A VIOLÊNCIA SÓ FARÁ PREJUDICAR A RESISTÊNCIA AO REGIME DE TRUMP – Erica Chenoweth

Segundo Erica Chenoweth, a história mostra que a desobediência civil e os protestos massivos são mais efetivos a longo prazo do que as táticas black-bloc

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Josh Edelson/ Getty Images

Original em inglês: https://newrepublic.com/article/140474/violence-will-hurt-trump-resistance. Tradução: Angelica Rente

Na semana da posse do presidente Donald Trump, milhares de estadunidenses usaram a desobediência civil para causar distúrbios em eventos. Uma festa LGBTQ ferveu do lado de fora da casa de Mike Pence [atual vice-presidente dos EUA]. Os Veteranos do Iraque contra a Guerra ocuparam o gabinete de John McCain, em protesto à nomeação de Rex Tillerson [para Secretário do Estado]. No dia da posse, ativistas do movimento Black Lives Matter bloquearam pontos de checagem de segurança. Ativistas do movimento Democracy Spring interromperam a cerimonia de juramento. A organização feminista Code Pink fez uma multidão colorida marchar ao redor do National Mall. Uma idosa de origem asiática mostrou o dedo do meio em “saudação”. No dia depois da posse, milhões de pessoas participaram da Marcha das Mulheres em Washington. Centenas de milhares têm permanecido ativas em protestos pró-imigração e outras manifestações a partir de então.

Ao mesmo tempo, há um ressurgimento das táticas “black-bloc”: manifestantes que incitam a destruição de propriedades e as brigas de rua. Na semana da vitória de Trump, a Polícia de Portland, no Oregon, atirou balas de borracha contra manifestantes pacíficos após as provocações de black-blocs. As mais de 230 pessoas detidas na Capital no final de semana da posse – a maioria delas associadas com ações black-blocs, que resultaram em uma limusine queimada e vitrines vandalizadas – desviaram a cobertura da imprensa das milhares de pessoas usando resistência civil. E, na Universidade de Berkeley, na última semana, 1500 pessoas se manifestavam pacificamente contra uma palestra agendada de Milo Yannopoulos, colunista do site de direita Breitbart, quando se juntaram a elas por volta de 100 “agitadores mascarados”, que começaram um incêndio, arremessaram pedras e atacaram outros manifestantes.

Defensores das táticas black-bloc, que também incluem tumultos e “socar os nazistas”, argumentam que estas ações são necessárias e legítimas contra oponentes poderosos. Eles acreditam que estas táticas ajudam a proteger os ativistas não-violentos – particularmente aqueles pertencentes a comunidades marginalizadas – da polícia militarizada. Os danos à propriedade, brigas de rua e incêndios chamam a atenção da mídia, eles afirmam, e a participação na violência pode aprofundar o compromisso dos ativistas e encorajar os manifestantes não-violentos a serem mais corajosos. Mas eles também acreditam que os apelos à ação não-violenta são para os privilegiados e traidores. Sobre os chamados para um protesto pacífico, um defensor das ações black-bloc disse: “Este tipo de argumento pode levar a algo como ‘sente e espere que passe’. E não vai passar”.

Em última instância, contudo, as táticas black-bloc com frequência prejudicam as causas pelas quais estes ativistas alegam estar lutando. Ainda que confrontos violentos por vezes tenham produzido vantagens táticas de curto-prazo, elas quase sempre trazem custos dolorosos a longo prazo para os movimentos que buscam por mudanças – e as comunidades que eles se propõem a representar. É válido considerar a evidencia histórica que apoia esta conclusão, conforme a resistência a Trump cresce.

Praticantes experientes da violência sabem que, para realmente se suprimir as divergências, é necessário ganhar a batalha política mais ampla por legitimidade. Não se compete por legitimidade nos extremos ideológicos, mas no centro – uma audiência que, geralmente, não pode ser persuadida a tomar ações violentas para seguir vigilantes mascarados até um futuro utópico desconhecido. Líderes precisam de pretextos para convencer o centro que é necessário que ocorra uma repressão intensa aos dissidentes. Historicamente, os governos têm explorado facilmente os ataques violentos para reafirmar sua legitimidade e suprimir grandes movimentos de dissidência não-violenta.

Este é o paradoxo crucial da resistência: quanto mais opressor o adversário, mais a resistência deve se opor a jogar seu jogo. O custo estratégico das ações violentas reside no fato delas transformarem a luta em um tabuleiro de xadrez, no qual o regime tem uma vantagem clara.

A história nos oferece amplas provas de como o fascismo responde a ações violentas no âmbito de movimentos mais amplos de resistência civil. O período do entre-guerras, no século passado, foi caracterizado por batalhas de rua entre comunistas, progressistas e fascistas, enquanto os liberais tentavam manter a estabilidade através do poder eleitoral e judicial. Ainda que grupos de rua antifascistas na Alemanha celebrassem os sucessos de sua tática de socar nazistas, o resultado político a longo prazo foi uma esquerda fragmentada que se autodestruiu. Grupos fascistas fizeram uso do caos para apelar a impulsos nacionalistas, ganhando poder, segundo as pesquisas. Neste processo, difamaram vários bodes expiatórios – judeus, oposicionistas de esquerda, a mídia, intelectuais, homossexuais, ciganos, pessoas com deficiências – selecionando-as para deportação, experimentos científicos, internação e, no limite, extermínio.

Conforme os nazistas conquistavam a Europa, expressavam uma preferência explícita por combaterem movimentos de luta e resistência que utilizavam táticas de guerrilha, ao invés de métodos de desobediência civil. O teórico militar britânico Basil Liddell Hart observou que “[os nazistas] eram especialistas em violência e foram treinados para lidar com oponentes que usavam este método. Mas outras formas de resistência os desconcertavam – ainda mais quando estes métodos eram sutis e disfarçados. Foi um alívio para eles quando a resistência se tornou violenta e quando as formas não-violentas se misturaram com as ações de guerrilha, tornando mais fácil a ele combinarem ações repressivas drásticas sobre ambas, ao mesmo tempo”.

Estudos mostram que, uma vez empregadas ações violentas, o tamanho e a participação em movimentos de massa não-violentos diminui – particularmente entre mulheres, crianças, idosos, pessoas com deficiências e comunidades marginalizadas ou vulneráveis. Isto é importante, já que os movimentos que mantém uma participação diversificada e em grande escala são melhores em despertar a simpatia de observadores externos e têm os melhores índices registrados de sucesso. Os regimes tipicamente acusam oposicionistas de serem bandidos, assassinos e traidores, independentemente do que façam. Por exemplo, Trump publicou no Twitter após o incidente em Berkeley: “Anarquistas profissionais, bandidos e manifestantes pagos estão reafirmando a razão de milhões de pessoas que votaram para FAZER A AMÉRICA GRANDE NOVAMENTE!”. O público em geral e os manifestantes em potencial podem considerar estas afirmações como mais críveis quando veem alguns oposicionistas usando violência. Um estudo comprova que os regimes tendem a expandir sua repressão contra todos seus opositores após a entrada em cena de ações violentas. Outro estudo recente sugere que a maioria da população dos EUA aceita bem isto, apesar de haverem importantes diferenças raciais.

De fato, os norte-americanos – particularmente os brancos e hispânicos – são, no geral, hostis a protestos públicos, ainda que sejam mais tolerantes em relação a protestos não-violentos do que aos violentos. A ação não-violenta parece mobilizar as pessoas, sem aliená-las. Por exemplo, Omar Wasow reuniu uma riqueza em evidências que mostra como as táticas não-violentas aumentaram a atenção do público e sua simpatia em relação ao movimento de Direitos Civis. Este apoio se traduziu em um comportamento eleitoral que empoderou os democratas para que adotassem os atos do Voto e dos Direitos Civis. Em contraste, protestos violentos distraíram o povo dos direitos civis. Esta alienação dos brancos teve como consequência a eleição de Richard Nixon, em 1968, sobre um plataforma de “lei e ordem”, um derrota decisiva para as causas por justiça social.

Assim, a violência dentro dos movimentos pode reduzir as perspectivas de sucesso estratégico. Nas disputas trabalhistas francesas, Emiliano Huet-Vaughn descobriu, a violência e a destruição de propriedades tendem a reduzir a probabilidade de que os grupos trabalhistas conquistem concessões. E estudos mais amplos e internacionais mostram que é mais provável que campanhas de resistência não-violenta sejam mais bem-sucedidas na deposição de seus próprios governos sem o uso de ações violentas do que com elas. Mesmo quando os movimentos são bem-sucedidos, apesar do uso de ações violentas, as dinâmicas políticas liberadas no processo são difíceis de controlar. Historicamente, campanhas que usam massivamente as táticas violentas tiveram mais chances de levar a uma guerra civil, mesmo após anos do término ostensivo de um conflito. E países nos quais a violência teve um papel proeminente nos levantes recentes tiveram mais chances de sair do conflito com instituições autoritárias fortalecidas.

Dado que estratégias violentas tendem a reduzir a participação, repelir potenciais aliados, aumentar a repressão generalizada e desencorajar a deserção de pessoas em vários pilares de apoio [do regime], não é surpresa alguma que os regimes tentem infiltrar os movimentos sociais para encorajar a emergência de ações violentas. O FBI fez isso durante o movimento por Direitos Civis e, mais recentemente, durante o Occupy. Os esforços repetidos para plantar agentes provocadores que endossam ações violentas deveriam nos dar um sinal claro: as autoridades querem que os movimentos joguem o jogo que o estado conhece melhor.

Defensores de estratégias violentas com frequência caracterizam sua abordagem como a única opção ao protesto pacífico ou à submissão total. Contudo, a história oferece uma abundância de exemplos de campanhas de desobediência civil disruptivas e confrontativas, que aproveitaram o poder da mobilização popular para provocar mudanças sociais e políticas. Campanhas bem-sucedidas vão além de passeatas, manifestações e protestos, englobando vários outros métodos não-violentos – incluindo ocupações, barricadas humanas, greves, interrupções de serviços e muitas outras técnicas disruptivas – para obter resultados sem as desvantagens politicas das ações violentas.

Mas, antes mesmo de concordarem nas táticas, a coalisão de diversos atores envolvidos na resistência a Trump precisa, primeiramente, concordar em qual é a visão alternativa de sociedade que querem ver acontecer. Eles precisam, então, se certificar de que seus métodos de resistência comunicam esta visão de uma forma que atrairá, ao invés de repelir, partidários, enquanto constroem a capacidade de manter resistência contínua, projetar legitimidade para aqueles no centro e construir poder a partir das bases. Assim, a questão estratégica chave não é quais táticas são imediatamente mais satisfatórias, ou quem tem o direito de decidir se  ações violentas são o melhor caminho a seguir. Ao contrário, é sobre qual campo de batalha os dissidentes escolherão encontrar seu oponente. Se qualquer parte da resistência sacrificar sua força em números para jogar contra a expertise em violência do oponente, ela não terá chances de lutar.

A TRANSFORMAÇÃO DO SILÊNCIO EM LINGUAGEM E AÇÃO – Audre Lorde

Audre Lorde, poeta e ativista feminista estadunidense, discute, nesta palestra, a importância de rompermos o silêncio que oprime e transformá-lo em ação que liberta e transforma. 

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Eu passei a acreditar cada vez mais que o que é mais importante para mim deve ser falado, verbalizado e compartilhado, mesmo com o risco de ser ferida ou mal-compreendida. Que falar me beneficia, para além de qualquer outro efeito. Estou aqui, como uma poeta negra lésbica, e o significado de tudo isto reside no fato de que eu ainda estou viva, e poderia não estar. Há menos de dois meses eu ouvi de dois médicos, uma mulher e um homem, que eu teria que passar por uma cirurgia de mama e que havia 60 a 80 por cento de chances de que o tumor fosse maligno. Entre esta notícia e a cirurgia, houve um período de três semanas de agonia, resultante da involuntária reorganização de minha vida inteira. A cirurgia foi bem sucedida, e o tumor era benigno.

Mas durante estas três semanas eu fui forçada a olhar para mim mesma e para minha vida com uma clareza áspera e urgente, que me deixou abalada, mas muito mais forte. Esta é uma situação enfrentada por muitas mulheres, por algumas de você aqui hoje. Algo do que experienciei durante este tempo me ajudou a elucidar muito do que eu sinto em relação à transformação do silêncio em linguagem e ação.

Ao me tornar forçada e essencialmente consciente de minha mortalidade e do que eu queria e desejava para minha vida, ainda que ela fosse curta, as prioridades e omissões se tornaram fortemente realçadas por uma luz impiedosa, e o que mais me causou arrependimento foram meus silêncios. Do que eu tinha medo? Questionar ou falar sobe o que eu acreditava poderia significar dor ou morte. Mas todas nós sofremos de tantas formas tão diferentes, todo o tempo, e a dor ou se transforma, ou acaba. A morte, por outro lado, é o silêncio final. E ela poderia chegar rapidamente, agora, sem considerar se eu já havia dito o que era necessário ser dito ou se eu apenas estava me traindo em pequenos silêncios, enquanto planejava falar algum dia, ou esperava pelas palavras de outra pessoa. E eu comecei a reconhecer uma fonte de poder dentro de mim que vem do conhecimento de que, mesmo que seja mais desejável não ter medo, aprender a colocar o medo em perspectiva me dava uma grande força.

Eu ia morrer, se não agora, mais tarde, quer eu tivesse falado, quer não. Meus silêncios não haviam me protegido. Seu silêncio não a protegerá. Ao contrário, a cada palavra real dita, a cada tentativa que eu fiz de dizer estas verdades pelas quais eu ainda estou procurando, eu entrei em contato com outras mulheres e examinamos juntas as palavras que serviriam a um mundo no qual nós todas acreditávamos, conciliando nossas diferenças. E foram a preocupação e o carinho de todas estas mulheres que me deram forças e me permitiram examinar as questões essenciais da minha vida.

As mulheres que me apoiaram durante aquele período foram negras e brancas, velhas e jovens, lésbicas, bissexuais e heterossexuais, e todas partilhávamos de uma guerra contra as tiranias do silêncio. Todas elas me ofereceram força e consideração, sem as quais eu não poderia ter sobrevivido intacta. Destas semanas de medo agudo nasceu o conhecimento – a partir  desta guerra que todas estamos lutando contra as forças da morte, sutis ou não, conscientes ou não – de que eu não sou apenas uma baixa, sou também uma guerreira.

Quais são as palavras que você ainda não possui? O que você precisa dizer? Quais são as tiranias que você engole diariamente e tenta tornar suas, até que você adoeça e morra delas, ainda em silêncio? Talvez, para algumas de vocês aqui hoje, eu seja o rosto de um de seus medos. Porque eu sou uma mulher, porque sou Negra, porque sou lésbica, porque sou eu mesma – uma poeta guerreira Negra fazendo seu trabalho –  e estou aqui perguntando a você: você está fazendo o seu?

É claro que eu tenho medo, porque a transformação do silêncio em linguagem e ação é um ato de auto-revelação, o que sempre parece carregado de perigo. Mas, minha filha, quando eu contei a ela sobre nosso tema e minha dificuldade com ele, me disse: “Diga a elas sobre como você nunca é uma pessoa realmente inteira se permanecer em silêncio, porque há sempre um pequeno pedaço em você que quer ser dito e, se você continuar ignorando-o, ele fica cada vez mais louco, cada vez mais quente, e se você não o falar, um dia ele irá simplesmente se levantar e dar um soco na sua boca pelo lado de dentro”.

A respeito do silêncio, cada uma de nós é capaz de desenhar o rosto de seu próprio medo – medo do desprezo, da censura, dos julgamentos, do reconhecimento, dos desafios, da aniquilação. Mas a maioria de nós, eu penso, teme a visibilidade sem a qual não podemos realmente viver. Neste país, no qual as diferenças raciais criam uma constante e não-dita distorção de visão, as mulheres Negras, de um lado, sempre têm sido muito visíveis e, por outro lado, têm sido invisibilizadas através da despersonalização do racismo. Mesmo dentro do movimento feminista, nós tivemos que lutar, e ainda temos, por esta visibilidade que também nos deixa mais vulneráveis, nossa Negritude. Porque, para sobreviver na boca deste dragão que chamamos américa, temos que aprender esta lição fundamental e vital: que nunca foi esperado que sobrevivêssemos. Não como seres humanos. E isto ainda é verdade para a maioria de você aqui, Negras ou não. E que a visibilidade que nos torna mais vulneráveis é a que também é fonte de nossa grande força. Porque a máquina irá tentar nos pulverizar de qualquer força, quer falemos, quer não. Podemos sentar nos nossos cantos, mudas para sempre, enquanto nossas irmãs e nós mesmas somos devastadas, enquanto nossas crianças são destorcidas e destruídas, enquanto nossa terra é envenenada; podemos sentar em nossos cantos seguros mudas como uma porta, e nem assim sentiremos menos medo.

Em minha casa, neste ano, estamos celebrando a festa do Kwanza, o festival afro-americano da colheita, que começa no dia seguinte ao Natal e dura sete dias. Há sete princípios do Kwanza, um para cada dia. O primeiro princípio é Umoja, que significa “unidade”, a decisão de empenhar-se em manter a unidade dentro de si e na comunidade. O princípio para ontem, o segundo dia, era Kujichagulia – auto-determinação – a decisão de definir a nós mesmas, nos nomearmos, e falarmos por nós, ao invés de sermos definidas e faladas por outrem. Hoje é o terceiro dia do Kwanza, e o princípio para hoje é Ujima – trabalho e responsabilidade coletivos – a decisão de construir e manter a nós mesmas e nossas comunidades unidas e de reconhecer e resolver nossos problemas juntas.

Cada uma de nós está aqui agora porque, de uma forma ou de outra, nós partilhamos de um compromisso com a linguagem e com o poder dela, e com a retomada desta linguagem que tem sido usada para trabalhar contra nós. Na transformação do silêncio em linguagem e ação, é vitalmente necessário que cada uma de nós estabeleça ou examine sua função nesta transformação, e que reconheça seu papel como sendo vital nela.

Para aquelas de nós que escrevem, é necessário examinar não só a verdade do que falamos, mas a verdade da linguagem através da qual a dizemos. Para as outras, é compartilhar e espalhar estas palavras que são significativas para nós. Mas, primariamente, para todas nós, é necessário ensinar estas verdades através da vivência e da fala delas, verdades nas quais acreditamos e as quais sabemos para além do entendimento. Porque somente desta forma poderemos sobreviver, ao tomarmos parte de um processo de vida que é criativo e contínuo, que é crescimento.

E isto nunca acontece sem medo – da visibilidade, da dura luz do escrutínio e, talvez, do julgamento, da dor, da morte. Mas nós já convivemos com todos eles, em silêncio, com exceção da morte. E eu lembro a mim mesma, todo o tempo agora, que se eu tivesse nascido muda ou tivesse feito um voto de silêncio durante minha vida toda para garantir minha segurança, ainda assim eu teria sofrido, e ainda assim eu morreria. Isto é  muito bom para estabelecer uma perspectiva.

E, onde quer que as palavras das mulheres estejam gritando para serem ouvidas, nós precisamos, cada uma de nós, reconhecer nossa responsabilidade em buscar por estas palavras, lê-las e partilhá-las, e examina-las em sua pertinência em relação às nossas vidas. Que não nos escondamos atrás das zombarias da separação que nos foram impostas e as quais nós, com frequência, aceitamos como sendo nossas. Por exemplo, “Eu não posso ensinar mulheres Negras a escrever – a experiência delas é tão diferente da minha!”. No entanto, quantos anos você passou ensinando Platão e Shakespeare e Proust? Ou outra: “Ela é uma mulher branca, o que ela teria a me dizer?” Ou, “Ela é uma lésbica, o que meu marido diria, ou meu diretor?”. Ou ainda, “Essa mulher escreve sobre seus filhos e eu não tenho filhos”. E todos estes outros meios infinitos pelos quais nós nos furtamos de nós mesmas e umas das outras.

Podemos aprender a trabalhar e a falar quando estamos com medo, da mesma forma que aprendemos a trabalhar e falar quando estamos cansadas. Fomos socializadas para respeitar o medo mais do que nossas próprias necessidades de expressão através da linguagem e de definição, e,  enquanto esperamos em silêncio pelo luxo final do destemor, o peso deste silêncio nos sufocará.

O fato de que estamos aqui e que eu estou dizendo estas palavras é uma tentativa de quebrar este silêncio e conciliar algumas destas diferenças entre nós, porque não é a diferença que nos imobiliza, mas o silêncio. E há muitos silêncios a serem rompidos.

(palestra proferida no painel “Lesbianismo e Literatura” da Modern Language Association, em Chicago, Illinois, dezembro de 1977)

O NEOLIBERALISMO ESTÁ CRIANDO SOLIDÃO, E É ISSO QUE ESTÁ DILACERANDO A SOCIEDADE – George Monbiot

George Monbiot é um escritor e ativista político e ambiental britânico que vem investigando os impactos da solidão na vida cotidiana e na saúde mental das pessoas. Neste artigo, ele defende a ideia de que o ideário neoliberal, pautado no individualismo e na competição, promove a solidão e, assim, é responsável pela epidemia de doenças mentais e físicas que nos afetam na contemporaneidade. Ele afirma que, para superarmos estes males, precisamos de uma nova visão de mundo que reconheça a importância da conexão e da vida em comunidade. 

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Original em inglês: https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/oct/12/neoliberalism-creating-loneliness-wrenching-society-apart  Ilustração de Andrzej Krauze

As epidemias de doenças mentais estão esmagando as mentes e corpos de milhões de pessoas. É hora de perguntar para onde estamos indo e por quê.

Que acusação maior um sistema poderia sofrer do que [promover]  uma epidemia de doenças mentais? As pragas da ansiedade, estresse, depressão, fobia social, desordens alimentares, auto-mutilação e solidão estão afetando pessoas ao redor do mundo. As últimas e catastróficas estatísticas de saúde mental de crianças na Inglaterra refletem uma crise global.

Há várias razões secundárias para estes males, mas a mim parece que a causa subjacente é sempre a mesma: seres humanos, estes mamíferos ultrassociais, cujos cérebros são preparados para responder a outras pessoas, estão sendo separados. As mudanças econômicas e tecnológicas desempenham um grande papel nisto, mas o mesmo faz a ideologia. Apesar do nosso bem-estar ser intrinsecamente conectado às vidas das outras pessoas, em todos os lugares nos dizem que só iremos prosperar através do auto-interesse competitivo e do individualismo extremo.

Na Grã-Bretanha, homens que passaram todas as suas vidas em quadrados – na escola, na faculdade, no bar, no parlamento – nos instruem a mantermo-nos sobre nossos próprios pés. O sistema de educação se torna mais brutalmente competitivo a cada ano. A empregabilidade é uma luta até quase a morte com uma multidão de outras pessoas desesperadas disputando cada vez menos empregos. Os modernos profetas atribuem culpa individual às circunstâncias econômicas. As competições sem fim na televisão alimentam aspirações impossíveis como se fossem oportunidades reais.

O consumismo preenche o vazio social. Mas, muito longe de ser a cura para a doença do isolamento, ele intensifica a comparação social até o ponto em que, tendo consumido tudo, começamos a consumir a nós mesmos. As mídias sociais nos aproximam e distanciam, permitindo que quantifiquemos precisamente nosso capital social e que vejamos que as outras pessoas têm mais amigos e seguidores do que nós.

Como Rhiannon Lucy Cosslett documentou brilhantemente [em artigo disponível em https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/sep/08/thinner-retouching-girls-image-manipulation-women], meninas e jovens mulheres rotineiramente alteram as fotos que postam para parecerem mais bonitas e magras. Alguns smartphones, usando suas regulagens “beauty”, fazem isso sem nem perguntar; agora você pode se tornar sua própria inspiração. Bem-vindos à distopia pós-hobbesiana: uma guerra de todos contra si mesmos.

É de se estranhar, nestes mundos internos solitários nos quais o toque foi substituído pelo retoque, que as jovens mulheres estejam se afogando em angústia mental? Uma pesquisa recente na Inglaterra sugere que uma em cada quatro mulheres entre 16 e 24 anos se auto-mutilaram e uma em cada oito sofrem de estresse pós-traumático. Ansiedade, depressão, fobias ou transtorno obsessivo-compulsivo afetam 26% das mulheres desta faixa etária. É com isso que um crise de saúde pública se parece.

Se a ruptura social não é tratada tão seriamente quanto membros fraturados, é porque não podemos vê-la. Mas os neurocientistas podem. Uma série de artigos fascinantes sugerem que a dor social e a dor física são processadas pelos mesmo circuitos neurais. Isto pode explicar porque, em muitos idiomas, é difícil descrever o impacto do rompimento de laços sociais sem usar as mesmas palavras que usamos para denotar dor física e ferimentos. Tanto nos humanos quanto nos outros mamíferos sociais, o contato social reduz a dor física. Esta é a razão porque abraçamos nossos filhos quando eles estão em agonia física e a razão da angústia da separação. Talvez isto explique a conexão entre o isolamento social e o vício em drogas.

Experimentos resumidos no jornal científico Physiology & Behavior no mês passado sugerem que, se houver uma escolha entre dor física e isolamento social, os mamíferos sociais escolherão a primeira. Macacos-prego mantidos em privação de comida e contato por 22 horas preferirão reencontrar seus companheiros a comer. Crianças que experimentam negligência emocional, de acordo com algumas descobertas, sofrem de consequências mentais mais graves do que as que sofrem tanto de negligência emocional quanto de abuso físico: apesar de hedionda, a violência envolve atenção e contato. A automutilação frequentemente é utilizada para aliviar o estresse: outra indicação de que a dor física não é tão ruim quanto a dor emocional. Como o sistema prisional sabe muito bem, uma das formas mais eficazes de tortura é o confinamento solitário.

Não é difícil de ver quais podem ser as razões evolucionárias para a dor social. As chances de  sobrevivência entre os mamíferos sociais são muito maiores quando eles estão fortemente conectados com o resto do bando. Os animais isolados e marginalizados são os mais prováveis de serem capturados por predadores ou morrerem de fome. Assim como a dor física nos protege de danos físicos, a dor emocional nos protege de danos sociais. Ela nos leva a nos reconectar, mas muitas pessoas acham isso quase impossível.

Não é surpreendente que o isolamento social seja fortemente associado com depressão, suicídio, ansiedade, insônia, medo e percepção de ameaças. É mais surpreendente descobrir a variedade de doenças físicas que ela causa ou exacerba. Demências, hipertensão, doenças cardíacas, derrames, resistência diminuída a vírus e mesmo acidentes são mais comuns entre pessoas cronicamente solitárias. A solidão tem um impacto na saúde física comparável a fumar 15 cigarros por dia: ela parece aumentar o risco de morte precoce em 26%. Isto ocorre, parcialmente, porque ela aumenta a produção do hormônio cortisol, que suprime o sistema imunológico.

Estudos tanto em animais quanto em humanos sugerem uma razão para comermos para nos confortarmos: o isolamento reduz o controle de impulsos, levando à obesidade. Sendo as pessoas nos degraus mais baixos da escada socioeconômica aquelas que mais provavelmente sofrem de solidão, será que isso  não nos oferece uma explicação para o forte vínculo entre status econômico baixo e obesidade?

Qualquer pessoa pode ver que isso é muito mais importante do que a maoria das coisas pelas quais estamos reclamando que deram errado. Então, porque nos engajamos neste frenesi autoconsumista de destruição ambiental e deslocamento social, se tudo o que ele produz é uma dor insuportável? Esta questão não deveria preocupar a todos que desempenham um papel pública?

Há algumas instituições de caridade maravilhosas fazendo o que podem para combater esta onda, com algumas das quais eu colaborarei como parte do meu projeto sobre a solidão. Mas, para cada pessoa que elas atingem, várias outras passam batido.

Isto não requer uma resposta política. Requer algo muito maior: a reavaliação de toda uma visão de mundo. De todas as fantasias que os seres humanos entretêm, a ideia de que podemos prosseguir sozinhos é a mais absurda e, talvez, a mais perigosa. Ou ficamos juntos ou desabamos.

NOSSA OBSESSÃO POR SAÚDE MENTAL ALIMENTOU AS POLÍTICAS DE DONALD TRUMP E DO BREXIT – Jay Watts

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Este artigo, focado nos contextos estadunidense e britânico, mas adequado também ao contexto brasileiro, faz uma reflexão muito pertinente sobre o papel da psicologia na construção e perpetuação de mecanismos que promovem e sustentam o individualismo e possibilitaram o crescimento da ideologia neoliberal. 

Original em inglês: http://www.independent.co.uk/voices/donald-trump-brexit-neoliberalism-individualism-cognitive-behavioural-therapy-a7413501.html

Para entender a atual crise política anti-autoritária, desde o Brexit até Trump, temos que olhar novamente para o ativismo que ocorreu entre os anos 60 e 70 e perguntar o que deu errado.

Os movimentos de justiça social dos anos 60 mudaram nossa relação com o status quo para sempre. Sim, houve movimentos anti-autoritários antes, mas nunca tantas pessoas haviam se levantado para exigir mudanças. Desde o movimento estadounidense pelos direitos civis , até as campanhas pelos direitos das mulheres, pela libertação gay, pelo desarmamento nuclear e assim por diante, o descontentamento parecia gerar tanto a raiva, quanto a esperança de que um mundo melhor seria possível.

Em meados dos anos 1970, os movimentos de massa por justiça social começaram a ser drenados de seu radicalismo, uma mudança que pode ser atribuída à ascensão de um certo individualismo atomizado. O suspeito de ter causado esta mudança é o neoliberalismo. Mas esta ideologia apenas poderia se desenvolver de mãos dadas com a ascensão da cultura da terapia.

As ideias psicológicas como ferramentas de regulação e auto-exame começaram a permear a cultura geral nos anos 1950, com o programa de rádio muito amado do psicanalista Donald Winnicott, que ensinava aos cidadãos sobre parentalidade. Mas se tornaram mais correntes nos anos 1960, com a popularização da psicologia do anormal  e do movimento do potencial humano, que se espalharam como fogo selvagem, moldando subjetividades.

Um exemplo? Os grupos de encontro. Estes encontros eram uma tentativa de ajudar indivíduos a trabalharem juntos para superar opressões internalizadas. Porém, este tipo de trabalho coletivo logo foi cooptado por ideias como as de “auto-atualização”. O mundo interior deveria ser explorado não mais como um esforço coletivo, mas como uma busca de felicidade individual. O ativismo de massa começou a diminuir, enquanto a venda de livros de autoajuda cresceu descontroladamente, carregando em suas páginas a mensagem de que a responsabilidade pelo crescimento e felicidade estão firmemente fundamentadas no individual. Por que, então, ir a um grupo de encontro feminista, se as ferramentas para a iluminação estão em um livro de autoajuda que alguém pode ler em casa?

O efeito colateral da ascensão da cultura da terapia foi um entendimento despolitizado da angústia pessoal e uma certa concentração no próprio umbigo. As causas da raiva e da ansiedade estariam localizadas apenas na infância dos indivíduos ou, como revelou o século XXI, nos genes. As considerações sobre as relações de poder e as causas estruturais da desigualdade viraram um projeto da esquerda que atrapalha o desenvolvimento da “Marca Eu”, ou uma nota de rodapé em artigos acadêmicos. Ideias alternativas ao “self” foram especialmente ridicularizadas – um fenômeno que vemos na reação ao Corbynismo hoje em dia. Ideias alternativas dentro da psicologia foram colocadas de lado.

Consequentemente, as divisões entre partidos políticos se tornaram indefinidas, tanto nos EUA como no Reino Unido, já que quaisquer ideias sobre interdependência batem de frente com as exigências do egoísmo moderno internalizadas e dirigidas pelo mercado. A psicologia dominante serve perfeitamente às ideias neoliberais – fazendo os indivíduos sentirem-se responsáveis por governar seu próprio comportamento, através de técnicas como a terapia cognitivo-comportamental, por meio da qual o indivíduo poderia, supostamente, livrar-se de  traços de personalidade que não servem aos ideais do mercado e desenvolver “o tipo correto de efeito”. Uma quantidade em contínua expansão de condições de humor – desde raiva até ansiedade – passou a ser compreendida como desordem mental, ao invés de reações compreensíveis a ambientes impossíveis.

No entanto, a ideia de “self” atomizado que o neoliberalismo prega e que a psicologia ajudou a produzir é profundamente falha. Nossos mundos interiores são, predominantemente, um produto dos ambientes discursivos e materiais em que habitamos, das oportunidades abertas e fechadas para nós. Desespero, pobreza, isolamento, discriminação e menor nível social, por exemplo, são preditores-chave de stress mental. Apesar de a cultura da terapia ter sido considerada como uma solução benéfica ao problema, seus modelos de “self” foram, em parte, responsáveis pela atual epidemia de doenças mentais. A Psicologia dominante foi e é uma grande possibilitadora do neoliberalismo.

O psicocentrismo na sociedade fez com que as pessoas votassem em agentes de mudança que apoiam o individualismo raivoso no qual nós fomos socializados, mesmo quando tais votos servem apenas para reforçar as condições de opressão que os indivíduos pensam estar rejeitando. Em vez de ir correndo para os atuais gurus da psicologia que vendem a ideia de que podem ajudar os indivíduos a lidar com seus problemas, devemos usar este momento para retornar a este ponto crítico de atomização no século 20, e nos perguntar como podem se apresentar os modos alternativos de pensamento sobre a angústia corporificada. A “Marca Eu” era um falso profeta do qual a psicologia se beneficiou. Devemos desenvolver, em vez disso, a “Marca Nós”.

EGO, MENTE E CULTURA – Miki Kashtan

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“Meu Ego estava minando minhas capacidades de liderança, então eu dei um jeito nele” [“Não alimentar!”] 

Miki Kashtan, socióloga, facilitadora de Comunicação Não-Violenta e escritora, analisa neste artigo o uso corrente de termos como “ego”  e “mente” sob a luz da Comunicação Não-Violenta. Para ela, estes conceitos, da maneira como são compreendidos pela cultura ocidental contemporânea, atuam como  ferramentas de separação, desconexão e desresponsabilização. Agradeço a Severino Lucena por traduzir do inglês e permitir a publicação neste blog.  

Original em inglês: http://baynvc.blogspot.com.br/2013/11/ego-mind-and-culture.html#main. Tradução: Severino Lucena

A ideia para este texto veio a mim quando eu li um comentário a uma postagem anterior no meu blog. O conteúdo específico da postagem (que era sobre raça), não é a questão aqui. Na verdade, foram duas referências a “ego” que me chamaram a atenção e me deixaram pensando por todos esses meses. Aqui estão elas, a título de contexto:

“O único uso para estes falsos valores é aumentar o sentido de separação do ego, seja através de concepções de superioridade ou de inferioridade.”

“Um dos resultados de agir a partir de valores verdadeiros é a libertação da ignorância à qual o ego separador se apega tenazmente.”

Não há nada de incomum nestas frases. Elas simplesmente capturam uma maneira de falar da qual tenho estado consciente: a de atribuir intenção para o que é, em última análise, uma abstração. Talvez isto não estivesse tão perceptível para mim se não fosse por um segundo aspecto: a intenção atribuída a essa abstração chamada “ego” carrega consigo uma conotação negativa.

Foi uma triste surpresa para mim quando soube que a entrada de “ego” para o idioma inglês foi, em grande parte, o resultado de escolhas feitas pelo tradutor de Freud, James Strachey. “Ego” foi introduzido como uma tradução da palavra em alemão que significa simplesmente “eu”, mudando assim o sentido e o tom do que Freud escreveu. “Quando uma pessoa diz ‘meu ego'”, diz Mark Leffert, “alguém sempre pode se distanciar. Quando se diz ‘eu’, a distância não é possível”. [Nota de rodapé 1]

É precisamente essa distância que nos permite vê-lo como separado, uma “coisa” com uma intenção.

Quando as traduções de textos orientais também vieram a usar a mesma palavra, esta tornou-se um pilar, onipresente. “Ego” é, agora, algo a ser evitado, a ser trabalhado para nos libertarmos dele. Ele interfere com o nosso senso mais elevado de bem-estar, bloqueia nossa generosidade e nos mantém focados em desejos que são geralmente vistos como “narcisistas”, como desejos por reconhecimento ou por sermos enxergados.

Foi preciso algum esforço quando decidi, há alguns anos, libertar deliberadamente a minha língua da palavra “ego”. Eu não queria utilizar um conceito tão carregado com carga negativa. Quero que minha língua reflita o meu compromisso com uma visão diferente da natureza humana, em vez de apoiar a visão de que dentro de cada um de nós há uma parte central, que deve ser transcendida ou suprimida, a fim de me tornar um membro maduro e funcional da sociedade humana.

Narcisismo e abnegação

Sério?

Esta visão de “ego” está intimamente ligada ao conceito de narcisismo, bem como à ideia que diz que quando nos doamos estamos sendo “altruístas” ou “generosos”, sutilmente insinuando de alguma forma que estaríamos indo contra a nossa natureza ao fazer isso.

Lembro-me de um passeio que fiz com uma amiga um dia, que comentou sobre o sacrifício que seria, para mim, fazer o trabalho que faço. Eu entendi mais tarde que o que ela quis dizer estava relacionado à quantidade de esforço e atenção que coloco em meu trabalho e ao grau de disponibilidade que dedico para pessoas e projetos. Inicialmente, no entanto, levou algum tempo para que eu pudesse compreender por que ela estava dizendo isso, pois a minha própria sensação era que nada poderia estar mais longe da verdade. Sacrifício é desistir de algo e fazer algo que eu “deveria” estar fazendo, ao passo que o meu compromisso com o meu trabalho surge de dentro, é atraente, e é o que eu quero e estou disposta a fazer integralmente.

Em outra ocasião me lembro de outra pessoa falando, depreciativamente, sobre necessidades narcisistas. Quando a pressionei pedindo clareza, ela nomeou necessidades como ser vista, por reconhecimento ou por ser amada. Eu quis chorar quando a ouvi. Estes são precisamente os tipos de necessidades que são nucleares e centrais à nossa capacidade de saber que somos importantes e fazemos parte do tecido humano. Na medida em que as relegamos ao “ego” e as chamamos de “narcisistas”, continuamos a levar adiante a ideia de que há algo de errado em querer amor, por exemplo. Talvez até mesmo reforcemos a noção de separação entre o eu e os outros.

Parte da razão pela qual eu deliberadamente abstenho-me de usar essas palavras – ego, narcisismo, abnegação, altruísmo e egoísmo – é porque estou buscando transcender a dicotomia entre o eu e o outro. Quero fazer a distinção entre auto-cuidado e “egoísmo” e espero que cada um de nós possa atender nossas necessidades e ao mesmo tempo oferecer nossos dons em todos os lugares. Da mesma forma, quero distinguir entre sustentar as necessidades de todos com cuidado e a noção de “altruísmo” ou “abnegação”, para que eu possa lembrar e lembrar aos outros que cuidar dos outros não é à custa de mim mesma, que eu não estou separada, que todos nós nascemos e permanecemos interdependentes.

E o que dizer da mente?

Apesar de mente e ego não serem conceitos equivalentes, ambos são vistos como obstáculos a superar, especialmente em círculos comprometidos com práticas espirituais, de consciência emocional ou de recuperação. Somos instruídos a acalmar a mente, a fim de alcançar a paz interior, por exemplo. Nossa mente também é vista como a sede dos julgamentos. “Ir para a cabeça” é, em si, um julgamento nesses círculos. Além disso, a mente é vista como a origem do medo, culpa e muito mais.

Eu quase intitulei este texto como “Em Defesa da Mente”, precisamente porque acho que é trágico que a nossa capacidade de pensar, de aprender, de discernir, de darmos sentido a nós mesmos e à vida, para a geração de idéias, para ensinar aos outros – ou tantas outras coisas que são essencialmente humanas – é criticado em um tal grau. Estou preocupada com o ethos anti-intelectual que vejo em alguns círculos.

Não posso melhorar as palavras de Alfonso Montuori, professor de estudos de transformação no “California Institute of Integral Studies”:

É irônico como muitas vezes a busca de holismo, de transformação, de integralismo e abordagens alternativas em geral, possa levar à exclusão do que é às vezes depreciativamente chamado de “mental.” Neste ponto de vista, que não é incomum em alunos entrando em programas alternativos e nos círculos da Nova Era, qualquer coisa considerada “intelectual” é, por definição, não-espiritual, porque o intelecto é o “velho paradigma”, o inimigo da espiritualidade. É precisamente o que nos separava da existência espiritual, intuitiva, natural, espontânea que nossas antepassadas e antepassados aparentemente apreciavam nos dias antes de Descartes, Newton, da Revolução Industrial e até mesmo a da agricultura. A ênfase está na compreensão e/ou conexão com a “sabedoria superior”, ou Deus. O aprendizado por livros é visto em última instância como “relativo”, de segunda mão, e até mesmo parte de um processo de auto-engrandecimento egóico, indiferença, esnobismo, elitismo e um afastamento do mundo “real”. [Nota 2]

Eu compreendo perfeitamente a reação às tentativas de fazer da racionalidade o único aspecto importante do ser humano com a exclusão e regulação de tudo que seja apaixonado e emocional. Eu, também, sinto uma angústia profunda acerca deste aspecto em curso da civilização ocidental. Essa insatisfação foi o suficiente para me levar a dedicar vários anos de minha vida desafiando a primazia da racionalidade na minha dissertação. Ainda assim, trocar “coração” por “mente” (de modo que o coração é preferível à mente) mantém a divisão dentro de nós e a possibilidade de sustentar a visão negativa da natureza humana. Em vez disso, o que eu defendia, tanto na minha dissertação quanto desde então, é uma integração de razão e emoção, mente e coração.

De onde vem a mente?

O que me preocupa de igual forma, além da difamação da mente é a prática comum de vê-la como uma entidade estática, algo que existe independentemente de cultura e, portanto, imutável. Se é um aspecto “negativo” do eu e é, além disso, fixada, então o projeto de ser um ser humano plenamente vivo, amoroso e integrado está destinado a ser uma luta perpétua, desde tempos imemoriais e para sempre.

Sinto uma imensa gratidão pela descoberta do feminismo, em meados da década de 80, e pelos anos que passei mergulhando no estudo da sociologia, mais especialmente, embora longe de ser exclusivamente, à minha exposição a Karl Marx. Feminismo e sociologia me proporcionaram uma visão valiosa: a de que somos criaturas de prática, que quem somos como indivíduos, o que o nosso senso de eu é, o que somos capazes de pensar e sentir, são profundamente moldados pela cultura e as instituições em que nascemos. Uma criança que nasceu há 500 anos na Europa, por exemplo, não estaria perguntando-se ou recebendo perguntas de outros sobre o que eles queriam ser quando crescessem. Para a maior parte, esse futuro papel na vida foi determinado ao tempo em que a criança nasceu. Da mesma forma, seria improvável que essa criança se imaginasse auto-suficiente, como criança ou adulto. Elas sabiam que a vida dependia da boa vontade dos outros.

Mesmo sem ir muito longe no tempo, os hábitos de culpa, medo e auto-julgamento que são tão comuns a ponto de parecerem naturais e inevitáveis para muitos de nós, não são universalmente familiares. Eu ainda me deleito lembrando a ocasião em que li sobre a visita que vários estudiosos budistas do Ocidente fizeram ao Dalai Lama, na qual tiveram uma discussão com ele por algumas horas antes que este pudesse finalmente compreender a profundidade da autodepreciação que é como o ar para nós: isso era totalmente desconhecido para ele.

Não há dúvida em minha mente de que não nascemos com julgamentos, seja sobre nós mesmos ou sobre os outros. Nós não nascemos com a culpa, a auto-sabotagem, ou qualquer um dos outros atributos designados à mente ou ao ego. Eu vejo tudo isso como adaptações reativas ao que encontramos, como pequenos seres, depois que nascemos. Idéias de nossa própria maldade, em particular, são internalizadas por nós na medida em que elas nos são dirigidas pelos outros. Quase desde o momento em que nascemos somos avaliados – boa menina ou menina má, bom menino ou menino mau – e dizem-nos o que devemos ou não devemos fazer. Espera-se que cresçamos para sermos empáticos, atenciosos, respeitosos ou honestos quando essas qualidades não são demonstradas na forma como somos tratados, nem nos é dado espaço para encontrar a partir de dentro o que somos. Não me causa surpresa que a maioria de nós carregue tanta vergonha, levando-se em consideração a intensidade e o número de vezes em que crianças são humilhadas por outras pessoas.

Em vez de dizer-nos que, como indivíduos, nosso trabalho é o de superar a “mente” ou o nosso “ego,” eu quero, em primeiro lugar, investigar a visão da natureza humana que é responsável por criar essas noções. Embora as noções de “pecado” não sejam mais aceitas em muitos círculos, a visão negativa do “ego” e da “mente” parecem não levantar preocupação. Vejo-as como suplantando noções anteriores, permitindo que a visão fundamentalmente negativa da natureza humana, que é parte integrante das sociedades com base em autoridade, persista.

Eu quero que estejamos conscientes de que, a fim de nos libertar da constrição da vergonha e dos auto-julgamentos, o que é necessário não é uma luta individual para superar a parte negativa de nós mesmos que está inevitavelmente lá. Pelo contrário, eu vejo o que é necessário como um esforço concertado para desfazer o pior da nossa socialização com o apoio de outros que estão igualmente comprometidos. Além disso, a fim de aliviar a necessidade de tais lutas heróicas por parte dos nossos filhos e todas as crianças, espero que muitos de nós se dêem as mãos no compromisso de garantir que todas as crianças tenham a oportunidade de crescer em ambientes que confiam em sua humanidade inata e permitam-lhes florescer. Não é uma tarefa fácil quando vimos sendo treinados para acreditar que, a menos que sejam controladas, as crianças vão ser egoístas e agressivas. Em um mundo assim, a palavra “ego” perderá sentido, e vamos recuperar o acesso à beleza do que nossas mentes podem ser: instrumentos de grande capacidade cognitiva e emocional a serviço de toda a vida.

Notas de rodapé:
Mark Leffert, The Therapeutic Situation in the 21st Century. P. 173.
Alfonso Montuori, “The Quest for a New Education: From Oppositional Identities to Creative Inquiry,” in ReVision, 2006, Vol. 28 no. 3.

TRUQUES DE SOBREVIVÊNCIA PARA PESSOAS POBRES E SEM RUMO: SOBRE COMO NEGOCIAR COM OS FALSOS ÍDOLOS DO AUTO-CUIDADO NEOLIBERAL – Laurie Penny

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“Onde você encontrou isso? Eu não acho em lugar nenhum!”
“Fui eu mesmo que fiz!”
“Felicidade”

A autora, editora-colaboradora da revista  britânica New Statesman, aponta as origens e os efeitos sociais insidiosos da  ideologia do bem-estar e da felicidade presente em nossa sociedade, fundamentada no visão política neoliberal, portanto, no individualismo e na meritocracia. Ao mesmo tempo, adverte sobre os riscos de, enquanto procuramos evitar as armadilhas apresentadas por essa ideologia, neglicenciarmos o cuidado de nós mesmas e das pessoas com quem compartilhamos nossas vidas. 

Original em inglês: http://thebaffler.com/blog/laurie-penny-self-care. Tradução: Angelica Rente. 

O capitalismo tardio é semelhante a sua vida amorosa: ele parece muito menos desolador através de um filtro do Instagram. O colapso lento do contrato social é o pano de fundo para a mania moderna da comida limpa, da vida saudável, da produtividade pessoal e  do“amor próprio radical” – a insistência em dizer que, apesar de todas evidências em contrário, podemos alcançar uma existência significativa se mantivermos uma visão positiva, seguirmos nossa bem-aventurança e fizermos alguns alongamentos enquanto o planeta pega fogo. Quanto mais assustadoras as perspectivas econômicas e quanto maior o nível das águas, mais as conversas públicas se voltam para a realização pessoal, talvez numa tentativa desesperada de nos fazer sentir que ainda temos algum controle sobre nossas vidas.

A Coca-Cola nos encoraja a “escolher a felicidade”. Políticos tiram uma folga do seu trabalho de construção de uma carreira sobre os destroços da democracia para nos lembrarem da importância do exercício regular. Blogueiros de estilo de vida insistem, para as suas centenas de milhares de seguidores, que a liberdade se parece com uma mulher branca praticando yoga sozinha numa praia. Uma destas imagens (no Instagram @selflovemantras) nos informa que “quanto mais você se amar, mais rica você será”. É um sentimento encantador, mas os proprietários de imóveis ainda não aceitam receber o aluguel em amor próprio.

Todo este pensamento positivo pode ser prejudicial? Carl Cederström e André Spicer, autores de The Wellness Syndrome [A Sindrome do Bem-Estar], certamente pensam que sim, argumentando que a ritualização obsessiva do auto-cuidado acontece as custas do engajamento coletivo, reduzindo todos os problemas sociais a uma busca pessoal por uma boa vida. “O bem-estar”, eles declaram, “se tornou uma ideologia”.

Há uma dimensão política óbvia no argumento de que o bem-estar pode ser produzido espontaneamente se houver a atitude correta. Meses após ser eleito o líder do governo mais à direita na história britânica recente, David Cameron, o homem com cara de iogurte, lançou uma mal sucedida “agenda da alegria”. O esquema poderia ter sido mais bem recebido se o antigo primeiro-ministro não estivesse, simultaneamente, engajado em dizimar os sistemas de saúde, de bem-estar social e de educação superior – a própria estrutura social que faz com que a vida seja possível para as pessoas britânicas comuns. Como parte das mudanças de Cameron ao sistema de bem-estar social, o desemprego foi renomeado como desordem psicológica. De acordo com um estudo publicado no jornal Medical Humanities, no meio da mais longa e profunda recessão que temos viva na memória, as pessoas desempregadas foram encorajadas a tratar sua “resistência psicológica” ao trabalho, através de cursos obrigatórios que as encorajavam a ter uma atitude mais alegre frente à sua própria miséria. Elas eram obrigadas  a ouvir arengas com mensagens de textos motivacionais, dizendo que “sorrissem para a vida” e que “o sucesso é a única opção”.

Este modo de coerção tem sido adotado por empregadores também, como Cederström e Spicer apontam. Empregados com contratos sem garantias trabalhistas em um depósito da Amazon, “ainda que estejam em uma situação precária… são obrigados a esconder seus sentimentos e projetar uma imagem de confiança, energia e empregabilidade”. Tudo isto provoca a pergunta: Para quem exatamente eles precisam se sentir bem?

A ideologia do bem-estar é um sintoma de uma doença social mais ampla. Os rigores do trabalho e do desemprego, a colonização de todos os espaços públicos pelo dinheiro privado, a precariedade da vida cotidiana e a crescente impossibilidade de se construir qualquer tipo de comunidade nos exilam  em nossa luta solitária pela sobrevivência. Devemos acreditar que só é possível melhorar nossas vidas no mesmo nível individual. Chris Maisano conclui que, enquanto “o apelo das abordagens individualistas e terapêuticas aos problemas do nosso tempo não é difícil de compreender… é apenas através da criação de solidariedades que reconstruam nossa confiança em nossa capacidade coletiva de mudar o mundo que seu domínio poderá ser rompido”.

A ideologia individualista do bem-estar trabalha contra este tipo de mudança social de duas maneiras importantes. Primeiro, ela nos persuade de que se estamos nos sentindo doentes, tristes e exaustas, o problema não é econômico. Não existe equilíbrio estrutural, de acordo com esta visão – há apenas nossa desadaptação individual, que requer uma resposta individual. Aqui, a lógica do abuso e do gaslighting* é apropriada: se você se sente miserável e com raiva porque sua vida é uma luta constante contra a privação e o preconceito, o problema está sempre e somente em você. Não é a sociedade que é louca e bagunçada: é você.

Em segundo lugar, ela nos impede de sequer considerar uma reação mais ampla e coletiva para as crises do trabalho, da pobreza e da injustiça. Esta é a lógica defendida por gurus da produtividade pessoal, como Mark Fritz, que nos diz, em The Truth About Getting Things Done [A verdade Sobre Como Fazer as Coisas]:

“A maior barreira para atingir o sucesso que você definiu para sua vida nunca é outra pessoa ou as circunstâncias que você encontra. Sua maior barreira é quase sempre você… Dr. Maxwell Maltz, autor de Psycho-Cybernetics [Psicocibernética], diz isso melhor: Dentro de você, neste momento, está o poder de fazer coisas que você nunca sonhou serem possíveis. Este poder se torna disponível assim que você muda suas crenças”.

Esta é, obviamente, uma mentira gigantesca – mas sedutora, de qualquer maneira. Seria muito bom acreditar que tudo o que é necessário para mudar sua vida é repetir algumas afirmações e comprar uma agenda, assim como já foi reconfortante para muitos de nós confiar que as durezas deste plano de existência seriam recompensadas por uma eternidade de felicidade no paraíso. Há uma razão para que os rituais de bem-estar e auto-cuidado sejam seguidos com a precisão de um culto (faça isto e você será salvo; faça isso e você estará seguro): eles são uma prática de fé. É valioso lembrar que a descrição de Marx para a religião como sendo o ópio das massas é frequentemente mal-interpretada – o ópio, na época em que Marx escreveu, não era conhecido apenas como uma droga de abuso, mas como um analgésico, um alívio quando o trabalho de sobreviver se tornava insuportável.

Com a linguagem do auto-cuidado e do bem-estar quase completamente colonizada pela direita política, não é de surpreender que pessoas progressistas, libertárias e grupos de esquerda tenham começado a fetichizar uma espécie de desesperança abjeta. O pensamento positivo se tornou profundamente fora de moda. Os garotos punk americanos que eu conheço o descrevem, com desprezo, como “posi”. Os britânicos, logicamente, o descrevem como “americano”. Seja como for que você o chame, ele se parece muito com a desistência.

Em um ensaio brilhante na revista Open Democracy, a ativista Chloe King escreve:

“Mudar sua atitude não vai mudar ou ajudar a desmantelar a injustiça estrutural e o modelo econômico falido e insustentável que serve apenas às elites ricas deste mundo e explora o restante de nós, particularmente a classe trabalhadora e as pessoas que vivem em pobreza. Em minha opinião, o pensamento positivo irá arruinar sua vida. ‘Apenas pense positivo’ é um precursor de ‘vai ficar melhor’, e a dura realidade é que ficará apenas muito, muito pior para os mais vulneráveis”.

Há verdade aqui. O que também é verdade, no entanto, é que as pessoas mais jovens que eu conheço que, em geral, oferecem os piores cuidados básicos a si mesmas, individualmente – as pessoas cujo problema não é não beberem água de aspargo o suficiente, mas sim não beberem nada o suficiente que não seja vinho velho tirado de uma embalagem longa-vida – são aquelas que fizeram parte dos levantes estudantis e Ocuppy durante 2010 a 2012 e experimentaram, brevemente, o que significa viver de uma forma diferente. O que significa fazer parte de uma comunidade com objetivos comuns, na qual cuidado mútuo e apoio não ficavam por último. O trabalho solitário de oferecer a si mesma os cuidados básicos enquanto se aguarda pela mudança do mundo é um substituto pobre disto. Quando você está se sentindo desgastada  e exausta por ter colocado seu corpo na linha de frente para lutar contra o estado, é especialmente  irritante  ouvir que você deve sorrir e comer mais grãos integrais.

Quando a modernidade nos ensina a odiar a nós mesmas e então nos vende soluções rápidas para o desespero, podemos ser desculpadas por  empacarmos  no momento de pagar a conta. Millenials ansiosos agora têm uma escolha entre narcisismo desesperado e miséria excruciante. Qual é o melhor? Esta pergunta não é retórica. Por um lado, os gurus da felicidade do Instagram fazem com que eu queira me afogar num smoothie de couve. Por outro, estou cansada de ver as pessoas mais brilhantes que conheço, os lutadores e artistas e pensadores radicais malucos, cujo trabalho de vida poderia realmente melhorar o mundo, tratarem a si mesmos e entre si de forma pavorosas com a desculpa, explícita ou implícita, de que qualquer outra abordagem da vida é contra-revolucionária.

Algumas das críticas da esquerda ao auto-cuidado como conspiração neoliberal tem a ver com a desconsideração do trabalho que as mulheres e as pessoas queer têm para sobreviver. “Já ouvi o feminismo sendo desconsiderado como uma forma de auto-indulgência”, escreve a professora Sara Ahmed, da Universidade Goldsmiths de Londres. Eu também. Ouvi homens da esquerda reclamarem que as políticas anti-sexistas e anti-racistas são irreparavelmente individualistas, enquanto, ao mesmo tempo, se recusam a fazer o trabalho básico de auto-cuidado e cuidado mútuo que mantém a esperança ativa e a saúde possível, porque este é um trabalho para as mulheres, indigno em comparação a assistir sua vida se destroçar enquanto você aguarda pela revolução ou por alguma garota para recolher os pedaços, o que acontecer primeiro.

A esquerda tem um talento especial para chafurdar contraproducentemente em teorias. “O neoliberalismo ganha muito quando todas as formas de auto-cuidado se tornam sintomas dele’, escreve Ahmed. “Quando o trabalho feminista, queer e contra o racismo, que envolve compartilhar nossos sentimentos, nossa dor e luto e reconhecer que o poder vem de dentro, é chamado de neoliberalistmo, nós temos que ouvir o que não está sendo escutado… Ter um mundo contra você pode ser resultar no seu corpo se voltando contra sim mesmo. Você pode acabar exaurida por aquilo que mais pede o seu engajamento”.

Neste ponto eu confesso a vocês que estou fazendo yoga há dois anos e que ela mudou minha vida de uma forma da qual eu quase me ressinto. Treinei dedicadamente, durante e após as aulas, para encontrar força interior o suficiente para não ter um ataque de riso quando a instrutora termina a aula declarando: “deixo que a luz em mim honre a luz em você”. Ela é uma pessoa muito legal, que sorri o tempo todo como se fosse uma professora de jardim de infância bêbada e provavelmente poderia me matar com os músculos do seu abdômen, então eu me seguro para não informá-la que a luz dentro de mim, por vezes, é a de um prédio do governo pegando fogo.

Cachorro olhando para baixo não é uma posição radical. Contudo, este asana em particular está entre as pequenas concessões que eu faço ao auto-cuidado, enquanto aguardo pelo fim do patriarcado e pela destruição do sistema monetário. Bebidas saudáveis com carvão ativado caríssimas não liberam nada além da sua carteira e seu cólon, em rápida sucessão, mas caminhadas pelo parque são gratuitas e eu, ocasionalmente, saio no sol e tento absorver um pouco de vitamina D sem me preocupar com câncer de pele, geleiras derretendo ou os milhões de pessoas se afogando em Bangladesh. Eu não sobrevivo mais inteiramente de nuggets de frango, cigarros e cuspe. Por vezes eu tiro um dia de folga, porque se tornou aparente que a revolução não estava caminhando nem um pouco mais rápido quando eu estava doente e triste durante  todo o tempo. O capitalismo tardio é uma boa desculpa para qualquer um de nós não sair da cama, mas me esconder embaixo do cobertor me preocupando com Donald Trump é um jeito bem ineficaz de confrontar o homem.

O problema com a maneira pela qual compreendemos o amor próprio atualmente está na nossa própria visão do amor, definido, muito simples e frequentemente, como sendo um sentimento extraordinário ao qual respondemos com corações, flores e fantasias, consumação ritual e paixão sem afeto. A modernidade nos faz vagar atrás de nós mesmas como adolescentes meio assustadoras, com os corações partidos, tirando selfies e dizendo a nós mesmas quão especiais e perfeitas somos. Isto não é amor-próprio real, não mais do que um homem assobiando para uma bunda feminina na rua ama a sua dona.

O trabalho mais duro e aborrecido do auto-cuidado é o esforço diário e impossível de levantar da cama e seguir sua vida em um mundo que nos preferiria acuadas e complacentes. Um mundo cuja lógica abusiva quer que não enxerguemos problemas estruturais, mas apenas problemas conosco mesmas, ou com aquelas pessoas mais marginalizadas e vulneráveis que nós. O amor real, do tipo que conforta e permanece, não é um sentimento, mas um verbo, uma ação. Refere-se ao que você faz por outra pessoa ao longo dos dias, semanas e anos, ao trabalho e ao investimento de energia no  cuidado. É o tipo de amor que somos terríveis em oferecer para nós mesmas, especialmente na esquerda.

A esquerda ampla poderia aprender muito com a comunidade queer, que há tempos tem tomado a atitude de cuidar de si mesma e de seus amigos em um mundo de preconceito não como uma parte opcional da luta – mas, de muitas formas, como a própria luta. A regra número 1 da escritora e ícone trans Kate Bornsteirn é “Faça  o que quer que seja necessário para tornar sua vida mais digna de ser vivida. Apenas não seja maldosa”. É mais que provável que uma das razões pelas quais as comunidades trans e queer continuam a obter tantos ganhos culturais, apesar da oposição violenta, seja o amplo reconhecimento de que o auto-cuidado, o auxílio mútuo e o apoio gentil podem também ser ferramentas de resistência. Após o massacre de Orlando, pessoas LGBTQ em todo o mundo começaram a postar selfies com a hashtag #queerselflove. No meio do horror, do luto público e do medo, pessoas queer de todas as idades e origens ao redor do mundo se engajaram em um tipo de alegre celebração de si mesmas e umas das outras.

A ideologia do bem-estar pode ser exploradora e a tendência da esquerda de fetichizar o desespero é compreensível, mas não é aceitável – e se gastarmos energia odiando a nós mesmas, nada irá mudar nunca. Se a esperança é muito difícil de manejar, o mínimo que podemos fazer é tomar os cuidados básicos conosco mesmas. Nos meus dias mais cinzentos eu me lembro das palavras da poeta e ativista Audre Lorde, que sabe uma coisa ou duas sobre sobreviver em um mundo desumano e que escreveu que o auto-cuidado “não é auto-indulgência – é auto-preservação, e isto é um ato de luta política”.

*o gaslighting é uma forma de abuso psicológico que leva a vítima a questionar sua própria sanidade.

 

 

VERGONHA E DESCONEXÃO: AS VOZES DA OPRESSÃO AUSENTES EM “O PODER DA VULNERABILIDADE”, DE BRENE BROWN – Rachel Cohen-Rottenberg

Como terapeuta, acredito que é impossível desconectar o trabalho clínico das questões sociais.  Qualquer intervenção num organismo é, também, intervenção em um sistema, e o contrário também é verdade. Tenho observado na minha prática que as forças sistêmicas que atuam no sentido da alienação, da desconexão e do desempoderamento são, em última instância,  as maiores responsáveis pelo sofrimento que faz com que as pessoas busquem por apoio terapêutico.  

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Original em inglês: http://thebodyisnotanapology.com/magazine/shame-and-disconnection-the-missing-voices-of-oppression-in-brene-browns-the-power-of-vulnerability/ Tradução: Angelica Rente

Meu primeiro contato com o trabalho de Brene Brown aconteceu após várias pessoas amigas me dizerem que eu tinha que assistir a palestra dela no TED, O Poder da Vulnerabilidade. Elas acreditaram que eu adoraria. Achavam que seria a melhor coisa.

Apesar do encorajamento, eu ficava adiando. Acho que seria fácil me psicoanalisar e dizer que eu estava resistindo à necessidade de me confrontar com minha própria vulnerabilidade, mas a resposta é bem mais simples: eu tenho dificuldades de audição e não havia legendas no vídeo. Então, eu precisava de uma transcrição da palestra para poder acompanhar o vídeo e estava muito ocupada para procurar por ela.

Esta falta de acesso relacionada a uma limitação é importante, porque é uma indicação de problemas maiores com a palestra em si. Quando procurei, encontrei a transcrição e assisti à palestra, assim como sua complementação, Escutando a Culpa (para a qual eu também encontrei uma transcrição).

No início, eu gostei bastante delas. Era tão reafirmador e familiar, sabe? Quer dizer, quem não tem problemas com ser vulnerável – nas relações pessoais, no corpo, no mundo? Quem não luta com a vergonha? Quem não tem problemas de conexão? Pouquíssimas pessoas.

Mas algo estava faltando. Muitas coisas estavam faltando, na verdade. De fato, faltava tanto que o que Brown tinha a dizer, no final, não guardava muito poder, na minha opinião.

O que faltava era, ao mesmo tempo, imensamente vasto e surpreendentemente simples: contexto social. Quase tudo sobre o que Brown falava – nosso medo da vulnerabilidade, nossa falta de conexão, nosso senso de vergonha – referia-se à psicologia individual, com absolutamente nenhum reconhecimento de que pessoas diferentes ocupam contextos diferentes que englobam todas estas questões. Por exemplo, no início de O Poder da Vulnerabilidade, Brown coloca uma questão: por que as pessoas se sentem tão desconectadas umas das outras? E a responde de uma forma muito simples: Vergonha. A vergonha, ela acredita, é a culpada:

Eu me deparei com esta coisa sem nome que desfazia conexões de um modo que eu não compreendia ou já tivesse visto. E então eu me afastei da pesquisa e pensei: preciso descobrir o que é isto. E era a vergonha (Brown, 2010).

Eu não sei quanto a você, mas eu posso pensar em um grande número de outras razões que fazem com que as pessoas experimentem poços profundos de medo, alienação e desconexão umas das outras: racismo, capacitismo, homoantagonismo, transantagonismo, gordofobia, classismo, etnocentrismo, pobreza, supremacia branca, a tirania da normalidade, a distribuição desigual de renda, violência, guerras, o complexo prisional-industrial, o isolamento da deficiência, anti-semitismo, islamofobia, sexismo e binarismo. Só pra nomear algumas delas.

Ainda que eu adorasse ter uma resposta simples ao problema da desconexão, eu sinto muito, mas não posso reduzi-la à culpa pessoal.

As intolerâncias que as pessoas enfrentam causam vergonha nelas? Às vezes, sim, mas vamos encarar: a desconexão não será resolvida apenas ao superarmos a vergonha. Pessoas de qualquer grupo marginalizado podem fazer todo trabalho pessoal em si mesmas que quiserem, mas este trabalho não irá magicamente retirá-las das margens e conectá-las à sociedade como um todo. Se você está nas margens, não é por sua atitude, que causa desconexão. É devido ao estigma e à exclusão sistêmica. Eu posso ser a pessoa com deficiência mais psicologicamente saudável e evoluída espiritualmente do planeta, mas isso não vai resolver as barreiras sociais, sensoriais e arquitetônicas que reforçam minha desconexão diária com um mundo feito para corpos capazes.

Na minha experiência com uma variedade de terapeutas nos últimos 30 anos não foi incomum a recusa de considerar o contexto social. Tive apenas uma terapeuta na minha vida adulta que foi capaz de conversar comigo sobre meus sentimentos e lutas no contexto de ser uma mulher com deficiência nos EUA. Apenas uma. O resto? Estar em seus consultórios era como entrar em uma cabine a prova de som na qual as exclusões clamorosas e as intolerâncias do mundo simplesmente não entravam.

Deixem-me dar um exemplo de como é falar sobre deficiência com a maior parte dos terapeutas. Tive a conversa a seguir com uma terapeuta enquanto eu estava apenas começando a lidar com o fato de ser uma pessoa com deficiência na meia-idade. Eu a postei no meu blog Jornadas com o Autismo três anos atrás, assim que eu decidi que a terapia não estava mais servindo à minha saúde mental:

Eu: Quando você escreve seus relatórios sobre nossas sessões, você inclui um diagnóstico?

Minha terapeuta:  Não

Eu:  Se você fosse me dar um diagnóstico, qual seria?

Terapeuta: Bem, você definitivamente tem um transtorno de humor.

Eu: Tenho?

Terapeuta: Sim.

Eu: Como você define isso?

Terapeuta: Bem, você é ansiosa e bastante triste.

Eu: Isto significa que eu tenho um transtorno?

Terapeuta: Sim.

Eu: Mas olhe para a minha situação. Estou lidando com o fato de ser uma pessoa com deficiência na meia-idade. O mundo não está preparado para receber uma pessoa como eu como membro pleno da comunidade. Na verdade, eu me sinto invisível na maior parte do tempo. Isto me deixa triste. Estou enlutando. Qualquer pessoa se sentiria triste e aborrecida com esta situação. Por que isto significa que eu tenho uma desordem?

Terapeuta: Porque este é o seu problema.

Eu: O que você quer dizer com “é o meu problema”? Eu vivo em uma sociedade que me considera invisível. Por que não é um problema da sociedade?

Terapeuta: Porque é seu problema.

Eu: Mas eu não posso resolvê-lo sozinha. Eu percebo que eu tenho que lidar com o que me foi dado, mas você não pode esperar que eu suporte alegremente o peso de toda esta dificuldade. Há uma relação entre o mundo e eu. E quanto à disfuncionalidade do mundo? Por que a culpa é toda minha?

Terapeuta: [sorriso bondoso]

Eu: Você entende o que eu estou falando?

Terapeuta: Sim, e é seu problema, ainda.

Eu: Não acho que a gente vá chegar a lugar algum.

Como você pode imaginar, esta conversa não melhorou o meu humor. Subitamente, toda a responsabilidade por meus sentimentos de vulnerabilidade e desconexão recaiu somente sobre mim. De alguma forma, eu tinha que resolver o problema de viver sob o peso da exclusão e da intolerância sem me referir absolutamente a este peso. Não era o mundo que tinha um problema chamado capacitismo. Não, era eu que era disfuncional. Mas eu precisaria estar completamente dissociada para caminhar por ai alegremente esquecida das forças sociais que estavam pesando sobre mim todos os dias.

Na psicoterapia, experimentei esta omissão em relação ao contexto social como causadora de vergonha, desconexão e alienação profundas. Coloquei toda a responsabilidade por mudar minha atitude, minha perspectiva e minha narrativa interna sobre meus ombros, sem nunca questionar as forças externas que tornam esta mudança tão difícil. Se eu tenho responsabilidade sobre como eu ando pelo mundo? Certamente. Isto é inquestionável. Mas não é só isso que existe, e a idéia de que cabe somente a mim condena todo o projeto “sentir-me bem sobre mim mesma” ao fracasso.

Durante todos os anos em que estive em terapia, apenas uma terapeuta fez referência às forças sociais causadoras de vergonha, desempoderamento e desconexão que tornavam tão difícil para mim clarear minhas ideias e ter uma visão positiva sobre mim mesma. Antes de encontrar esta terapeuta, minha falta de habilidade de encontrar esta autoestima básica se tornou o indicador do meu fracasso pessoal. Coloquei uma grande quantidade de energia emocional na solução destas “questões” relacionadas aos meus sentimentos de desconexão e alienação, como se elas fossem algum tipo de desajuste, enquanto as injustiças sistêmicas às quais elas respondiam permaneciam em seu lugar. Quando eu não pude mais fugir destes sentimentos, foi-me dito que eu deveria trabalhar mais intensamente neles. Graças a Deus eu descobri que meus sentimentos eram uma resposta perfeitamente razoável a um mundo duro e injusto. Se eu não tivesse descoberto este simples fato eu ainda estaria em terapia, me perguntando o que estava errado em mim que fazia com que todo meu trabalho duro não me levasse a lugar algum.

Se eu acredito que todas as pessoas do campo da assistência social, como Brene Brown, ou qualquer uma que tenha treinamento terapêutico têm a intenção de causar vergonha ou desempoderamento? Não, não acredito. Na verdade, acho que a maioria delas é bastante bem-intencionada e quer ajudar as pessoas, mas eu acho que o trabalho delas tem seu lugar. Ele certamente me ajudou em outros aspectos. Mas sem o contexto social, seu trabalho se torna profundamente problemático, e muitas das questões que emerjem estão refletidas nos vídeos de Brown.