DO QUE PRECISAMOS PARA CURAR A APATIA NA NOSSA SOCIEDADE? – Tim Hjersted

Os desafios que estamos enfrentando em relação ao nosso futuro como humanidade e ao futuro do planeta podem nos parecer tão imensos e assustadores que nos paralisam. Podemos sentir que o impacto das nossas ações é tão pequeno que não fará diferença alguma e, por isso, nos tornarmos apáticos e descrentes. Neste texto, Tim Hjersted conta como podemos superar estas crenças e agirmos com entusiasmo e esperança de que podemos, sim, ser a transformação que queremos.

Original em inglês:http://www.filmsforaction.org/articles/whats_it_going_to_take_to_heal_the_apathy_in_our_society/ 

A partir do desenvolvimento da conscientização sobre os problemas ecológicos, econômicos e sociais que se acumulam, vemos o crescimento de várias correntes de pensamento que buscam respondê-los.

Por um lado, mais pessoas estão despertando. Elas estão se envolvendo e estão dizendo: “Nem mais um dia! Meu limite é aqui”. Seu desejo de mudar o mundo está passando de um simples pensamento mágico nas manhãs de segunda-feira para a ação tangível. Os pensamentos que elas costumavam ter apenas ocasionalmente sobre a sua relação com o resto do mundo agora ocorrem a elas durante todo o tempo.

Elas estão começando a ver o ativismo não como algo que é feito apenas em encontros sem fins lucrativos e em protestos, mas como um meio de vida, estão vendo que ele representa nada menos do que nossa escolha pessoal, espiritual, de optar pela determinação e não pela frustração; pela compaixão, e não pela apatia. Fundamentalmente, de alguma forma trata-se de optar por rejeitar a tendência pós-moderna em direção ao narcisismo presente em nossa cultura. Trata-se de rejeitar a moderna filosofia consumista que diz que a verdadeira felicidade e alegria se originam na acumulação de bens materiais e de buscar pelos desejos e necessidades. Trata-se de descobrir que a alegria que vem de nos conectarmos com a nossa relação com o planeta anula por completo o velho modo de procurar contentamento.

Estas pessoas estão percebendo que nós, humanos, somos animais sociais; nós ansiamos por conexão e comunidade; ansiamos por uma identidade ampla e inclusiva que nos conecte com toda a humanidade – não apenas com nossos amigos e famílias, não apenas com nossas cidades, nossos países, nossa espécie – mas com todas as criaturas vivas da Terra – plantas, animais e humanos.

É uma nova filosofia, ou talvez uma filosofia muito, muito antiga, que enxerga todos neste planeta como uma só família – que tudo está interconectado, que a humanidade inteira e a vida em todos os seres residem em cada um de nossos corações, e que nós residimos nos corações de todos. Não existe “Eu” e “eles”. Verdadeiramente, honestamente.

A felicidade do outro é a minha felicidade. O sofrimento do outro é o meu sofrimento.

Não há separação. Para milhões e milhões de pessoas ao redor do planeta, os problemas do mundo são seus problemas; a felicidade que elas encontram quando coletivamente pensamos em um mundo mais justo, compassível e sustentável é a sua felicidade. E esta é a felicidade mais profunda e significativa que alguém poderia experimentar.

Não se pode comprar este tipo de felicidade em uma loja. Não se pode encontrá-la ao vencer o último nível de um vídeo game. Ela não se encontra no final de um cachimbo ou no fundo de uma garrafa. Ela não vem ao assistirmos esportes, nem de como nos vestimos ou do tipo de carro que dirigimos. Ela não chega através da conquista de um diploma ou de um aumento de salário.

Ela vem diretamente da percepção final e profunda de que, na verdade, não há “eu mesmo” e não há “outro”. Estamos interconectados com tudo. Nós somos o todo.

Parafraseando Shunryu Suzuki:

Se o mundo não existir, eu não posso existir.

Se eu não existo, então nada existe.

Cientificamente, a ideia da inter-relação é verdadeira, mas nossa cultura faz com que seja difícil apreciá-la. Porém, é ela que Martin Luther King enxergava, assim como Gandhi. É ela que cada pessoa que trabalha para mudar o mundo experimenta de alguma forma – não em palavras, mas em convicção.

Através desta percepção, como quer que a descrevamos (e ela tem sido descrita de centenas de formas), que deu a cada pessoa inspiradora de nossa história a força pessoal e espiritual que as permitiu enfrentar as probabilidades mais impossíveis e serem bem sucedidas.

Citando um documentário a que assisti recentemente, é isto que “Martin Luther King chamava de ‘Amor em Ação” e Gandhi de ‘Força da Alma’, o que Velcrow Ripper está chamando de ‘Luz Feroz’”.

É o que está fazendo com que eu dedique a minha vida a melhorar o mundo. É a razão de eu não mais me sentir como se não tivesse escolha. Não importa se é impossível. Não importa se todos ao meu redor dizem que é inútil. Tenho que fazê-lo, porque minha natureza mais essencial quer que eu o faça.

Eu não tenho certeza de quando aconteceu. Não estou certo de como aconteceu mas, em certo ponto, ler mais e mais notícias sobre como o mundo está desmoronando, assistir a mais documentários sobre quão urgente e terrível nossa situação se tornou não faz mais com que eu me aliene. Eu assisti a mais de 150 documentários até agora, absorvendo uma quantidade desumana de informação “depressiva” e não me desanimei.  Antes eu me sentia exausto, por várias vezes, na verdade. E ao longo do tempo eu passei a ver que se nós não sabemos como absorver estas informações nós seremos, sem dúvida alguma, esmagados por elas. Eu vi isto acontecer com muitos de meus amigos. Eles simplesmente se desligam, não porque não se importam, mas porque há muito com que se importar e nós simplesmente não sabemos como lidar com isto.

Em uma época em que recebemos mais informação de uma edição do New York Times do que um homem do Renascimento receberia em toda sua vida, é muito fácil nos sentirmos assoberbados pelo bombardeio de estímulos,  pelo bombardeio de causas e problemas que nos imploram por cuidado e ajuda.

Este é um problema exclusivo de nossa geração (e eu sou obrigado a rir ao colocar mais um problema no topo da lista). Mas, francamente, se não descobrirmos a solução para ele estaremos todos encrencados.

Encontrar maneiras de transformar a apatia em ação é um dos problemas mais importantes e incômodos em que podemos pensar.

Isto porque, como mencionei no início, há muitas maneiras das pessoas responderem aos nossos problemas sociais e ambientais que se acumulam, e dentre todas as pessoas que estão despertando e se envolvendo, há muitas que responderam desligando-se deles. Houve um curto-circuito no centro de empatia em seus cérebros: muitas imagens de bebês focas sufocados em óleo, muitas imagens de crianças famintas de outros países, muita corrupção política em  Washington, muitos exemplos da mídia falhando em realizar o seu trabalho, muitas instituições enraizadas e interconectadas devotadas a sustentar o status quo. Pela lógica, eles podem dizer bastante justificadamente que tentar mudar algo é inútil. E parece que o lado lógico de seus cérebros venceu e calou a voz de seus corações. Ou talvez, não.

Mas, em ambos os casos, eles desistiram antes mesmo de começar. Eles aceitaram que o mundo está girando fora de controle e se resignaram a provar o restinho do bolo da festa que sobrou antes de irem embora. É provável que exista uma raiva reprimida profundamente assentada na maioria dos jovens de hoje, uma raiva por simplesmente terem nascido dentro destes problemas – que já estavam fora de controle antes mesmo deles nascerem.

E pelo que parece, o mundo que eles irão herdar já foi desperdiçado. A geração de nossos pais cresceu em uma época de prosperidade sem precedentes, a  era do petróleo barato – um paradigma centenário que alimentou toda a riqueza de que desfrutamos até hoje. Mas os jovens estão percebendo que o século 21 será um século de declínio – declínio dos suprimentos de energia barata, água fresca, solo fértil e ar puro; declínio da claridade mental em um mundo saturado pelo ruído comercial; declínio da segurança em uma era de mudanças climáticas e guerras crescentes por recursos. Os jovens de hoje que não se sentem incrivelmente irritados respondem a essa situação se tornando incrivelmente desapontados – o que deu origem ao tipo de narcisismo filosófico e distância irônica tão bem encarnados nos modernos “hipsters”.

Logicamente, bilhões de pessoas no mundo nunca tiveram uma amostra da festa da qual nós, no Ocidente afluente, participamos até agora. Você pode imaginar a raiva que alguém sentiria ao pensar que tão poucos no Ocidente tiveram tanto, ao passo que o resto do mundo jamais se beneficiará antes que ele acabe?

Precisamos escutar esta raiva, não lutar contra ela, mas escutá-la. Muitas pessoas em nossa sociedade são apáticas em relação às mudanças políticas e sociais. Como podemos mudar isso? Qual é o segredo para transformar apatia em determinação?

Quero dizer: o que falar a alguém que diz “não vale a pena”?

Como eu disse antes, muitas vezes me senti esgotado e deprimido por nossa situação, mas a cada vez uma faísca se acendia e meu entusiasmo se regenerava. Agora, já faz um tempo que não me sinto exausto. Algo aconteceu que tornou o “pessimismo realista” algo completamente inaceitável para mim.

Hoje me sinto deprimido quando jogo vídeo games ou vou a festas demais, e me sinto mais vivo do que nunca quando estou “trabalhando” em projetos ativistas. Eu nem sinto mais que tenho uma escolha. Faço isso porque simplesmente não há nada mais que eu possa fazer. Qualquer coisa a menos faz com que eu me sinta como se estivesse negando a realidade. Sei que um mundo de incríveis potencial e beleza existe, e eu simplesmente preciso trabalhar para encontrá-lo.

Esta é a conclusão mas, como acontece com várias convicções fundamentais que acumulamos durante a vida, não posso lembrar como cheguei até ela. Sei que milhões de pessoas no mundo todo chegaram à mesma conclusão. Sei que muitos de meus amigos chegaram a ela. Eles se sentiam cansados em relação ao estado do mundo, e então algo aconteceu a eles e, subitamente, sua velha visão de mundo se tornou completamente inaceitável. Uma faísca se acendeu dentro deles, uma paixão de engajar-se no mundo ao invés de isolar-se dele.  E o mais bonito é que, seja a faísca que for, ela é auto-sustentável. É a fornalha que queima em você durante o resto da sua vida, e quanto mais você a usa, mais você a tem.

Então eu gostaria de perguntar a cada um que está lendo isso: qual foi a faísca que acendeu o seu fogo? Se você se sentiu esgotado alguma vez, mas encontrou seu caminho para sair deste estado, qual foi o catalisador? O que dá a você energia para se preocupar não só intelectualmente, mas também em ação?

Eu adoraria ouvir histórias a respeito. Porque se pudermos desvendar o segredo, então eu acredito que poderemos encontrar a chave para navegar este tsunami de problemas crescentes, como um surfista surfa uma onda. Podemos nos engajar na realidade do mundo sem nos afogarmos nela.

A partir disso, acredito que podemos descobrir uma filosofia sobre como viver nossas curtas vidas neste planeta com paixão e vigor, com determinação indomável. E então, outro mundo completamente novo se tornará possível.

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