OS TRÊS ELEMENTOS DE MUDANÇA SOCIAL MASSIVA (QUE REALMENTE FUNCIONAM) – Georg Tarne

Muitos de nós querem mudar o mundo e alguns estão efetivamente tomando ações para que isto aconteça o mais rápido possível. Mas será que as estratégias que estamos usando para buscar a transformação que desejamos são realmente eficazes? Neste artigo, Georg Tarne compartilha algumas de suas descobertas a este respeito.

Foto: h.koppdelaney no Flickr
Foto: h.koppdelaney no Flickr

Original em inglês: https://medium.com/@georgtarne/the-3-elements-of-massive-social-change-that-actually-work-9d484eef10f1 Tradução: Angelica Rente

Como novas pesquisas estão elevando a arte de mudar o mundo a uma ciência

Então você quer fazer algo significativo na sua vida.

Você já pensou em todas as diferentes maneiras pelas quais você poderia salvar o mundo. Tornar-se um advogado dos desprivilegiados. Começar seu próprio partido político. Desenvolver uma tecnologia que ajude a limpar o oceano.

Mas e se eu disser a você que novas pesquisas descobriram que estas estratégias não funcionam? Que, de fato, muito do que achamos que sabemos sobre mudar o mundo está errado?

Dois anos atrás, quando eu tinha 23, comecei um negócio social junto com um bom amigo. As contas deste negócio social se equilibraram após 15 meses, ele emprega seis pessoas no momento, economizou toneladas de CO2, milhares de garrafas plásticas e dará a milhares de pessoas acesso a água potável (já deu a algumas centenas por até agora).

Então, quando eu ouço a respeito de novas pesquisas referentes ao que funciona e o que não funciona em relação à Mudança Social, eu naturalmente ouço.

E há alguns anos eu ouvi a respeito do trabalho de Scott Sherman.

Scott é um pesquisador estadunidense que, para obter seu título de PhD, pesquisou centenas de iniciativas de mudança social, analisou suas ações e estratégias, colocou os resultados em uma fórmula enorme e calculou quais fatores contribuíram para a mudança, e quais não.

Surpreendentemente, ele descobriu que nem as estratégias baseadas na lei, nem as baseadas na política ou na ciência funcionam.

A mudança social efetiva, ele diz, precisa só de três elementos.

Se você tem lido meu blog e imaginando qual a relação entre toda essa coisa de relacionamentos tem a ver com mudança social no mundo real – aqui está a resposta.

  • Expor a injustiça

Para facilitar a mudança, você primeiro precisa que as pessoas percebam que ela é necessária. As pessoas que não são afetadas por um problema ou estão no lado privilegiado dele não veem razões para mudar. Há muitas estratégias para fazê-las conscientes – às vezes, dolorosamente – deles. Protestos, manifestações, campanhas de divulgação, são todas armas bem conhecidas no arsenal das organizações não-governamentais.

É nisto que os movimentos de mudança social são realmente bons.

A parte difícil é traduzir esta conscientização para uma mudança efetiva no mundo real.

Este é um problema familiar: os protestos se esvaziam, porque as pessoas no poder têm recursos para esperar que isto aconteça – e os protestantes não têm os recursos pra mantê-los tempo o suficiente.

Se você não integrar os elementos 2 e 3 você estará essencialmente perdendo o seu tempo.

  • Aikidô social

Aikidô é uma arte marcial na qual você não tenta contra-atacar ou superar a força da pessoa oponente, mas sim utilizar a própria força dela e redirecioná-la – buscando defender-se, sem machucá-la.

Aikidô social refere-se a deixar de ver a “oposição” como inimiga e, ao invés disso, buscar unir-se a ela contra um problema em comum.

Por que isso é tão importante?

Porque não importa se é numa amizade, na relação de vizinhança ou na relação entre países: se você só disser “eu odeio isso”, mas não disser “Como podemos trabalhar em conjunto para que VOCÊ possa conseguir o que precisa de uma maneira que NÓS também consigamos o que precisamos?”, você não conseguirá muito.

(E apenas a favor da clareza: ter respeito pelas necessidades da outra pessoa não significa aceitar as suas estratégias. Sim, eu entendo que você está magoada e que quer ser ouvida e respeitada. Mas eu ainda vou usar minha força para impedi-la de bater em quem quer que seja, enquanto nós tentamos descobrir um jeito de fazer a sua necessidade de ser ouvida e respeitada ser satisfeita).

Como isto funciona no mundo real?

Aqui está um exemplo concreto de um dos verdadeiros mestres do aikido social, Marshall Rosenberg.

Ele fundou uma escola alternativa nos EUA que operava nas bases da Comunicação Não-Violenta, abordagem na qual ele foi pioneiro.

A escola era muito bem sucedida, tanto em termos acadêmicos quanto na cooperação e na atmosfera aconchegante – praticamente não existia bullying. Mas ela estava para ser fechada pelas autoridades.

Eis o que ele fez:

[Havia] um projeto de mudança social em Illinois. Ele envolvia uma escola pública que nós criamos, mas nós queríamos ampliar desta escola para todo o sistema […] Era muito difícil manter esta escola funcionando, mas depois de muita resistência, finalmente conseguimos um financiamento federal que nos permitiu começar a escola.

No entanto, na eleição do conselho escolar que aconteceu logo depois que a escola foi criada, quatro membros foram eleitos a partir de uma plataforma que visava livrar-se do superintendente e da escola. Isto aconteceu apesar dela escola tenha tido sucesso. Ela havia ganhado um prêmio nacional de excelência educacional. O desempenho acadêmico aumentou  e o vandalismo diminuiu.

Pudemos ver que, para este projeto escolar sobrevivesse, nós precisaríamos nos comunicar com as pessoas que se opunham veementemente ao que estávamos fazendo. Não foi fácil conseguir uma reunião de três horas com o conselho escolar. Demorou dez meses para marcarmos esta reunião. Eles não atendiam minhas ligações telefônicas, nas respondiam minhas cartas, então eu fui até o escritório uma vez, mas eles não me receberam.

Durante estes dez meses nós tivemos que encontrar alguém que tivesse acesso a eles, e treinar esta pessoa em nossas habilidades, para que ela pudesse tentar conseguir marcar uma reunião. Ela finalmente conseguiu que eles marcassem uma reunião com o superintendente da escola e comigo, mas eles tinham condições. Não queriam que a imprensa soubesse porque seria embaraçoso para eles serem vistos conversando com as pessoas das quais eles foram eleitos para se livrarem.

Como a Comunicação Não-Violenta me ajudou nesta situação? Primeiramente, eu sabia que tinha fazer algum trabalho em mim mesmo antes desta reunião, porque eu tinha uma imagem deste conselho como inimigo. Eu tinha problemas para imaginá-los como seres humanos. Eu tinha muita dor dentro de mim por causa das coisas que eles tinham dito a meu respeito.

Por exemplo, um dos membros do conselho era proprietário do jornal local. Eu havia lido um artigo que ele escreveu sobre mim no qual ele dizia: “Vocês sabiam que nosso ‘amado’ superintendente (ele colocou amado entre aspas porque todos sabiam que ele odiava o superintendente) trouxe este judeu novamente para fazer lavagem cerebral nos nossos  professores, para que eles possam fazer lavagem cerebral nos nossos alunos?”

 [Então] eu me reuni com meus colegas neste projeto na noite anterior à reunião e disse a eles, “vai ser difícil para mim ver este homem (o dono do jornal) como um ser humano amanhã, quando chegarmos lá. Tenho tanta raiva dentro de mim que preciso fazer algum trabalho em mim mesmo”

Minha equipe ouviu empaticamente o que estava acontecendo em mim. Eu tive esta oportunidade maravilhosa de expressar a minha dor e ser compreendido. Eles puderam ouvir a minha raiva – e então, atrás da raiva, meu medo em relação à minha desesperança de que nós pudéssemos conseguir com que estas pessoas se conectassem conosco de um modo que fosse bom para todos.

Demorou três horas, na noite anterior à reunião, para fazer todo este trabalho, porque eu sentia uma dor profunda e muito desespero. Durante parte do tempo eu disse, “Aqueles de vocês que o viram comunicando-se, nós podemos fazer um pouco de role-playing? Quero tentar ver a humanidade dele através da forma que ele fala normalmente”.

Eu nunca havia visto o homem, mas eles haviam, e me mostraram como ele se comunicava. Eu trabalhei duro na noite anterior para ver a humanidade dele, para que eu não o visse como inimigo. Eu estava contente por termos feito isto na véspera, porque no dia seguinte, enquanto estávamos indo para a reunião, ele e eu atravessamos a porta ao mesmo tempo. A primeira coisa que ele me disse foi: “É uma perda de tempo. Se você e o superintendente da escola quisessem mesmo ajudar esta comunidade, vocês iriam embora”.

Minha primeira reação foi querer agarrar ele e dizer: “Olha, você disse que nós teríamos uma reunião e… “. Respirei fundo. Graças pelo trabalho com o desespero na noite anterior eu pude ter um controle melhor sobre meus sentimentos e tentei me conectar com a humanidade dele. Eu disse: “parece que você está se sentindo um tanto sem esperança de que algo bom possa sair desta reunião”.

Ele pareceu um pouco surpreso que eu tentasse ouvir seus sentimentos. Ele disse: “É verdade. O projeto que você e o superintendente estão fazendo é destrutivo para esta comunidade. A filosofia permissiva de deixar as crianças fazerem o que quiserem é ridícula”.

Novamente, respirei fundo, porque eu estava frustrado por ele enxergar como permissividade. Isto me mostrou que nós não havíamos deixado o nosso projeto claro. Se ele o tivesse visto, ele saberia que nós tínhamos regras, regulamentos. Eles não eram baseados na punição e administrados por autoridades; eles eram criados em conjunto com a comunidade de  professores e alunos.

Eu quis me adiantar e ficar na defensiva, mas respirei profundamente de novo e (graças ao trabalho da noite anterior) pude ver a humanidade nele. Então eu disse: “Então, parece que você gostaria de algum reconhecimento sobre a importância de existir ordem nas escolas”.

Ele me olhou de um jeito estranho novamente, e então disse: “É verdade. Vocês são ameaças. Nós tínhamos ótimas escolas nesta comunidade antes que você e seu superintendente chegassem”.

De novo a minha primeira reação foi relembrá-lo da violência que havia nas escolas e de como os resultados acadêmicos eram baixos. Mas respirei fundo uma vez mais e disse: “Então, parece que há muitas coisas em relação às escolas que você quer apoiar e proteger”.

A reunião correu bastante bem. Ele estava falando de uma forma que tornaria bem fácil para mim refletir como a imagem do inimigo, mas depois de continuar ouvindo o que estava vivo nele e respeitosamente tentar me conectar com suas necessidades, pude ver que ele ficou mais capaz de se abrir e entender sobre o que estávamos falando. Deixei esta reunião me sentindo bastante encorajado.

Voltei para meu quarto no hotel me sentindo realmente bem. O telefone tocou. Era o tal homem, e ele disse: “Sabe, me desculpe por dizer algumas coisas sobre você no passado. Eu acho que eu não entendi o seu programa. Eu quero ouvir mais sobre como você chegou nele e de onde você tirou as ideias”. E assim por diante.

Então, conversamos como irmãos por quarenta minutos no telefone. Eu o inundei de respostas às suas perguntas e do meu entusiasmo com a escola.

Na reunião do conselho seguinte ele votou a favor do nosso programa, mesmo que ele tivesse sido eleito para livrar-se dele.

Trecho do livro “Speak peace in a world of conflict”.

Este superpoder de comunicação é o que falta em muitas iniciativas de mudança social – o seu “ponto cego”. Elas perdem tempo sustentando a imagem do inimigo e brigando, quando poderiam seguir em frente e transformar as vidas e atitudes das pessoas.

O aikido social não é fácil. Demorou dez meses para Marshall Rosenberg, o cara que em apenas uma hora resolveu o conflito de duas tribos em guerra na Nigéria, só para conseguir esta reunião. Mas é possível, e uma vez que você estiver engajado e tiver a empatia e as habilidades de resolução de conflitos necessárias, a mágica acontece.

  • Construir alternativas

O terceiro elemento é a conclusão lógica de se expor a injustiça e praticar o aikido social: você começa a colaborar para construir uma nova solução que faz com que as soluções existentes empalideçam em comparação com ela.

Como Buckminster Fuller disse: “Você nunca mudará as coisas lutando contra a realidade existente. Para mudar algo, construa um novo modelo que tornará o modelo existente obsoleto”.

Isto funciona muito bem quando você criou conexão com seu aikido social – se torna bem mais árduo se você não fez isto.

Além disso, se você está criando um sistema alternativo – como uma ecovila – estas habilidades de resolução de conflitos se tornam bastante úteis. De outra forma, você estará, sem saber, reconstruindo todos os sistemas de dominação dos quais você quis escapar em primeiro lugar, como visto em muitas das comunas nos anos 1960 e 1970. É por isto que muitas ecovilas que eu conheço se focam especialmente nestas  habilidades de relacionamento.

Você pode praticar todos estes elementos individualmente.

Você pode apenas “despertar consciência”.

Você pode anfitriar “mesas redondas” que não levam a nada, porque você não terá as habilidades para conectar-se aos seres humanos que não se comunicam da mesma forma que você.

Ou você pode fugir da sociedade e construir seu pequeno paraíso particular.

Mas você também pode aprender as habilidades necessárias para praticar o aikido social, colocar todos estes três elementos no caldeirão, mexer, e ver mudanças incríveis acontecendo em frente aos seus olhos.

Então, o que você está esperando?

 

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