favor, não se sinta envergonhado se notar alguma delas operando em você. Elas são apenas uma programação obsoleta que está em toda a parte na cultura dominante. Além disso, eu mesmo só posso descrevê-las porque tenho experiências pessoais com cada uma delas!

Um dos motivos sombrios para oferecer seu trabalho como doação é um desejo de expiação dos crimes que a sociedade comandada pelo dinheiro tem perpetrado sobre os seres humanos e o planeta. Ninguém mais poderá acusar você, ou você não precisará mais acusar-se, de ganância, de aproveitar-se ou explorar os outros. Você se torna alguém que não pode ser culpado.

Infelizmente, a evitação da culpa não é generosidade real; é um tipo de narcisismo que motiva os níveis triviais de ação suficientes apenas para aliviar a culpa pessoal. Além disso, ela expressa um tipo de pensamento de escassez: uma condicionalidade da auto-aceitação. Deixa um sutil odor de hipocrisia e resulta no não funcionamento do modelo da dádiva,  já que o objetivo de absolvição das culpas é mais bem servido por um mártir inocente.

Agora, não estou dizendo que este motivo domina a todos que se sentem atraídos pelas práticas de negócios embasadas na dádiva. É mais uma sombra da qual devemos tomar nota, endêmica na nossa sociedade devido à quase ubiquidade da “luta para ser bom”. Ela oferece alívio ao desconforto causado tanto pela culpa do opressor quanto pelo condicionamento devastador para que vejamos a nós mesmos como fundamentalmente pecadores, egoístas e autocentrados. Se uma prática baseada na dádiva não está “funcionando” pode ser porque esta sombra está presente nos bastidores.

Outra motivação sombria é o desejo de simplesmente lavar as mãos em relação a toda a confusão em relação ao dinheiro, para evitar as questões complicadas e desconfortáveis que surgem quando ele é confrontado. Todos temos familiaridade com o desconforto que emerge quando chega a hora de “falar sobre dinheiro”, todos notamos o quanto o custo de vários eventos e produtos é ocultado até o último momento ou escondido no final da página. Como seria bom se não tivéssemos que lidar nunca com este tipo de coisa! Infelizmente, ao fazer isto nós varremos para debaixo do tapete questões espinhosas que não desaparecerão. O dinheiro pode ser um modo de negociação das relações sociais, de definição de papéis e limites. Ele inclui, de fato, vários dos principais rituais da nossa cultura. Descartá-lo sem oferecer um modo de substituí-lo deixa ambas as partes em um estado de limbo, sem entender como deve ser relação entre elas. Talvez tenha sido por isto que uma amiga, que é médica homeopata, lutou tanto para encontrar clientes enquanto estava atendendo sem cobrar, sem entender porque os pacientes que ela mantinha não eram colaborativos, não a enxergando realmente como uma médica. A situação melhorou quando ela começou a cobrar tarifas profissionais por suas consultas. Por outro lado, o desaparecimento dos meios normais de negociação de papéis e relações pode ser muito fértil, convidando-nos a desconstruirmos e repensarmos estes papéis, mas um meio alternativo precisa surgir. Abandonar os arranjos financeiros convencionais (como um valor fixo por um serviço) não é uma saída para a confusão que pode acontecer nesta negociação; é uma entrada para um novo modelo.

Estas duas sombras emanam do mesmo impulso básico: elevar-se sobre o mundo, desengajar-se da participação plena nele. Assim, alguns associam abstinência de comércio com a espiritualidade e o reino do dinheiro com o mundano. Mas eu nem preciso dizer que estamos envolvendo de uma espiritualidade desencarnada, não mais procurando transcender o mundo, mas sim querendo participar dele de um modo diferente; não mais buscando elevar-nos além do drama humano, mas buscando reescrever nossos papéis. É esta motivação que informará uma transição bem sucedida em direção à cultura da dádiva.

Ao mesmo tempo em que não desprezo o valor de “simplesmente dar de graça”, os resultados desta prática certamente serão desapontadores se ela estiver embasada em qualquer destas motivações sombrias que descrevi. Mesmo que a motivação seja pura, todos os tipos de desigualdades sociais e conflitos pessoais ocultos vêm para a superfície quando as estruturas econômicas existentes são removidas, porque elas codificam a maioria das regras que guiam comportamentos e pensamentos.

O relato de Marie Goodwin sobre a Free Store [n.da t.: um projeto que consiste em uma “loja” de trocas onde  pessoas podem doar objetos e trocar por outros, sem custo algum. Saiba mais em http://www.mediafreestore.com/ em inglês], em Media, Pensilvânia, vem à minha mente. Normalmente, se você tem muito dinheiro, você pode levar para casa o que quiser de uma loja; se você não tem dinheiro, você não pode levar nada, sob a ameaça da lei. O que acontece quando este condicionamento profundo é subitamente removido? O que você faz? Como você limita aquilo que vai levar? Qual é a quantidade correta de coisas que você pode levar se não tiver doado nada? O dinheiro normalmente utiliza uma série de respostas socialmente construídas para responder a estas perguntas. Elas podem não ser as respostas ideais – na verdade, elas constituem um sistema injusto e ecocida – mas são ao menos um referencial, um guia prático e moral. A experiência da Free Store inspira muita reflexão, questionamento e, às vezes, desorientação. Também dispara muitas críticas ferozes daqueles que se sentem ameaçados por seu desprezo às convenções. E expõe feridas sociais que, de outra forma, permaneceriam escondidas; por exemplo, a mulher que vinha diariamente, pegava tudo o que havia de valor e vendia para sustentar o seu vicio em drogas. Este fato convidou os organizadores a terem discussões apaixonadas a respeito. Eles deveriam estabelecer um limite (“você só pode pegar algo se você também doar”) para substituir o antigo limite “você só leva se você pagar”? Eles deveriam resistir a julgar a mulher e suas necessidades?

Estas perguntas exemplificam as questões que surgem quando se altera as regras em relação ao dinheiro. Vamos adicionar mais algumas. O que acontece se você der algo a alguém e esta pessoa não valorizar isto? Você não preferiria dar para alguém que valorizasse? E se ninguém me dá nada, apesar de minha doação generosa? Se não o dinheiro, o que mais pode decidir quem quer ou necessita mais de algo? Nas antigas culturas de doação isto não era um grande problema, porque as necessidades e desejos de todos eram óbvios para toda a comunidade.

Relacionada à função do dinheiro como instrumento de negociação de papéis sociais, está sua função como ferramenta ritual. Ouvi vários curadores e artistas trabalhando com a economia da dádiva reclamando que quando não há preço, as pessoas não valorizam aquilo que recebem. Por esta razão, eu geralmente reluto em oferecer eventos “gratuitos”, porque algumas pessoas não os levam a sério. Elas chegam tarde, marcam outro compromisso para parte do dia e chegam com uma atitude de expectativas baixas. Fazer um pagamento é um ato ritual (envolvendo uma manipulação prescrita de símbolos com a crença de que isto afetará a realidade – isto é um ritual)  que sinaliza à mente subconsciente, “Isto é real, isto tem valor”. Na ausência deste ritual, o workshop normalmente não é tão poderoso quanto poderia ser – a menos que haja algum outro ritual para substituí-lo, alguma outra forma de “pagamento”, num sentido mais amplo.

Como é este “outro ritual”? Algumas vezes ele envolve dinheiro. Por exemplo, podemos ter um processo antecipado de inscrição no qual as pessoas fazem um pequeno depósito, ao qual elas podem acrescentar ou subtrair no dia do evento. Ou podemos vender ingressos no estilo “pague quanto puder” (o que pode ser zero) para uma palestra. Eu tentei várias coisas e não posso dizer que não há problemas com todas elas; são explorações do que é, para a maioria de nós, território novo.

Também estou interessado em explorar rituais de pagamento que não envolvam dar dinheiro para mim, ou que não envolvam dinheiro de forma alguma. Preencher um formulário de inscrição complicado, conseguir algum objeto da natureza, fazer um serviço, correr um risco emocional, todos estes podem ser modos de construir rituais de ingresso a um espaço de grandes expectativas.

Eu sempre me arrepio quando alguém escreve para mim dizendo “Graças às suas ideias sobre economia da dádiva, Charles, eu parei de cobrar por minhas sessões de cura e me abri para a abundância do universo”. Arrepio-me primeiramente porque esta pessoa provavelmente terá que enfrentar muitas dificuldades (pelas quais ela poderá me culpar), e depois porque esta não é uma fórmula que eu defendo. Devo acrescentar que não é algo que eu não defenda também. Para algumas pessoas, especialmente aquelas que estão livres dos motivos sombrios citados anteriormente, este pode ser um passo perfeito. Recebo muitas histórias de pessoas que fizeram isto – doaram todo o seu dinheiro, pediram demissão de seus empregos remunerados, etc – e passaram a experimentar vidas que são muito mais ricas em todos os aspectos mais importantes. Por vezes elas acabam até com mais dinheiro vindo de fontes inimaginadas. Mas isto não é um resultado garantido. De fato, quando se usa a dádiva como uma maneira de se obter retorno da parte de outras pessoas ou do universo, não é generosidade verdadeira, e os resultados tendem a refletir isto.

O que ofereço aqui não é de maneira alguma uma fórmula, é uma orientação: compreender que doar é um propósito profundo na vida e trabalho das pessoas e contribuir com algo belo para você. Os meios, as estratégias, os modelos, todos fluem daí, assim como as retribuições. Para a minha amiga médica, cobrar o tradicional valor por consulta foi um alinhamento em sua doação. O princípio de navegação não é realmente um princípio, nem uma ética; é seguir o que sentimos como generoso, correto e vivo.

Sintonizar-se a este sentimento não é algo trivial, porque nossa programação cultural o obscurece e distorce até quase o ponto dele se tornar irreconhecível. Não são apenas as motivações sombrias; nossa própria linguagem nos afasta dele. Considere o questionamento original de minha amiga, que usou as palavras “pagar por seu tempo”. Há várias afirmações tóxicas implícitas aqui: (1) Que qualquer quantia em dinheiro possa ser equivalente em valor ao tempo; que o infinitamente precioso possa ser reduzido a uma soma finita; (2) Que eu preferiria usar meu tempo fazendo outra coisa; desta forma, eu preciso ser recompensado por passá-lo com vocês; e, relacionado a isto, (3) Que trabalho é algo fundamentalmente condenável, contrário ao prazer e ao lazer.  Esta minúscula frase revela uma oposição profundamente estabelecida em nossa visão de mundo, refletindo uma narrativa sobre seres separados cujo estado natural é a competição.

Viver realmente na dádiva requer que nos sustentemos em uma história diferente. É claro que, em certa medida, a história da Separação está infiltrada em nossa linguagem tão integralmente que é impossível escapar dela, mas podemos com frequência usar outras palavras para manifestar uma postura diferente. Eu evito palavras como “compensação” por este motivo; por outro lado, se existe uma taxa, vamos chamá-la de taxa, e evitar recorrermos a eufemismos que ocorrem quando estamos tentando evitar a verdade pura e simples.

O ponto crucial não são as palavras que usamos, é o pensamento de onde elas se originam, a história que nos sustenta. Quanto mais nos sustentamos na história da Dádiva, mais motivados ficamos a alinhar nossas ações a ela, e fica mais claro quando estas estão ou não em alinhamento. Então, segue-se uma longa navegação através dos riscos sociais e psicológicos, das feridas e conflitos escondidos que emergem quando o condicionamento em relação ao dinheiro é rompido e nossas relações econômicas se reconfiguram. Quando isto acontece, um novo mundo surge, nos alimentando nesta jornada, conforme testemunhamos mais e mais generosidade, mais e mais gratidão para conosco e para o nosso entorno. É este, afinal, o território que tenho visto na minha hesitante jornada em direção à dádiva.

 

 

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